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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Confissão de um suposto delito

Emicida e Dona Jacira - Fernando Gomes
Emicida e Dona Jacira Imagem: Fernando Gomes
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

22/08/2021 06h00

Dei um Drummond a Leandro, nem era data especial nem nada, dei porque quis. As mães tem este salvo-conduto, quis dar, dei, tá dado né? Não, nunca foi assim, com Mãe o buraco é sempre mais pra cá ou mais pra lá. Nem lembro o conteúdo, mas senti no meu entender que era pra ele, nem discuto comigo levando em conta que sou péssima pra escolher presentes, sou capricorniana super terrena, me baseio sempre em serve e em não serve. Queria comprar dois, mas só tinha um, era o último.

- Esgotou, nem edita mais - me foi dito.

Pronto, ali o vendedor me trouxe um problema,

- Por quê? Como não existe esta possibilidade se eu acabei de conhecer o livro? Posso falar com o autor?

Quis logo me dar importância, como perguntadeira que sou, dar tratos a fala, saber do escritor a causa. Tudo tem uma causa, inclusive pode ser que ele escreva pouco ou não reponha os estoques e prefira deixar as prateleiras vazias. É o escritor que repõe os estoques?

Os homens mandam na escrita, as tem refém de si eu achava. Houve tempos em que eles inclusive assinavam coisas que mulheres escreviam, porque a sociedade achava que mulher não poderia escrever e pensar, que absurdo!

Minha escola mesmo pensava assim, as professoras rasgavam o que eu escrevia e achavam absurdo um texto com começo, meio e fim ter sido escrito por mim, uma criança ainda.

Quantas acusações recebi de ter roubado os escritos que minha intuição me ditava. Jung passou pelo mesmo problema e se tornou filósofo, médico e estudioso, porque era branco e homem, a mim restou teimosia e negação, a teimosia venceu. Tempos atrás eu ainda acreditava que só homens escreviam, pensavam e vendiam livros. Por isso, na frente das papelarias e livrarias só tinham homens, eu pensava assim. E já achava injusto porque eu pensava, ainda penso e sinto. O vendedor brincou comigo dizendo que poderia sim, noutra vida.

- Vish, ele já morreu, tava doente? Doença grave?

Qualquer doença é grave. Diante deste problema titubeei entre dar ou não o livro ao minino.

- Dou, depois peço emprestado, num outro dia. Dou, não dou, dei.

Nunca pude oferecer livros aos meus filhos, nem a mim tampouco. Liamos a Serra da Cantareira e as ruas do Jardim Ataliba Leonel, em especial a Rua Lucas Alaman, onde moramos muito tempo. Que tem o nome deste cara que a gente nem imagina quem seja, mas eu suponho que é um padre, a igreja adora lotear os espaços da gente com o macharal dela igual os cães fazem nos postes diariamente, marcar território é o sermão deles.

Como tivemos poucos livros, agora quero recompensar. Será que se cuidaria bem de um livro? Digo porque eu fiz muita rabiola de pipa com folhas de jornal que nunca dei importância em ler. Cismo que filhos, filhas e a pessoa que os criou tem hábitos iguais, herdei este hábito horrível de julgar, acho que foi de andar com as pessoas daqui e de mãe. Sou bagunçada, um tanto egoísta, logo transfiro as proles o meu julgo, estou em tratamento. A vida é repleta de porquês e alguém deve pagar por isto pra diminuir as incógnitas de minha vida. Sou assim desde que era russa na cozinha de minha mãe, aprendi sendo ouvinte nas muitas viagens que faço pela vida afora. Mãe respondia com silêncio, muxoxo, cascudo e comida. Este último item amenizava a choradeira, fincou pé no ndotolo, ainda sinto o cheiro da cozinha dela, dei um passo a mais e conheci outras respostas. Perdi o conteúdo da velhinha, pra entender que ele estava entre os melhores, todo lugar é lugar de aprender como um livro, mas nem todos são feitos pra folhear, como feira ou coletivo que nos engolem de ponta a ponta, repare, se não é um livro. Toda vez que aumenta o preço da passagem sempre tem alguém que quer saber do cobrador o porque ele subiu o preço. Tirando a responsabilidade das costas do poder tributário que rege a nação e colocando ali nas costas do funcionário chamado de cobrador. Ali o narrador aproveita pra deitar a própria história, contar sua vida, por a gente pra dentro dos anais dos alfarrábios dele. Como se nós outros precisássemos saber da vida dele, que ganha pouco, tem filhos para criar, ou os queria e não os têm, que vive só, tem gato e periquito, essas coisas que quase todo vivente tem. Às vezes a pessoa aproveita o coletivo pra desabafar, né? Abrir-se em bandas, usar as orelhas sem pálpebra do público. Do jeito que tudo tá caro a pessoa nem tem um qualquer pra uma terapia, hoje em dia tá até na moda ser escaneado por um terapeuta, cutucar as entranhas da gente logo cedo com assuntos de governo fora de período de eleição. É dar a um indivíduo uma importância que ele nem está pedindo ainda. A viagem muitas vezes é até demasiado curta para tal explanação.

Um livro é para muitas idas e vindas, e muita gente gosta de usar a viagem para descanso ou inclusive para esquecer de si, muito embora, hoje em dia, qualquer viagem tenha mais propaganda e venda que o YouTube, mais sugestões de comida e dieta que o Instagram.

Voltando a minha bagunça, sou bagunçada pra fora, para dentro tenho as prateleiras da alma organizadas, destas que tem mente criativa, me levanto e pronto, já me ponho a criar, saem montão de coisas da minha idéia. Pra complementar, me alimento de muitos autores, empilho todos eles aos pés de mim, absorvo e concluo a obra, acho bonito que minhas ideias sabem para onde devem voltar e voltam, mas a bagunça de livros, estas nunca retornam, são desobedientes e no dia a dia se juntam a outras coisas empilhadas com o mesmo costume. Aí eu penso que filhos são assim, como eu. Assim sendo, dei o livro a ele, com a esperança de dar-me um do mesmo em breve. Tempo breve é breve.

Noutro tempo voltei à livraria para comprar o meu, vai que seu Drummond mandasse uma ordem do além.

- Está em falta - disse o vendedor.

- Caramba ainda em falta, e agora?

Sou amiga do gerente que também é meu analista, gastei uns cobres nesta pendenga na sessão.

- Minha amiga, Drummond está noutra esfera para onde um dia iremos. isto é fato.

- Mas não de todo, ele vive por ai cutucando os curiosos e escritores como você. Não se demore nesta inércia, bote suas indignações no papel. Plante seus sonhos, suas invejas, amores, aborrecimentos nas ideias alheias, faça canteiros de incógnitas, agradeça este Drummond que lhe chegou às mãos, mas não queira que eu decida destinos? Vou te deixar contente, às vezes alguém, por alguma carga d'água, cisma de reeditar. Por hora meta-se com seus piolhos.

Quase que conformei, mas não, desde então uma entidade entrou em mim ou sobreviveu de outros tempos, uma baixeza que eu tenho um sésto de dar e querer de volta. Agora o menino nem tinha tempo pra ler, vivia às voltas com trabalho, família, cachorro, talvez aquele livreto nem lhe fizesse diferença. Foi aí que, dei de pensar em visitá-lo sorrateiramente e roubar o livro que eu havia lhe dado de presente, fazia planos, calculava, tocaiava ele, um dia quem sabe, ou a livraria me vende um ou eu vou incorrer neste artigo. Desde então, dei de visitar a casa dele com más intenções, e já me vendo vitoriosa imaginava ele indagando:

- Visse o livro tal, tal, tal assim, assim por aqui, aquele que mãe me deu?

Ele não diria assim: o Drummond. Diria de outras maneiras, que nós que temos intimidades com o escritor temos jeitos e tatos pra chamá-lo pelo nome, caso falemos com entendedores. Já com leigos a fala precisa minúcias, explicar miudinho e colocar os pingos nos is.

Pensamentos errantes iam comigo, eu queria pecar, ter razões pra ir a um confessionário interno, bibliotecário mais pra frente. Sagrados para mim são bibliotecas, teatros e espelhos, a cabeça se ria pra dentro de mim imaginando a cena pensando: será que pensaria se fui eu?

De onde vem um pensador? Todo pensador vem da maravilha de pensar mesmo, e muito embora a sapiência caucasiana diga que só há pensadores e filósofos brancos. Isto já está desmentido. É mentira deles, eles mesmo beberam em muitas fontes antes de destruí-las. Eu penso, você que está lendo pensa, logo pensante somos, alguém precisa dizer isto a eles, nem que seja uma mãe como eu.

Nós sentimos também, eu mesma sinto várias coisas toda vez que me perguntam como criei este menino. E por mais que me perguntem eu não tenho uma grande explicação a dar. Uma mãe como eu, que pariu cinco vezes, não escolhe a forma como criara cada um. Comeram, beberam, estudaram, brincaram, dormiram sempre no mesmo lugar, da mesma forma. Menos a pequenininha que Deus veio buscar novinha.

Sem política pública, sem pai e quase sem mãe, Leandro sempre disse que seria várias coisas, loteou seus espaços com seus sonhos, desenhou a sua estrada de forma que todo dia ele entrasse um tanto pra dentro dela, moldou o caminho da criança dele pra chegar onde queria, potencializou-se. Conseguiu ascender o próprio sol e o sol da gente. Gestou e pariu Emicida, e segue gestando potência, acendendo sóis noutras pessoas, ninguém realiza um sonho sozinho, pra chegar em algum lugar é preciso contar com uma legião de gente viva e ancestrais. Rendo homenagem a quem acreditou nele, irmão, irmãs, amigos e gente que eu nem lembro ou não conheço. Não se chega a lugar algum sozinho! Dizia eu que pensei roubar o presente livro que dei a ele. Mãe, se vier a tomar conhecimento deste texto, dirá que alguém criado por uma mãe assim dificilmente virará gente. Lembrando que na visão de mãe, ser gente nem é ser artista.

Dei de visitá-lo, mirando a biblioteca, mas ali o livreto escondeu-se de mim deixando-se ficar encoberto por outros autores.

Nunca tive biblioteca, não era o momento, pra ter livros é preciso ter uma família literária que nos abra o caminho e eu estava longe deles naquele tempo.

Fui tosquiar e saí tosquiada, tentando encontrar meu livro ou o livro dele ali na casa dele, me divertia com a netinha e distraia na horta, findava-mos na cozinha testando receitas, entrei pra seduzir e fui seduzida. Vendo minha alegria em entrar na livraria dele e sem saber de minha intenção, deu de me presentear com livros e estórias reais de cada lugar que visitava. E me dizer que eu deveria escrever um livro, das mãos dele me chegaram livros que falavam da diáspora de nossos ancestrais africanos. Somos seres pensantes, poetas e bordadores, cozinheiros, filhos, netos e bisnetos de fazedores criadores. Onde quer que estejamos, somos o mesmo que foram nossos ancestrais, renovados a situações atuais pós diáspora. Foi o que encontrei vasculhando caminhos de livros de Leandro, até esqueci o que procurava porque ali me encontrei como mulher fula ou fulani cheia de poderes inimagináveis. Uma matriarca mulherista que reconheceu a importância da própria mãe, tão parecida com as mamas de lá, eu encontrei minha nação, eu me descobri como uma grande pensadora. Uma mulher negra periférica com quatro filhos, é preciso pensar todos os dias na multiplicação dos pães e da palavra. A palavra é viva, é vida e se frutifica na boca de nossas crianças, o instinto do escritor também chamado ego ou acaso é exigente. Já sai da casa de Zambi com endereço certo, vem rente e quente bater na porta do recebedor.

Os livros sabem onde querem chegar, e eis que com o tempo ele mesmo me chamava a sua toca e me apresentava autores que eu precisava conhecer. Panos de África, Desenhos de Aquarela, e tome mais autores, o caso é que deixei pra lá o Drummond, esqueci até. É natural gente como eu sonhar com soluções de seus problemas, eu recebi um recado do próprio autor, para que descansasse o assunto, arriasse a matula nas areias do tempo e escrevesse. O livro não me queria acompanhar queria ficar ali atado a aquela caixa de madeira jovial, acho que ele sabia que meu espírito ainda não estava arranjado e se viesse morar comigo naquele tempo sofreria demais, se ele quisesse mesmo ir comigo não teria se escondido por detrás da poeira da sala de leitura, entre o bando de outros como ele. Eu abanei as fumaças de querença de dentro de mim e a verdade veio feito espuma no mar, a montanha de livros tornou-se espelho de mim, eu não queria o livro na verdade, queria o motivo para visitá-lo, por derradeiro, adoro esta palavra. Ouvia muito da boca de Dona Antônia na roda do poço, e por mais que o corretor do Google e o revisor me digam que ela não existe, eu sei que ela quer dizer? Por último. E como o livro é meu, o conto é meu, quem por derradeiro encerra? Eu. Dizia eu então que um dia o próprio Drummond em sonho me disse: Mas por que esta cantilena esta busca incansável, este desejo que nunca finda de reaver algo que nem seu mais é? Sossega mulher, dê linha para esta pipa ou vai ou fica e descubra o que lhe apoquenta, descubra porque deu o livro a ele afinal."

E assim se deu, no entanto, um dia lembrei de uma história do livro, dizia de Dona Coló o seguinte: Dona Coló tinha um menino que pra ela era mentiroso. Cada dia ele trazia uma novidade da escola da rua, ela usou todas as alternativas da época tentando educá-lo de forma que ele não inventasse mais nada. Um dia ele contou algo bem maior e ela então resolveu levá-lo ao médico da família. Depois de examinar o rebento, o médico descobriu finalmente o que ele tinha.

- Dona Coló, este menino é um caso grave de poesia.

Foi por isso que eu dei o livro a ele, ele é minha terceira poesia parida e agora em agosto, dia 17, faz anos. Há anos enfeita as prateleiras da minha vida, e de mais a mais eu entendo pouco de música e acabamos nos enfiando em coisas de horta e cozinha, e deu no que deu.

Uma dona metida em literaturas, um menino metido no mato, e os dois dentro de si. E Drummond conversando com Amadou Hampâté Bâ, Pixinguinha, e Bunseki Fukiaul ao ver a busca concluída passou a mão pela testa e disse: Às vezes a gente tenta morrer e não consegue.

Asé.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL