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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

ALADOS

Bem aventurados os seres que voam pois estão para além das melhores cabeças - Dona Jacira
Bem aventurados os seres que voam pois estão para além das melhores cabeças Imagem: Dona Jacira
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

13/06/2021 06h00

"Bem aventurados os seres que voam pois estão para além das melhores cabeças"

Lembrando que subir a montanha da vida é voar, subir o pico mais alto só pra ver o
que tem do outro lado do pico.
Também é buscar o sol, essa lanterna incandescente que alumeia a todos.
Isto é ser Kindezi, a arte de cuidar por amor.
É assim que eu agradeço e recebo a minha nova geração que me tornou avó.
Eu sou uma mulher que representa toda grandeza de uma nação fulani aqui no Ataliba.
Aqui nós resistimos e existimos, nos fortalecemos e seguimos.
- Mãe, acho que a Maria vai nascer!
Acho que foi bem desse jeito que aconteceu, hoje pra contar eu imagino a pessoa, o
tempo, o lugar e o que não lembro vou inventar.
Todos nós estávamos esperando o momento em você chegaria, no dia anterior
ficamos quentando fogo na fogueira de Santo Antônio.
Eu ainda lembrei muitas das simpatias que a gente fazia de véspera para conseguir
namorado, mas hoje nem vem ao caso, estamos um passo à frente, estávamos
grávidos já, só esperando a aurora que era você.
Era de madrugada...
Evandro me acordava às 4 horas da manhã, aflito, Evandro era, dentre nós, o mais
afoito, tanto que quando chegamos lá no hospital a moça achou que ele fosse o pai, de
tanto que ele estava nervoso.
Um dia depois do dia de Santo Antonio, quem diria, olha aí o dia escolhido.
Estava frio, a primeira questão foi organizar a saída, tudo estava ensaiado e nada saiu
como o combinado, como sempre.
Eduardo ligar o carro, alguém pegar a sacola dela, alguém acender a luz, alguém teria
que pegar ela, mas quem?
De repente todos nós nos encontramos na garagem, mas por quê?
Faltava alguém, recapitulamos e seguimos, aí deu tudo certo.
Fomos em quatro acompanhantes, Leandro ficou guardando a casa, a gente já riu
muito por razões que quem está lendo aqui nunca saberá.
Tem coisas que são segredos de família que a gente resolve em casa nunca em
presença de estranhos, nunca na rede.
Quando a gente precisa ser atendido em um hospital qualquer, a espera é já uma
demora enorme, mas a menina foi acolhida na sala de trabalho de parto.
A gente tem um medo enorme do atendimento desse hospital aqui no Jaçanã, mas
tivemos que nos apegar com fé e coragem, não tinha outra opção.
E da sala de parto o doutor saiu um tanto desanimado e nos chamou pra conversar.
- Sua filha está em trabalho de parto, o nenê como é mesmo o nome? (ele tentava
ficar calmo) Nascerá em questão de pouco tempo, mas temos um problema, não
temos vaga, temos um setor infectado e várias eclampsias, de modo que estamos
tentando encontrar uma vaga o mais próximo possível.
A palavra eclâmpsia me preocupou, mas o caso não era com minha filha, a palavra
hospital lotado me assustou, apesar de a gente nem gostar daquele e pareceu que ele
também não nos aceitava.

Mas a frase "estamos buscando uma vaga pra ela" me aliviou o coração, porque esta é
a minha área e eu sei que, apesar do sufoco por causa do descaso governamental com
os profissionais da saúde, eu conheço esta humanidade e quando ele disse estamos
procurando o meu ib (coração) relaxou dizendo "ela está em boas mãos".
O universo estava se preparando para trazer Maria ao mundo.
A moça solicitou a remoção de Kaki para o hospital geral de Guarulhos de ambulância,
Maria nasceria dali a instantes.
Dali a instantes eu seria avó, meus filhos tios, minha mãe biza, quem diria a gente
perpetuando a espécie da gente mesmo.
Aí não tinha ambulância e o médico solicitou a uma viatura de plantão, para que
fizesse a remoção, nem era autorizado mais esses procedimentos, mas emergência é
emergência.
O policial explicou para o Eduardo como ele faria para chegar até lá, e Eduardo não
entendeu bulhufas, mas disse que entendeu.
Eu tenho um pé atrás com gente que veste cinza, apesar de agradecida, e entendendo
que de certa forma era um serviço, tinha nada a ver com afeto, mas até um policial às
vezes pode ser guarnecido sim de certa humanidade, os espíritos ali ajudaram, Exú ia a
frente e encaminhava, me desculpem os bons policiais, sou calejada de maus tratos.
Não dá pra ser diferente mesmo sendo.
Teve um incidente no caminho, eu errei o nome da rodovia, de sorte que Kaki foi de
ambulância ou viatura, porque a rodovia se chamava Monteiro Lobato e eu cismei que
era Santos Dumont ou vice e versa, até hoje não sei.
Sou da escrita, nem sempre da literatura, poderia ser qualquer um, o danado é que
rodamos por quase seis horas, estávamos já no Rio de Janeiro quando percebemos
que algo estava errado.
Quando chegamos no hospital, Maria já tinha nascido, quase que Maria nasceu
carioca, se nós a tivéssemos levado elas conosco.
O tempo, como uma cabala, roda no tempo dele mesmo, e olha aí a lanterna acesa da
nossa família.
E de repente a casa se reacendeu, todos ali tomando conta dela. Olha o barulho, Maria
tá dormindo.
Maria já comeu?
Maria já acordou?
Maria tá engatinhando gente!
Maria andou.
Maria fez isso, Maria fez aquilo, e ninguém passava por ali pra ver outra pessoa que
não fosse ela.
Maria balbuciava as primeiras palavras.
Quem diria pra ela o cargo de cada babão que ali estava ao lado dela.
Chegada de primeira viagem numa família grande e conflitante, Maria chegou quando
todos moravam aqui em casa, mas se morávamos aqui, também tínhamos muitas
questões por resolver, como tem toda família.
Hoje que moramos muito mais distantes um do outro, somos bem mais próximos, foi
preciso dar linha na pipa para entendermos o quanto somos importantes, cada um pra
si e para o outro.
Éramos já todos velhos e ela trouxe sangue novo.

Hoje a nossa maravilhosa curiosista tem bem, quinze anos eu acho.
Ela foi quem me iniciou na arte de ser avó, abriu um novo ciclo na vida de todos nós.
Quando ela nasceu, logo na primeira semana, atravessamos o bosque de três metros
que separava nossa casinha do terreno vizinho, e onde tinha uma frondosa amoreira,
colhemos um galhinho e levamos pra casa, foi o nosso primeiro presente pra ela.
Plantamos um pé de amoras no fundo da casa onde outrora era o nosso barraquinho
de morada, o pé de amora, muito agradecido, já no ano seguinte amorolou, nos cobriu
de amoras.
Os dois cresceram sem piedade de nós, queriam nos alcançar em tamanho, grandeza
eles já tinham.
Foi ali, debaixo da copa da amoreira, que Estela disse umas coisas para Leandro que
idealizou o livro Amoras.
Um presente serve sim pra muitas coisas, inclusive unir pessoas.
As pessoas dizem que crianças nascem sem saber nada, eu sempre duvidei porque eu
sempre fui muito sabida, o que a criança não sabe quando nasce é das dificuldades
que irão colocar sobre as suas sabedorias, muitas vezes por afeto, orgulho e burrice,
mas sempre com muito amor.
Mas quem ensinaria a Maria que Eduardo era avô dela, porque não era.
Um dia ela me deu uma resposta tão acertada que eu refleti ali já estar em frente a
alguém muito pensativa, e como eu, carregada de conhecimento.
- Vovó, a moça disse que eu nunca devo cantar as músicas do titio porque elas não são
de Deus e que eu só tenho que cantar as músicas de Deus.
- Como assim? Então como você faz pra cantar?
- Ah Vovó, eu canto em pensamento ai ela nem ouve, ela não ouve meu pensamento
vovó.
To besta até hoje com esta reflexão. Maria fazendo sua própria defesa.
Teve um dia que Eduardo quase matou nóiz tudo de susto.
Maria com bem uns três anos ou dois, a casa ainda em construção a amoreira
crescendo muito rápido, já maior que a casa ou o telhadinho do antigo barraquinho.
Nós, Tiana, Kaki, Leandro e Evandro aqui na sala da agora casa nova conversávamos,
quando Eduardo entrou perguntando pela câmera fotográfica.
Os olhares buscaram a Maria e não encontrando a pergunta veio a resposta.
Cada um de nóiz se levantou perguntando e já indo para os fundos do quintal.
- Maria, Maria, cadê você?
- Estou aqui zente!
Nosso coração se descompassou, Maria falava de cima da casa, do telhado.
- Quem colocou você ai?
- O vovô, ele vai tirar uma foto minha. Não posso me mexer enquanto ele não voltar,
estou colhendo amolas da minha amololela.
E ela não fez nenhum esforço pra descer enquanto ele não voltou com a máquina de
fotografar.
Quando ela passou a morar noutra casa e vinha de visita, dormia muito pouco, e eu
ouvia as conversas de sussurro dos dois pela madrugada afora.
- Vovô! Tô tom sede.
Toca Eduardo buscar agua.
- Vovô! Quero ver desenho.
- Vovô! A siólia, ela tá dormindo? (era assim que ela me chamava)

Era arte em cima de arte, os dois pra lá e pra cá.
De repente Eduardo se tornou a companhia mais frequente de Maria.
Mas quem disse a ela que ele era o avô?
Este fato comprovadíssimo pra minha tese esta. Para mim, cada criança tem um saber
quando chega. Me lembro como se fosse hoje, Maria chamando Eduardo de vovô e ele
ficando assim apaixonado dela.
Pra ele, ser chamado de avô, era como ser aceito.
Ele, que fomos notando com o tempo, tinha questões em aceitar nossa raça, nossa
etnia, nossa negrura.
Mas quem disse a ela que ele era o avô?
Uma criança sempre chega com um grande trabalho a cumprir, unir uma rapa de gente
besta.
Gente grande sim desaprende tudo porque tem a arrogância de pensar que sabe tudo.
Ateus, contrabandistas, bicheiros, racistas, de gente boa a um ordinário qualquer não
há quem não se renda diante da aurora da vida trazendo um rebento.
Um alguém que há de nos perpetuar a espécie.
Eu, ali diante daquele ser nobre que crescia, por dentro me orgulhava em
pensamentos de que minha espécie não se findaria em mim.
A sabedoria em pessoa,
- Olha, eu sei que você não é meu vô de verdade, eu sei que ele se chama Miguel e que
mora no céu, mas eu amo você, você é lindo.
Quem enfeitou a boca dessa Maria tão linda, quem?
Eu senti vergonha de nunca ter usado este verbo para não gastar Maria de tanto
conhecimento que trouxe gastava ele assim a rodo.
Estive esperando para gastá-lo com um príncipe encantado que eu esperava.
Já estava até cansada com a vida rasgada, remendada, lavada, enxaguada, de tanto
esperar.
Será que eu não vi, me distrai, e ele havia passado?
- Não, Jacira, tu és distraída mesmo! - disse o rato tambor olhando o espelho.
Eles estavam ali, Katia, Katiane, Leandro e Evandro, meus herdeiros, Zambi deu-me a
possibilidade de perpetuar.
Quatro cadernos em branco foram me dados para escrever a minha estória, à minha
maneira, não era eu que dizia que faria tudo diferente de minha mãe?
E a voz de dentro de mim dizia:
- Não sois a autora continue daí então? Vives ai chorando pelos cantos, querendo
escrever, pois escreva, seus livros estão aí, suas cartas estão na mesa.
Como eu incauta nada havia percebido de tanto que a vida havia corrido.
Eu reprovada, fui chamada às chinchas, e no limiar da minha vida quase entregando as
alpercatas furadas.
Nadando contra corrente e reproduzindo em partes muito daquilo que eu mesma
havia rejeitado.
Se eu tivesse pensado bem, nunca que eu faria filhos pra entregar a este mundo tão
cruel.
Mas os filhos me foram dados de presente e foram eles que tornaram meu mundo
menos cruel.

Mas o mundo é lindo, maltratado, mas lindo e cheio de armadilhas, eu agora tinha
medo de perdê-los, quem é avó perde um filho? Acho que não, mas perde a
arrogância.
Vontade de pegar meus pintinhos e sentar em cima deles como faziam as galinhas que
minha mãe criava, e nunca, nunca deixar eles saírem de lá.
A vida era incessantemente bela, cansativa e repetitiva.
Recebi ali a possibilidade de perceber que me distraí no caminho e nem percebi que
bati a meta, dobrei a meta.
Kaki agora mãe, minha mãe bisa, minhas irmãs tias-avós e Maria neta.
No primeiro dia que Maria chamou vovô Eduardo chorou.
Ela amoleceu o coração dele, dentro do peito dele morava um racista plantado ali,
talvez desde quando ele devia ter aquela idade.
Quem envenena uma criança contra a humanidade?
E quem tem coragem de descalçar os sapatos da obediência pra tirar de dentro de si a
raiva plantada por alguém, que nunca te fez nada e só tem a cor de pele e o cabelo ou
o gênero ou outra característica, ou modo de ser diferente do seu.
Eduardo era um homem pela metade, pra dentro ele era falido.
Ele tinha dificuldade de gostar de gente de pele preta, como a minha, como a dela.
E pra não contrariar a educação do berço, ele vivia entre dois mundos.
Amar uma mulher negra exigiu muito dele.
A família branca, agora afastada dele, não o chamava mais para churrascos, bocha,
rituais, enterros.
Ele plantou o lindo par de olhos que Deus lhe deu num antro de gente negra, negra,
negra.
Ele sofreu a punição em seguida quando Jaqueline, nossa filha, nasceu e morreu, o
castigo foi enterrá-la sozinho rodeado dos irmãos pretinhos.
Mas agora muitos anos haviam se passado.
Não, racismo nunca passa.
- Este homem branco vive ai com estes meninos negros e uma mulher negra, coitado.
Dizia uma vizinha ordinária que eu tinha.
Aí veio a Maria.
Maria rompeu este paradigma ao dar lugar a ele e chamá-lo vovô.
Pode existir amor entre brancos e negros?
Sim pode, aqui é uma menininha que diz que ama.
Mas existe uma cláusula ocidental na estrutura das pessoas de pele branca, que por
mais que uma pessoa negra o aceite, ele continua reproduzindo os sinais e sintomas
desta patologia patriarcal ocidental chamada racismo.
Pessoas negras também o reproduzem, ainda estamos na luta de abandonar o
ocidente, suas conquistas ferozes e seus meios de destruição, minha neta é uma prova
disso que digo.
Mas Eduardo era assombrado por este amor, ele até que tentava, mas sempre,
querendo ou não, reproduzia aqui e ali os males que sufocam famílias inter-raciais.
Se a gente pensasse bem a gente jamais se uniria a alguém que não pertence ao nosso
meio, a nossa raça, a família bem avisa ,mas a gente primeiro casa depois que vai
conhecer a outra pessoa.

Começamos com o pico do amor no alto, bem alto, o casamento só vai degradando,
descendo a ladeira.
Porque começou alto demais, agora só pode descer.
Daí a oportunidade que a gente tem de enxergar o fundo do poço é já quando muito
pouco pode ser feito.
Com a chegada dos netos a gente renasce.
Algumas pessoas (brancas) têm dificuldade em abraçar um novo caminho, algumas
pessoas seguem reproduzindo o caminho ruim como solução.
O fantasma da desobediência do filho que vai contra a ordem da mãe, mesmo depois
de morta, assombrava o ib dele.
Corroeu o fígado dele, e pra afogar as dores de ter descoberto que apesar de tudo
somos iguais, ele bebia todo dia, esquecia, e reproduzia o mau costume adquirido no
mundo e na casa dos pais.
Se afundava num silêncio, mea culpa.
Como pode uma menininha amar um monstro como eu?
Ah meu caro racista isso é coisa pra você administrar, já pensou em mudar?
Ele sempre foi da roça, quase não falava, e se falava eram palavras frias.
A língua era uma faca embainhada na boca.
Era homem, o pai nunca permitiu braços e abraços, isso na minha casa era assim
também, mãe nunca permitia essas coisas, dizia que era coisa de gente fraca e falsa e?
Mas a gente cresceu e viu que estava errado.
Mas agora ele estava sendo chamado a esquecer tudo e viver um grande amor.
Maria nosso tesouro, já era sim discriminada por conta do cabelo, mas agora já era
outro tempo, estávamos de olho nessa tal natureza humana desumana,mas ela nem
ligava.
Ele nem era avô dela.
No entanto, Maria perfumou e amaciou a fala dele, tirou-lhe bem as ferezas, ela ali
ensinou a ele a arte de amar.
E agora ele tirava horas e mais horas de conversas afiadas e de pé de ouvido com ela.
- Olha a nuvem no céu vovô.
- É um jacaré que voa.
- Ele é lindo igual você.
Os olhos dele lacrimejaram por várias falas dela e os meus também.
Maria foi também o pequeno milagre dele, ainda hoje chora quando vem a minha casa
e não vê mais o vovô.
Quando vovô se encantou, a Juju estava a caminho.
Um dia desses Maria falou pra Juju sobre o jacaré que voa de novo, e eu pensei que ela
tinha esquecido.
É Seu Ferreira, a desobediência valeu a pena, pra ser salvo pela nossa menininha
negra. Quando escrevi esse texto Maria tinha doze anos, hoje tem quinze e a amoreira
também.
Dos bens do avô ela herdou o celular e a formiga de metal.
Depois de alguns meses a gente foi jogar as cinzas dele pra Iemanjá tomar de conta,
lançamos o Eduardo ao mar.
Gosto de falar assim.
Bem pertinho de onde Maria mora hoje, lá na praia do sonho, pra ele ficar bem
pertinho do amor dela e pra Iemanjá lavar o coração dele e ele ficar melhor.

Na época que Maria era a guardiã aqui do quintal, o jacaré era só pensamento, depois
eu fiz um jacaré com asas feito de papel machê.
A guardiã do quintal hoje é a Juju e o Biel, os mascotes.
Eu fiz agora a Jiana, uma joaninha enorme pra viver com o jacaré, e eu sei que a
joaninha tem o tamanho de um pingo mas esta aqui do quintal é do tamanho de uma
jaca.
O menino tambor e o rato do espelho me ajudaram e disseram que está tudo bem.
Apesar de tantas queixas.
Apesar da minha queixa observatória sobre Eduardo, é preciso lembrar que Eduardo
trouxe na nossa caminhada muitos nós, mas também desatou.
A casa que eu moro hoje só foi possível porque compramos esse terreno, e Eduardo
teve muito a ver na história de parte da construção dela, muitos perrengues sim, mas
algumas libertações também.
Que fique aqui bem entendido que apesar de Eduardo ser sim racista e não ser um
ancestral de nossa família ele teve aqui a sua importância.
Esta casa que eu moro hoje só se tornou possível quando ele chegou na nossa vida,
então mesmo sem útero e com tudo o que eu já disse acima ele nos potencializou sim,
de certa forma, assim como meus filhos nos potencializam sem ter útero.
Quando eu encontrei ele, e já tendo experiência de padrastagem, eu jamais dei a ele o
direito de mandar em meus filhos, ser pai deles nem pensar.
Mas mesmo assim a convivência era naquelas cheia de espinhos, que a gente levava
porque estávamos tentando chegar a um consenso familiar difícil de alcançar.
Mas vejam bem que Miguel, coitado, sem nenhuma expectativa devido ao próprio
racismo, havia falido como um homem que eu esperava que ele fosse, e a gente nem
tinha onde morar.
Ter um território pra chamar de meu chão passou a ser meu objetivo para além da
escrita ou a arte, eu abri mão dos sonhos pra ter este teto.
E este teto me possibilitou voltar a sonhar, principalmente convivendo agora com
Maria, Estela, Aila, a nossa velha guarda familiar agora, já temos a Juju, Biel e Tereza, a
nossa jovem guarda.
Eduardo se encantou .
Havia pessoas na vida de Eduardo que a gente só conheceu no velório dele, gente da
família que pra nossa surpresa eram negras e disseram: A partir de agora vamos firmar
amizade, como pode em vinte anos a gente não saber que Eduardo tinha casado.
Já era muito tarde pra unir este laço.
Quando postei o vídeo que fizemos jogando as cinzas dele no mar, após pedir licença
pra iemanjá, Olokun e todas as entidades das águas.
No dia, Evandro pediu desculpas porque estava com a camisa do Corinthians, porque
Evandro não tem uma camisa do Santos por razões óbvias, e porque estava vindo de
um clássico, inclusive contra o Santos.
Leandro não pode ir, falamos por ele.
Kaki, Tiana, Maria, Aila, Juju e eu demos nossos recados.
Alex também não pode ir, mas mandou recado pois estava igual pinto no lixo porque
herdou de Eduardo ferramentas, perfumes e até o pijama dele.

No início eu me arrependi, confesso, porque toda vez que Alex chegava eu sentia o
cheiro do perfume e esquecia que Eduardo agora era um ancestral.
Em alguns domingos, dia que não se tira o pijama, eu via a estampa do pijama e
pensava novamente em Eduardo, coisas que o tempo põe no lugar.
Então, ao ver o vídeo, a família de Eduardo se manifestou pela boca de um ou outro
deles querendo saber porque não foram chamados para o evento, eu nem precisava
dizer, nem disse.
Isso é coisa nossa.
Falando agora de Maria e deixando Eduardo pra lá.
Fico muito emocionada, quando eu, nesta linha do tempo presente, que sou um
ancestral presente, estou vivendo o milagre de estar viva e ver a minha linhagem toda
aí presente, insisto porque o projeto do traficante não é esse.
Saber que pra nóiz, estarmos aqui hoje vivos, foi porque um ancestral nosso que
atravessou nos tumbeiros, que sofreu esta desgraça coletiva, sobreviveu, e por esta
razão nós estamos aqui.
Não morreu nem de doença, nem de banzo, de açoite, suicídio, de fome, de nenhuma
destas violências que o traficante ocidental, nos impôs.
Com a sobrevivência a política as tecnologias ancestrais todas estão no nosso sangue.
Agora no isolamento nóiz descobrimos nossa linhagem, nossos ancestrais vieram ali de
Camarões, um braço do povo, da civilização Bacongo.
Nossa linhagem é de mulheres que tocavam gado, de contadores de histórias, de
pessoas que matrigestaram potências e atravessaram o mar, e nos deixaram a
linhagem de presente.
É este o presente que passamos de geração em geração, não esse das tais mulheres
guerreiras, mas a das mulheres que fazem da história a sua própria história.
Ocidente não nos ensine mais nada, no futuro nós sulearemos de volta aos costumes
da nossa avó África, a nossa terra do sol, e isto se dará aqui nos nossos terreiros
brasileiros, porque somos herdeiras de um povo potente, irmãs e irmãos, e nossa
humanidade não é negociável.
Nossa tecnologia e força nos define.
Minha bisa tinha, minha avó tinha, minha mãe tem, eu tenho, minhas filhas e
consequentemente eu passarei adiante como um ancestral que eu quero ser, sempre
dando um passo à frente como alguém que luta pela dignidade do meu povo sempre.
Ao ler este texto, lembre se Maria vai fazer aniversário, semana que vem, mas a Tereza
que é o palmito da nossa empada está fazendo ano hoje enquanto escrevo, e eu
dedico a ela e a toda essa minha nova geração as partes bonitas desse meu
pensamento, e me defino como o ancestral que eu quero ser no futuro, insisto, e que
você Maria foi quem abriu caminho pra esta minha serenidade.
Seja sempre muito e muito bem vinda a este nosso clã Bubi Fulani Roque de Oliveira e
siga alada nos elevando na sua força.
É bem mais feliz quem tem um bom motivo pra viver, eu tenho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL