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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A carta

Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

09/05/2021 06h00

Um dia dei de escrever a esmo, as baratas, e mesmo que minhas escritas nada me valiam, e ainda sim, me valiam demais.

Era pra ser só uma brincadeira de criança

Era pra ser só uma carta de amor

Eu nem sabia o que eram as convenções da norma culta e já escrevia separando tempo e princípio, meio e fim.

Quem me ensinou?

Não sei dizer, talvez a providência ou o acaso, ou mesmo as duas.

Sempre o fiz tão facilmente que tenho impressão que antes de nascer, antes do parto, eu já escrevia.

Eu escrevia antes da concepção do ato que ainda me inventaria.

Era assim, que eu, de mim pra mim, me transcrevia.

Que se dane quem não me põe fé!

Sempre fui enfezada em mim mesma.

Nasci pensando que a maior lei da vida sou eu mesma.

Este pensamento sempre me pôs nas maiores enrascadas

Eu tenho uma fé tão grande no ser humano que nunca acreditava que algum deles pudesse me prejudicar.

E o tempo me mostrou que não estou errada.

Tem coisas que a gente tem que viver pra confirmar.

Só quem subiu ladeira acima pode ver as coisas do alto.

Eu amava outros fazeres além da escrita.

As plantas e a tecelagem, quem já leu sobre mim sabe disso.

Quem vai ler passará a saber.

Mas de amor eu tenho medo

Amor é coisa de tolos.

Amor é terra que não se pisa sem machucar ou machucar alguém.

Mesmo aqueles que muito amam, por rejeito, medo ou vaidade, um dia já negaram o amor.

Como eu, aprenderam amando que amar exige cuidado, e que uma vez envolvido, é sim até que o destino nos separe.

Eu já amei e amo.

Muito mais que três vezes.

Muitas vezes ouvi dizer que ser bom era para os fracos e os tolos.

Eu não, sempre fui ridiculamente amorosa, acreditava primeiro era nas coisas do coração.

E foi assim que bem cedo eu suguei o amor de mim

E o tirei de mim e o transcrevi em palavras.

Era um tempo "mei rosa mei cinza"

A burca, o barrilete, a capucheta estavam perdendo o sentido e já não me buscavam mais, ficavam lá jogados a seu bel prazer.

O ideal de se tornar chefe de rua se perdia, e se não pendia pras brincadeiras masculinas

Pra bonecas nem pensar

Bonecas não tem sentimento

Agora era papel, poesia e cor.

Mas era certo que ainda não entendia nada de romances e nem eu estava pra eles.

Nem desafiava.

Nem de trairagem.

Sentia um incômodo quando via um olhar furtivo na minha direção.

Quando já frequentava bailes, alguém me tirava para dançar e queria me apertar no fecho do aperto do abraço dele.

Eu ainda achava horrível

Principalmente quando era pessoa de mais idade.

Os contos de fada são feitos para príncipes, eu pensava, contraditoriamente eu sonhava com um que estava longe, viria de outro lugar, aqueles não serviam.

Mas o tempo me fez crescer e envelhecer para além do conto de fadas, e eu descobri que quando chega a idade os jovens pensam de um jeito, depois mudam.

E os velhos pensam também como eu pensava.

O tempo alinha o pensamento.

Descobri que mulheres envelhecem, homens ganham virtude, exuberância e elegância.

Eu era menina, naquele tempo.

Ainda não tinha chegado pra mim um pretendente.

Mas um dia, ali entre os últimos brinquedos no meio da mata, que já se despedia da gente.

Fui cativada.

Ainda ontem, meados de anos atrás, recebera um selinho de um amigo.

Dei ali mesmo um chute nele, eu nunca soube expressar o que sentia de verdade.

Mas depois daquele selo a vida nunca mais foi a mesma pra mim, acho que foi ali que percebi que também não era menino, o que eu era afinal?

Eu nem imaginava que haveria de querer que um dia alguém se guardasse de dentro dele pra se dividir comigo.

Nem imaginava que eu tinha corpo e que estava ganhando forma.

Era pra mim o corpo coisa que se usasse sem saber que existia.

Tanto que dei eu fé do meu corpo nas bocas alheias.

Foi neste tempo que eu ganhei uma saia maravilhosa.

Que se muito tinha era um palmo.

E eu queria ir com ela a todo lugar, até na missa.

E eu gostava quando o vento dava nela e ela arribava, como diziam, eu achava então que era menina.

Mas eu pedi um par de Kichute, uma chuteira, e mãe me deu, então eu usava a saia pra jogar bola também.

Olha chuteira ou Kichute são objetos que hoje me põe na conta de grupo de risco, então se você é desta época você também é, mas se acaso é mais jovem, se cuide também.

Na verdade eu amava o belo e minhas pernas agora descobertas sem a lama da rua estavam belas pra os meus olhos, quem diria.

Eu gostava, mãe não.

porque todo mundo já tava falando de todo jeito da saia.

Até em dia de procissão eu queria por a danada da saia.

Mãe só olhava, o olhar de mãe me desencorajava.

Eu perdia as coragens.

Foi aí que eu descobri duas coisas que até então nem fazia menção que eu tinha, pernas. E se fez sentido algo que eu ouvi de Dona Dora que nunca mais eu havia visto.

Eu tinha o mais belo par de pernas, eu tinha, eu tenho ainda.

Acho que quem fez a saia pra mim foi minha irmã quando foi estudar corte e costura.

Pediu pra mãe comprar um tanto de pano, e mãe já inserindo ela na sovinice particular, que a gente adquire com a vida e o pouco dinheiro.

Comprou bem menos pano que o necessário.

A saia era plissada, coisa que igual poesia, exige pano pra manga.

Se é que você me entende.

E o que seria uma saia que desse no cumprimento do joelho.

Deu vários dedos acima dele.

Porque minha irmã ainda não tinha sido iniciada nas barras da saia da Dona Cida, nossa costureira.

Se tivesse sido, teria usado na saia uma tira velha um pedaço de lençol para o cós e tudo teria chegado a termo.

A mãe dizia:

- Vai aonde com este retalho?

A bisa dizia:

- Parecida deixa ela, quando chega a hora é preciso subir pelo menos cinco dedos da saia acima do joelho. Senão num casa parecida.

Era ali, naquele tempo, que eu já começava a ser vigiada pelos olhos.

Eu que outrora fui vigia, e eu como sou caçula descobri que nunca poderia contar com minhas irmãs pra guardar segredos meus de namoricos porque elas já trabalhavam e já tinham seu dinheiro, aí elas nunca guardavam meus segredos.

Aí o tempo foi ficando ingrato, mas a bem da verdade eu agora é que estava entendendo pra que as irmã mais velha servia, pra amolar a caçula.

Mas eu ainda não havia percebido

Que a gente neste tempo passa a ser olhada de rabissaca, por todos.

E a poesia adverte através da música

"Toda menina que enjoa da boneca? Não quer mais vestir chitão?"

Foi assim que eu recebi o primeiro selinho.

Coisa que eu não imaginava que existia, e a partir de então, eu não viveria mais sem eles.

Ou viveria pra descobrir em que boca encontraria mais destes.

E ficaria morta de vergonha em boca de Matilde

Eu com este bendito moleque que vivia em mim, eu queria ser um beija flor, uma abelha.

Só pra beijar, beijar e beijar.

Nesta época tinha uma brincadeira de beijo, abraço aperto de mão

Eu já via casais na TV colando bocas.

Era nojento.

Era nojento dai pra trás .

O selinho acordou-me as vísceras todas.

Dali pra frente seria igual o pote de biscoitos lotado pela boca.

Queria visitar outras bocas.

Era de novo a existência dizendo: Eu estou aqui.

Agora, já na segunda escola, havia chegado ao ginásio, não lembro a idade.

Mas agora tinha que ir duas vezes à escola, duas vezes por semana, de manhã e de tarde.

Terça e quinta tinha educação física.

E tinha um uniforme de saia plissada branca e um shorts vermelho atado à perna por um elástico.

Nem a aula nem a física me chamavam atenção, as duas me levavam pra rua.

E isto bastava.

Ali ainda havia um pouco de Nico peralta, Nico sempre volta.

Nas horas de recreio, as meninas todas, ou quase todas, já falavam de namorado.

Tanto as mais bonitas, que estas tinham namorados visíveis.

Já as outras, entre as quais eu me incluía, tinham vontade e presságios.

Era frequente eu ouvir tanta história amorosa que dei de querer ter a minha também.

Mas como é que se arranja uma?

Sem estar mesmo vivendo uma.

Eu não sabia.

Será que todos aqueles meninos que corriam atrás de uma mesma garota nunca olharia pra nós?

Seria eu feia?

Seria feio o meu corpo?

Ainda hoje pergunto, sem ter resposta .

O mundo é mal dividido, sempre.

Nesta matéria para minhas amigas e pra mim a incógnita da matemática nunca teve número.

Só a incógnita vazia.

E os olhares denunciando cuidado.

Eu saberia.

Mas isto ainda não era importante pra mim.

Importante era ter o que todo mundo tinha.

Eu precisava de uma história de amor.

Foda-se o resto.

Toda vez que o amor disser vem comigo, vá sem medo.

Eu segui a letra.

E foi numa quinta-feira de cinza que ela chegou.

Era de manhã e eu teria aula de física.

Eu tive um sonho que dizia:

- Invente um namorado pra fazer inveja a suas amigas

Sexta feira seria feriado.

Era chamada sexta maior, não sei porque, o dia me parecia igual aos outros em tamanho.

Mas tinha um monte de proibição para não incorrer nos artigos dos pecados.

Nada de pentear cabelo.

Varrer a casa

Usar roupa vermelha

Dizer palavrão

Beijar

Fazer aquilo

Por a mão naquilo

E aquilo naquilo

Era aqui, nesta data, que eu escondia comida por conta do jejum obrigatório.

E tinha que tomar cuidado pra não incorrer em artigos que pudesse apanhar.

Não era permitido violências também.

Mas aos grandes era dado algumas ressalvas que lhes permitiam dependendo do delito cometido.

Pedir perdão ao altíssimo pra aplicar ali um corretivo.

Pra quem estava em situação de culpa, que aos olhos da igreja, era quase todo mundo.

Mas devido ao salvo conduto

As vulneráveis e ao alcance da mão são sempre os mais frágeis, crianças e animais.

Era preciso tomar cuidado.

Tinha que tomar cuidado pra não apanhar na semana santa,

Quem apanha na sexta-feira maior, há de apanhar em todas pra sempre.

Todo cuidado era necessário.

Mas como era escrever uma carta pra um amor que nem existe?

Ora, usando a imaginação.

Como dizia a música,

"Como fosse um par que nessa valsa triste se desenvolvesse ao som dos bandolins"

Eu teimei e enfrentei o mundo

Mais uma vez.

Não seria difícil porque a TV já mostrava que as ruas estavam repletas de casais a se amar sem palavras.

Um dia de noite, assistindo o Fantástico, teve uma notícia que me chamou atenção.

Casais que fossem pegos se beijando em lugar público, seriam presos.

Se fossem maiores iriam pra cadeia, se menores, pra o juizado de menor e os pais iriam ter que tirar eles de lá.

Casais heteros, digo eu hoje, que pra nós homo nem existia.

Pra nós homo nem era ainda marca de sabão em pó, o sabão da época era o Vencedor.

Estava lá eu, muitas vezes divagando com meus pensamentos de flor em flor e alguma mulher dizia;

- Pega lá o Vencedor minina!

Naquele tempo toda e qualquer rebento do quintal da rua nunca que tinha dono, a gente era delas, de todas as mulheres do cortiço, da roda do poço, da mata, etc, a gente era pertencente delas, estava lá entre os badulaques todos, balde, penico, bacia e nóiz.

Onde elas estivessem, nós estaríamos lá para elas, com elas.

Muitas vezes me perguntei por quê?

Mas quando ao cair da tarde, na sombra do abacateiro, elas deitavam a cana e lascavam pra gente chupar, mastigavam até o caldo escorrer pelos cantos da boca, igual moenda.

Eu achava que era pra isto que éramos ali, família.

Mas havia perigos

Existiam homens vestidos de mulher que viviam bem longe da vila, eram violentos.

Matavam com uma faca qualquer pessoa que olhasse pra eles.

Isto era o que nos dizia toda e qualquer boca de gente grande da minha região.

Por esta razão a gente vivia fugindo dos vendedores de melancia por taiada, ou laranja sem casca que nunca estavam vestidos de mulher, mas usavam avental que era o que mais se parecia com saia.

E usavam faca.

Quando não vendiam melancia, vendiam laranja, banana, quebra-queixo.

Pra nós, eram eles os tais homens que eram chamados pelos achantes héteros daquele tempo de maricas.

Neste tempo os meninos iam pra zona toda segunda-feira.

Pegar muié, como se fossem elas coisas soltas que se pudesse pegar.

E as mulheres que eram mães deles contavam isso com louvor

Repare era bem assim deste jeito:

- Ah! cumadi! o meu pega muitas e elas se apaixonam por ele.

Era uma coisa que dava em árvore ,ficava na cidade, e só os meninos podiam pegar.

Era outro tipo de mulher.

Foi neste tempo que eles se enchiam de todo tipo de doença, gonorréia, chato e sabe se lá mais o que.

Se neste tempo ja se ousava cogitar a homossexualidade masculina, a feminina ainda no meu bairro estava pra ser inventariada.

Mas a rádio já falava de um romance entre a cantora Simone e aquela outra moça.

Romance não era amor.

E isto era coisa de artista, coisa que todo pai rezava pra sua filha nunca querer ser.

Cantar só mesmo no coro da igreja.

E a carta?

Depois da carta escrita era só fazer ela chegar às mãos de uma das meninas de língua solta, pedindo segredo de mentirinha.

Só pra ela ventar a história no ouvido das outras.

E as outras sentirem inveja de mim.

Tudo estava pensado assim

Mas não foi o que aconteceu.

Deu um B.O. da porra.

Naquele dia a professora de educação física teve um problema e faltou à aula.

E eu voltei pra casa com a carta no bolso de trás do calção vermelho.

A mentira é mesmo uma merda, tanto que me fez esquecer que eu tinha uma carta que me condenava junto a meu corpo.

Carta de amor entre as amigas era uma coisa,

Entre as irmãs era outra.

Eu tinha o rabo preso do tempo que eu extorquia elas pra mãe não saber que elas já namoravam lembram?

E elas agora já tinham seus namorados pregados aos pé de si e abarrotados no sofá da sala de casa.

O namoro delas era já morno e sem graça, namoro pra casar.

E elas já acumulavam traia pra seguir o destino que as aguardava.

Eu num vou dizer que tinha gente que tinha mais de um pretendente.

Mas um peguete era, já exposto na sala.

Era já uma guerra ganha porque a mãe já havia aceitado.

Que nem corriam mais atrás um do outro.

Era um troféu sem sentido.

O outro peguete era outra pegada, só não podia ser pego.

Sabe como é né? Deixar o rabo de fora feito amador, gente café com leite.

Daí minha carta veio pra esquentar a quinta-feira.

Eu cheguei em casa e esqueci de rasgar a carta mentirosa amorosa.

Era mentira.

Eu coloquei a roupa pra lavar e fiquei tranquila.

Fosse lavada em máquina e ela talvez tivesse passado sem ser notada, mas era lavada na mão.

Algo havia acontecido.

Por que motivo estavam elas tão risonhas?

Eu notei que elas estavam risadeiras demais, falando piadas que eu não entendia.

Em casa de quem não se conhece não existe conversa só indiretas

Eu não liguei até que elas citaram um trecho da carta.

"Eu vou sair daqui e vou roubar você e seremos felizes para sempre"

Ô miséria!

Aí eu lembrei, corri pra recolher a carta, mas era tarde.

Agora eu estava acabada.

Eu nem tentei reaver a carta, tomar das mãos delas, não adiantaria.

E eu não tinha nada pra trocar com elas, eu nunca guardava nada.

Mas por outro lado a carta era uma brincadeira, dava pra ver que não tinha nada de sério.

Como se eu não conhecesse a capacidade delas em inventar coisas.

Deu-se a desgraça

A tarde caiu

A tarde chegou, e minha mãe chegou da feira.

O sol estava quente .

E tudo o que a gente evitava era falar com a mãe quando ela chegava da feira com o sol quente na moleira.

Tudo ficava mal interpretado.

Eu ouvi, com meu coração aos pulos, elas lendo a carta pra minha mãe ouvir.

Eu não imaginei que mãe esperaria pra ouvir.

Mãe nunca gostou de leitura.

Achei até que ela nem ia acreditar que eu escrevera aquela aberração.

Sim, elas fizeram da minha brincadeira uma aberração

Agora era esperar.

Terminado a sessão de leitura, eu fui levada à delegacia, porque ao ver delas, era visível que aquele ser que escreveu a carta só poderia ser um homem.

Na delegacia foi um interrogatório sem fim e sem mais novidades.

Fui levada pra examinar, pra ver se alguém havia mexido nas minhas partes que guardam a honra da família.

Imaginem que isto era profissão, um filho da puta que olhava o hímen da gente e dizia se alguém mexeu ou não.

E dava atestado e a vida da pessoa se resolvia a partir de então.

Dali as meninas entravam com nome e saiam, fervidas, servida, arrombada, sambada, zuada, e...

E depois tudo acabado, não?

Vieram as vizinhas, a madrinha, as tias e a todo olhar eu ouvia:

- Ela nunca teve jeito, você terá que ser severa.

As portas da noite a casa silenciou.

E eu vou poupar-me, a mim e a vocês, tudo o que aconteceu comigo.

No dia seguinte, eu bem precisava ir ao médico pra medicar as marcas que ficaram em mim.

E eu não sabia o que ele tinha que achar dentro de mim.

Mas ele achou.

E aí tudo o que eu viesse a dizer não faria mais o menor sentido.

A pergunta feita a todo tempo:

- Quem era aquele homem da carta?

Elas depositaram em mim todo ódio que elas sentiam por ser mau amadas.

Hoje eu imagino.

Eu era uma menina e já tinha um homem que me escrevia cartas de amor, que talvez nenhuma delas jamais tivesse recebido de nenhum dos homens que se deitavam com elas, mas queriam.

E eu até hoje nunca recebi uma carta de amor como aquela, a não ser aquela que eu mesma escrevi.

Sem eu saber porque.

A carta falava de amor

Ainda lembro um trecho dela

Eu estou internado

Talvez não passe desta noite

Ainda ontem vomitei sangue

Minha mãe está comigo

Sei que não vem me visitar porque não pode

Sua mãe me odeia

Mas eu te amo.

E se Deus permitir e eu sair desta.

Eu vou roubar você e vamos embora

Viver um amor de verdade

E se eu morrer nunca se esqueça

Que eu só vivi pra amar você

Te amo.

Eu fiquei ali toda zoada me julgando amada.

E nem o direito de ter a carta de volta eu tive.

Nos anos em que se passaram

A carta pipocou em vários lugares, muita gente guardou a carta escrita por mim pra si.

E se valeu dos meus escritos pra escrever as suas cartas de amor.

E toda vez que alguém era pego com uma carta que lembrava a minha eu apanhava.

Estava ali constatado que era verdade quem apanhava na sexta-feira maior.

Apanhava mais.

A carta era ridícula como toda carta apaixonada, como escreve qualquer um apaixonado que descobre que de repente descobriu alguém que quer ter ao seu lado pra sempre.

E quando a paixão passa, nega pra si e para quem precisar que seja, negando que é incapaz de tal bravata.

Escrever linhas e linhas jurando que irá tatuar o nome da pessoa amada em todo corpo pra demarcar nele o espaço pertencente a tal sujeito ou sujeita.

E as falas são ridículas, maravilhosamente ridículas.

Lembro uma minha num passado nem tão distante

"Eu te amo, não vivo mais sem você, pra mim o mundo começou no dia que eu descobri o quanto te amo.

Eu dou a minha vida por um beijo seu??

Dias destes, este mesmo beijo eu recebi, troquei por um pedaço de pão com manteiga legítima.

Detalhe

Achei caro.

E pensar que eu iria tatuar o nome da pessoa amada no meu corpo.

Também acho!

Era só o que me faltava, eu escrevi coisas de amor assim do nada.

Quando outra paixão vier faço tudo de novo.

O danado é que eu me apaixono por gente, bicho e planta .

Depois passa.

Naquele tempo, esta escritora que lembra este fato hoje.

Eu mesma,

Era pra desde aquele tempo receber direitos autorais.

Mas seria esta a primeira de muitas cartas.

Era pra ser só uma carta de amor

Era pra ser só uma brincadeira de menina

Se não fosse tanta maldade, tanto o ódio

Era pra ser só uma carta de amor

Se não tivesse caído nas mãos de gente tão carente deste amor que eu já tinha.

Era pra ser somente uma fantasia.

Jacira, janeiro de 2003

São Paulo

Ainda tão recente hoje, 2021



** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL