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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A sumida

A SUMIDA - Victor Balde
A SUMIDA Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

15/08/2021 06h00

O brilho de um olhar

- Manhêêêêêêêêê!!! Tem gente chamando.

- Quem é?

- Disse que sua mãe tá li chamando.

- Oxi, tá loca? Sua vó morreu.

- A filha dela tá li chamando, a sumida.

- Como?

Entre mãe e bisa sempre tinha uma refrega se por acaso o nome de uma certa senhora vinha à tona. Era pra ser uma história de amor, como imaginar que uma história interracial iniciada por amor entre minha vó e meu vô terminaria na condenação de seus filhos e filhas e seguiria separando uma família inteira. Era pra ser uma história de amor.

Mãe respondia:

- A senhora sabe o que é ser uma criança e não poder passar perto da casa da sua mãe?

Ela tinha vergonha da nossa cor, deu a gente em adoção.

- Onde a senhora tira razão pra defender sua filha?

- Jesus perdoou setenta vezes sete, parecida, ela teve suas razões.

- A senhora fique com sua razão, com seu Deus cheio de paciência, me deixe em paz que quem cresceu abandonada foram meu irmão e eu.

A cada visita a bisa tentava trazer sua filha pra dentro da nossa vida.

- Pelo que ela tem pra me dar de onde ela estiver ela manda.

Todo ano tinha frutas no quintal.

- Mas o bicho da goiaba só come a fruta mesmo.

Era assim que a bisa dizia quando a gente, lá de cima da goiabeira, se queixava:

- Achei meia larva!

- Vish, então a outra metade já foi.

A gente nem fazia conta, eu nem era eu, era o Nico, comia até preá, tartaruga, teiú, porque não comeria uma larva? Já para os filhos a gente sempre quer dar o melhor, aí dei pra essas frescuras, antes éramos todos iguais. Há séculos meus ancestrais acendem nosso sol.

A bisa volta e meia aparecia de visita e tornava sumir, ficava até a próxima contenda. Quando ela chegava eu ficava ao pé dela, a serviço dela, era eu os olhos dela, ela não enxergava. Eu ficava mais em dias de chuva, dias de sol eu era ocupada com burcas, pipas, brigas e fazeres que faziam de mim a figura muito importante ali no larguinho em frente a casa nossa. Ia com prazer buscar lenha pra ela, enfiava a linha na agulha dela, já com ela na igreja, andarilhar pelos arredores, jogar no bicho. Me deu um casaco amarelo de presente, não gostei, ai ela deu pra outra neta, aí eu quis gostar, mas era tarde. Ela também não gostou, virou pano de cachorro, a bisa ficou triste, contou pra mãe, antes tivesse deixado com a Russa.

Ela pegou a Simone no colo e sorriu quando a Simone era bebe, eu tive inveja daquele sorriso, mas ela não poderia me pegar no colo, eu era maior que ela. Volta e meia tenho invejas que se vão quando resolvo a querença, vira e mexe a inveja volta.

Quando a bisa se encantou eu não tinha tanto sentimento, era só um lugar vago no sofá, fazia falta, o capitão, as andanças, as goiabas bichadas, mas da voz dela não, ela nunca falava comigo diretamente. Eu era praticamente adivinha, ela apontava o dedo numa direção e eu adivinhava, presumia. Nunca precisava acertar, já uns primos de mãe, que viviam com ela, tinham que acertar de qualquer jeito e mesmo assim ela batia neles, eram órfãos. Eles esperavam para apanhar dela, a bisa era boa, mas era violenta, emprestava eles pra todo e qualquer serviço, ainda dizia que eles tinham sorte em ter a proteção dela. Eu queria lembrar a voz dela, o jeito dela, mas ela me ligava tão pouco, nem lembro dela me chamar pelo nome. Era muito silenciosa, vivia pra dentro, não tinha amigas, nem da igreja. Tinha um rasguinho de amizade com Dona Maria Preta somente, as pessoas da igreja dela olhavam feio para ela ,a bisa andava descalça por gosto, sapatos dizia muito sobre a pessoa, e ainda vendia cocada na igreja. Só bem mais tarde eu entendi de que são feitas e pra que serve uma avó. Mãe, Dona Xica, mudou muito quando se envozou, até descansou as varas de pitangueira, parecia nada com a bisa, mãe tinha sua casinha, a bisa nunca teve, isso conta muito pra avaliar o estado de humor.

Onde ela ia levava os dois órfãos, pra piorar a aceitação dela. Da maçã raspadinha ao banho de sol, a defesas na hora do banho ou pra se livrar de uma refrega da mãe, já estava a avó à frente com um sorriso no rosto. Rindo de qualquer gracejo, de toda brincadeira, chamando as crianças pelo nome menor, uma avó com um sorriso, a gente nem conhecia esta avó, filha da bisa. Quem nunca vem não é lembrado, a gente foi viver sem avó mesmo, não éramos os únicos aqui no Ataliba que era despregado de família, mas a gente se ajeitava bem com a vizinhança, se encaixava à nossa maneira. Um dia a sumida mãe apareceu e chegou dando bronca, como se tivesse ido ali na padaria e na volta encontrara a casa fora do lugar.

- Vish, como você criou mal estas crianças. Mas agora estou aqui, vou colocar todos no caminho certo.

E como alguém que deu sua filha em doação por conta da cor da pele pode reclamar? Vai chegando assim, falando mal de todo mundo, se dizendo injustiçada. Mãe sempre ficava triste quando o assunto era a mãe dela, eu aprendi a não querer gostar dessa mulher por tudo o que eu ouvia. Parece que crescer longe da mãe se tornou um costume na nossa família, primeiro com minha mãe e depois com a gente quando pai faleceu, de sorte que mãe resgatou a gente pra junto dela.

Na minha rua pai era um artigo de luxo, quando a bisa faleceu, eu achei que tava tudo consumado, a gente sem parente vive também, e vivemos muito tempo até chegar aquele sábado chuvoso, tenho pra mim que tudo que é triste e bagunçado acontece em dia frio com chuva. Naquele dia a gente tinha armado a barraca de roupas pra vender lá no Jaçanã, o frio e a garoa afastaram nossas possibilidades de venda, só tinha caroço, gente ruim de comprar ou pessoas que queriam luvas, meias ou guarda chuva, mercadorias que a gente não trabalhava, de tardezinha a gente optou por desarmar tudo e ir pra casa. Estávamos longe de casa, hora e meia a pé, saindo ali da casa de cultura Adoniran Barbosa, pra só lá na frente encarar as subidas, vinhamos fincando pé na estrada em silêncio, este nosso velho amigo. Mãe, as crianças e eu, vez ou outra um deles, por molecagem, fincava os pés numa poça de lama, coisa que quando a gente é criança é divertido, jogava água pra todo lado, isto nos tirava do nosso ensimesmamento, cada qual vinha enfiada em si mesma. Só os miúdos é que conseguiam tirar de nóiz uma onomatopeia, uma resposta rápida um muxoxo, incrível como a gente fala tanto e entre nóiz a falta de palavras beira patologia. E se falar muito acaba em contenda, coisa que contamina, passa de geração a outra.

Não sei o que ia na outra cabeça, eu pensava em chegar, encaminhar cada qual para o banho quentinho, agasalhar, botar protegidos do frio, providenciar algo para comer e deixá-los ali entregues a si mesmos, enquanto isso eu me entenderia com minhas agulhas. Nunca que eu deixava minhas crias, nunca, pra onde eu ia eu levava, deixava debaixo da barraca. Na minha época, lugares cheios de criança sem pai, nem mãe, nem avó, nem tias de verdade eram lugares horríveis, que as viaturas levavam. Casas de crianças enjeitadas, por alguma razão a gente ia parar no pior lugar onde se poderia criar uma criança. O líder do lugar sempre tinha uma criança de estimação, que depunha a favor dela no caso de reclamação das outras tantas. Vivi isto e não quis esta realidade para meus filhos, para uma mãe que pensa assim o mercado de trabalho está fechado, mas o que era mais importante pra mim naquele momento?

Por proteger os meus também padeci da acusação de exploração, só pra relembrar, medo de um filho meu passar por coisas que passei me apavorava, de quando o choro esconde coisa maior que um simples mimimi. Criança que chora muitos dias pra ir a um lugar precisa de ajuda, não pode nunca tocar o foda-se, é cruel. Lá no convento das freiras a mulher pajem ao nos arrumar na mesa pras refeições, me empurrava com tal força contra a mesa que doía meu tórax. Ela apertava ainda mais toda vez que passava por de trás da cadeira, eu gritava de dor, na minha cabeça infantil ela não havia notado que me machucava, eu tentava uma posição confortável para o meu corpo, mas ela me repatriava para o mesmo lugar, tentava até comer de pé, não adiantava, ela vinha e me devolvia pra mesma sentença. Depois foi só piorando, ela me erguia pelo cabelo ou beliscão e doía demais, chegando a boca perto da minha orelha, me dizia coisas horríveis e sorria, EU CHORAVA. Que defesa tinha eu contra aquela mulher que eu nem conhecia e que o mais perto que ela chegava de minha mãe era ter o cabelo alisado igual a mulher da caixinha de Henê Maru. Onde tinha ido parar a Dona Zefa e as outras mulheres? Nesta confusão de fome e dor as outras crianças, também famintas, comiam toda minha comida. Quando outra pessoa vinha me ajudar e saber o porquê do choro ela interferia.

- Esta é minha é meu gado.

Eu num era dela. Mas cadê minha mãe? O jeito era, entre soluços, pedir pra sair da mesa alegando não estar com fome, minha barriga doía muito eu tinha muita diarreia, lá no pátio eu comia pedaços de tijolo e bocados de areia, tomava água, parecia que o estômago se acalmava.

Na quarta-feira era folga dela, a outra pajem também chamava Cida, me ajudava com a comida e me chamava para ajudar a descascar laranjas. Eu aprendi que no meio da semana tinha uma quarta por causa dela, e neste dia eu comia, mas nos outros...

Fui parar numa UTI com cinco anos, salva por uma visão masculina que disse a minha mãe: Esta criança piora quando vê uma freira, ela não pode voltar a este lugar!

Voltei pra casa meses depois sem andar, sem falar e o que me salvou foram os cuidados das mulheres do lugar que não entendiam o que poderia ter acontecido comigo num lugar dito como tão bom. Dizendo assim, eu me sentia um monstro, minha irmã ficou lá oito anos e eu não suportei oito meses. Minha irmã não pôde sair de lá, sofreu uma queimadura que afetou todo o lado de seu corpo, que nem ela ousa contar, é medo. Foram oito anos de tratamento no Hospital Defeitos da Face, depois com sete anos na escolinha na igreja Cássio Vidigal, na hora da merenda a Dona Rosa, uma mulher que comprava fiado de minha mãe, fazia humilhações comigo na hora do recreio, dizia que minha mãe vendia coisas roubadas. Minha mãe sempre levava gente com ela na cidade e eu sempre via ela pagar com dinheiro. Que horas mãe roubava?

Tinha gente que levava lanche de casa feito por sua avó, nem ficavam na fila e olhava a gente com indiferença.

Eu tinha uma bisa mas ela não sabia fazer lanche ,fazia biscoitos, mãe até fez pra ela um fogão a lenha no fundo do quintal. A bisa tinha uma mania de esconder os biscoitos da gente e só dava aos outros netos de pele mais clara quando nos visitavam, eles jogavam no lixo, tinham nojo dela que também era branca como eles.

Tudo era feito em silêncio, eu gostava de ir buscar lenha, o mato, este sim sempre foi meu amigo, me dava ovos, fisalis, maria pretinha, rabanete, mostarda e amigos. A terra sempre cuidou de mim, a terra é minha avó, a terra sempre me deu a comida de afeto, já que minha mãe agora era do exército de reserva.

Lugar de criança é junto de quem gosta dela, não gosto de confinamento, nunca gostei, pra ser parecido comigo precisa ser criado comigo. Pra eu ensinar dividir, compartilhar, a se cuidarem, tem quem precise trabalhar fora, ai não tem jeito, precisa. E tem famílias que são necessitadas de ajuda, mas eu sou desconfiada, não confio mesmo, porém cada um pode fazer como quiser.

Chegamos em casa, todo mundo cuidado e quentinho, íamos nos aninhar, viver os nossos silêncios. Foi quando o rapazote chamou no portão:

- Venho do Jardim Joamar em nome de Dona Adelfina, estou procurando a filha dela, Maria Aparecida, a senhora conhece? Ela disse a minha mãe, que dissesse a mim, que viesse atrás desta sua filha e dissesse a ela que: Se quiser ver ela tem que ser hoje, que vá a casa do irmão dela, o senhor Aparecido. Fica lá entre eles até amanhã, tá de passagem comprada pra meio dia.

Na verdade ela veio algumas vezes, durante anos, minhas tias jogaram na cara de mãe, com desaforo, que a mãe dela tinha passado por ali e ido embora sem querer ver ela, por que cargas d'água ela agora queria ver a filha? Ela não veio assim do nada, foi dando passinhos na nossa direção, já havia abordado minha irmã no hospital, no Tucuruvi e no Brás. Se apresentou dizendo: Somos parentas, sou sua avó.

Estranho pra gente agora entendê-la, como avó depois de ter convivido com a bisa e ter ela como avó nossa. Eu mesma esperava ela como quem espera uma fratura exposta, eu nem sabia o nome dela, nem queria saber, eu era muito mais bruta que hoje.

- Manhêêêêêêêê, tem um rapaz aqui te chamando!

Mãe veio atender o rapaz. Frestejei, ouvi toda conversa pela fresta, é um velho costume de ver sem ser visto que passa de geração a geração. A gente nunca sabe como é que os miúdos pegam estes hábitos feios de buscar saber de tudo, inclusive do que não é da nossa conta. Apesar da gente sempre ensinar que não pode: faz o que eu mando, mas não faz o que eu faço.

Quando mãe ouviu o recado, eu pude ver aquele sorriso de alegria, deve ser interessante saber que sua mãe quer te ver. Mãe não teve coragem de ir ao encontro da mãe dela sozinha, precisava de reforço, ela me convidou, eu e os miúdos fomos com ela, tive que adiar a ideia de jogar uma coberta nas pernas e crochetar. Tio Cido estava de cama, já há muito tempo, doença ruim, diziam as pessoas que definem doença ruim de doença boa. Quando a gente visitava ele, tia Tereza não deixava ninguém ver ele no quarto, casa de ir somente até o portão e olhe lá.

Chegando lá, ela demorou pra aparecer, e quando fez foi direto falar com mãe, conosco nada, nem um boa noite, nem olhou pra gente.

- Olha, viajo amanhã às 12 horas.

- Então vá tomar um café em casa, depois te levo na rodoviária.

Foi toda conversa, rodamos no calcanhar, pegamos o caminho de volta, na chuva, no frio, com o sorriso de mãe que eu invejava, queria aquele sorriso pra mim.

Passamos no mercado, mãe fez uma compra com coisas pra café da manhã, a gente é muito bruta, né? Pela manhã, mãe foi buscar a visita dela, o sol saiu no domingo, bota conversa viu, a danada falava e muito, e quando viu ali todos nós foi dizendo:

- Dê a bênção à sua vó.

- A gente se viu a pouca hora e cê num deu nem boa noite, nem tchau.

- Da bença sua vó.

Ela repetiu, fingindo não ter me ouvido. E mãe tão tranquila ali, à disposição querendo conversar. Deu a hora dela ir viajar e ela não foi, como assim? Quis lembrar ela da viagem, mas tive receio de magoar mãe e ela não sorrir mais.

A tarde caiu e com ela veio a escuridão, a mão da noite cobriu o céu de escuro, e a mulher ficou pra ir amanhã.Tá, então amanhã ela vai, tinha algo estranho, tinha uma avó na sala, que não era avó.

Segunda-feira estava lá emboladinha no sofá da sala, enrodilhada em volta dela mesma com uma coberta de cobrir a visita. Mãe deu uma coberta de visita pra avó estranha, a mulher cismou em ficar, o que houve com a pressa com a viagem? Ela viu que a casa da filha dela precisava da mão de Deus e da mão dela. O Ebó se instalou na sala, se aboletou no sofá de mãe, jogou a coberta de visita nos cambitos, abriu a sacola, montou seu quartel general. Doravante seria dali que ela daria ordens para restabelecer a ordem naquela bagunça, ela sacou de sua arma, A BÍBLIA SAGRADA.

- Vão aceitar Jesus, nem que seja debaixo de cacete.

E dali pro resto do mundo trinava, entoava hinos, tirava salmos, excomungava e condenava tudo o que não estava a seu gosto, queria salvar o mundo.

Mãe tava com o axé abalado, ela peitava mãe, dava ordens, botava banca. Cara, o que tinha em mãe que não reagia, estava benzida, jogaram sal no rastro dela, viraram a roupa dela pro avesso, enterraram em alguma encruzilhada? Como mãe iria fazer pra defumar a casa? Como mãe assistiria sua novela?

Pois bem, todas as coisas mundanas estavam proibidas, suspensas até segunda ordem. Eu estava vendo a hora de sair todo mundo em fila pra igreja, nunca mais mãe foi a casa de batuque, passou o primeiro mês, o segundo, o terceiro, quatro meses. O tempo passou e ela não viajou mesmo, ficava ali aboletada no sofá com o bico pra cima só pedindo igual passarinho, às vezes de barriga cheia cochilava e acordava reclamando, insônia. As chuvas vieram e se foram, o frio veio e se foi, o sol veio e se pôs e nada, parecia mesmo que o castigo seria eterno, o tempo passou e ela não viajou.

Mãe nunca deu sorte com estas visitas do Paraná, tio João mesmo ficou dois anos, tomou dinheiro dela, tomou terreno que ela tinha, morou ali com tia Janda e oito filhos, precisou a polícia tirar ele. Mãe indenizou ele na justiça, duas vezes, porque ele recebeu e mentiu para o juiz. Tava difícil de crer, só dava pra acreditar porque tava na vista da gente, enrodilhada sobre si debaixo da coberta de embrulhar visita, há meses que ela não era visita.

Não comia qualquer coisa, nem tomava banho, o café dela era caro, o almoço feito a sua vontade, a janta era bem cedinho e depois ceia, dava ordens a minha mãe e minha mãe obedecia, reclamava, mas obedecia. Ela estava curtindo ter uma mãe por algum tempo, mesmo que fosse aquela, que Deus havia lhe dado tardiamente, seis meses se arrastaram, a casa estava enfeitiçada, reclamando um sal grosso, uma fumacinha de palha de alho, uma espada de São Jorge atrás da porta, davam a benção pra fora dizendo saravá pra dentro. Nunca mais um padê, gente seu Egba não gosta de ser preterido desta forma.

Eu teria dito isso se já conhecesse as leis, teria chamado Seu Veludo para ajudar a limpar o terreiro da cancela pra dentro. Eu dei a ideia:

- Acho que esse santo quá reza, qué o dinheiro da passagem de volta pro Paraná.

Pronto, passagem comprada caso resolvido, de repente ela reparou que o sofá era apertado, arrumou a mala e foi embora, não sem antes excomungar os quatro cantos da casa.

Tempos depois, mãe foi passar uns tempos em Rancharia, onde minha irmã estava morando, de lá foi para o Paraná, a convite da mãe dela. Mãe comprou um terreno grande lá em Maringá, quatrocentos metros quadrados. Quando começou a construir, a mãe dela veio opinar, ai deu merda. Esta é a mãe que eu conheço, elas brigaram e finalmente ela deve ter ouvido o que precisava ouvir, se não me engano, naquele mesmo ano, entregou a alma a Deus. De toda esta história o que ficou pra mim foi o brilho no olhar da minha mãe que eu queria pra mim. Naquele tempo ainda pleiteava, agora já tenho.

Axé.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL