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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Levanto-me, fico de pé sobre a linha de calunga e caminho

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

02/05/2021 06h00Atualizada em 02/05/2021 18h11

Saúdo minhas e meus ancestrais, árvores, água, vento, fogo, céu e sol há muito que me alimento destes elementos sem nem ter notado.

Eles simplesmente se dão e todo ser que se dá sem pedir nada em troca é difícil da gente notar, porque eles não cobram nada nunca.

Assim eu vivi até agora, sendo alimentada de ar, comida e carinho, logo que sinto tudo isto, não ando sozinha.
Antes que eu sentisse o cheiro do café viajando na cozinha de minha mãe, bem antes as células do meu corpo caminharam entre si inclusive dentro da minha própria mãe. Aí eu me fiz um embrião primeiro, me alimentei do sêmen e fui acolhida em um útero.
Depois o parto, e quando este se deu, ele, meu pai, não se encontrava mais entre os mortais.

Nasci num dia de festa e de fartura, com muita comida na mesa. E mesmo assim.

Lá em casa Maafa visitava meus irmãos porque sendo meu pai missionário, passou a vida trabalhando de graça pra igreja, arrebatando almas pra Jesus.

Esqueceu que filhos precisam de casa e comida, ele mesmo deve ter sofrido com suas escolhas ainda em vida porque se esqueceu de acender a própria luz.

No dia que eu nasci meus irmãos perderam a mãe porque a igreja despejou-nos da pequena casinha que se situava nos fundos.
A igreja colocou pra fora, pra rua, minha mãe e com ela cinco crianças, uma nascida inclusive no dia 25 de dezembro. É muita coincidência, não é?

Como minha mãe não tinha pra onde ir, coube a justiça resolver o caso e esta o fez com maestria.

Enviou meus irmãos para Itápolis para um internato que ficava a mais de oito horas de viagem de São Paulo, era bem ali.

Minha irmã mais velha ficou mais perto ali num colégio em Jabaquara.

Minha mãe agora podia visitá-los apenas.

Este afastamento indigesto tirou de nós, irmãos, a possibilidade de se conhecer como família.

Quando narro o episódio da fumaça de café vindo da cozinha éramos apenas duas, eu e uma outra irmã.

Mais tarde nós também iríamos naquele lugar onde chamavam convento, e como isto já está escrito e sacramentado, não vou falar como foi viver ali seis meses como uma criança enjeitada.

Ali entramos pra virar gente, dali pra frente.

Eu quase morri, naquele presídio cheio de adultos frustrados, castradores de infância, mas a providência me salvou me arrebatando pra casa.

Isto é passado não me pertence mais, estou curada.

Agora a partir daqui, sim, a vida volta a valer a pena.

Eu afastada da terra só pensava na terra, pois é ela que me alimenta.

Dentro de mim tem um menino que sempre caminha comigo, é minha sombra, meu espírito e se chama Nico.

Alguém tão cheio de vida só poderia ser comilão e andar par e passo, lado a lado, com a comida.

Ainda falando de alimentação, sigo, venha comigo.

Percepção

Vi, não entendi, entendi sem ver, vi, entendi, não aceito.

Eu tive um território só meu no quintal, depois perdi, depois encontrei, tornei perder.

Aceito.

São 7 horas da manhã, estou na hemodiálise já há mais ou menos uma hora.

O astro rei já acordou faz hora, posso vê-lo da janela.

Viajando na vida, lá atrás, em outros tempos.

Nico já acordou atento aos sinais, Mininico tinha um plano, ser o chefe o dono da brincadeira, ser o primeiro o líder.

Pra isso e por isso tinha um plano, uma missão, e pra isto precisava acordar cedo.

Mas Nico tinha sono, leve como um passarinho, ele nunca dormia de todo ele enrolava a noite.

Passava a noite em claro fazendo planos e conversando com as sombras que visitavam.

Se não podia com elas, se ninguém acreditava, ele passou a conviver com elas.

As pessoas achavam que Nico falava sozinho, Nico nunca falou sozinho.

Quando acordava e se levantava da cama ele se encaminhava pra segunda missão, riscar a rua.

Um triângulo, três passos, sendo um de cada lado, com passos de perna aberta pra dar menos de um metro em cada risca.

Hoje fico imaginando o porquê a gente, de quando entrou na escola, já sabia matemática, aprendemos ali mesmo na vida, na rua, se alimentando nas brincadeiras.

Pois se assim também aprendemos nossas defesas.

Lembro como se fosse hoje.

Naquele tempo devaneios.

Noite passada Xica Mixirica rebolou com as bolinhas de gude dele no mundão do matão.

Xica Mixirica pra quem não sabe, é Dona Maria a mãe de Nico, também chamada Maria Baiana a negra mais bonita e inteligente do mundo da rua Ataliba Leonel.

Muito brava também.

Os meninos livres de mãe brigona recolheram toda a riqueza de Nico exposta, agora ao seu novo destino.

Tinha nada não, Nico sabia que as ganharia de novo na raça.

Naquela noite choveu burca colorida no mato e na vida dos amigos de Nico, que já era um menino rico.

- Deixe estar, que elas voltarão.

De sorte que Nico sempre guardava as três bolinhas da sorte pra recomeçar o reganho. Quem alimentava de grandeza e bravura um Nico daquele tamanho.

Nico, como toda criança africana, nasceu com sete anos de conhecimento.

Já as caucasianas tem outro jeito de nascer.

Nico ao entrar na escola já sabia tudo o que queria e o que o universo achava que ele precisava saber.

A vida era dura.

Xica Mixirica não era de brincadeira e não só rebolou os bens de Nico no mato como ainda lhe deu vários cocorotes.

Tudo o que é mãe daquele tempo adorava fechar a contenda com cocorotes, puxar gola, orelha, limpar a ramelada gente com saliva e tava tudo certo.

Xica saía cedinho para o trabalho, antes da noite ir embora, fizesse sol ou chovesse, chegava em casa era já noite alta.

Xica naquele tempo pouco estava.

O trabalho de Xica era severo mas Nico era dono de si, e se chovia nem da cama saia.

Caso chovesse, Nico não ia marcar a rua, a chuva demarcava a risca e a brincadeira nem acontecia.

Nico só ia pra lida da rua quando tinha sol, com sol tava pra nóiz.

Depois de marcar a rua, ficava por ali, varria as pedrinhas, preparava o terreno, ficava de plantão a esperar o segundo menino que surgisse.

O segundo que surgisse seria a testemunha que Nico chegou primeiro e este seria o capitão substituto, caso Nico precisasse se ausentar, o segundo a chegar consagrava a chefia do primeiro, era lei.

E todo o resto se resolvia com as mesmas regras pela ordem do safanão, soco, se precisasse.

Também se barganhava com bolinho de chuva, baga de cana, sal pra comer manga verde.

Quando ficava muito perigoso não era feio correr pra casa e gritar a mãe ou um escudeiro qualquer como um irmão mais velho, por exemplo.

É brincando que se faz surgir e respeitar as regras de bem viver, qualquer criança sabe disto, e ali a regra era clara e só mudava ou descumpria se por acaso surgisse um grandão sem noção.

Nico mesmo nunca tratou com os grandes, porque eram maiores, isto era fato, e eram desprovidos de bons planos e de inteligência, não tinham nem sonhos nem amigos por isso tinham uma violência sem razão.

Era gente que já havia passado do seu tempo, e nem tinha percebido.

As horas se passavam e nelas iam chegando toda turma sacudidos das cobertas o Gerson, o Mané, o Zé, o Zué, Jorge, o Val, Carlinhos, tinha mais, mas eu não lembro agora.

O que comíamos? Perai xô lembrar:

A gente não se importava muito com o que comia, enfiava algo na boca e saia.

De manhã pão e chá em casa, alguns amigos não tinham o que comer, aí a gente repartia.

Mais tarde a gente se virava, éramos caçadores, comíamos preá, tartaruga, quem preparava era Dona Zefa a mãe de Zé e Manuel.

Preá a gente assava e comia mas tartaruga era difícil tinha que ter alguém que destocaiasse ela do casco, isto Zefinha, nossa amiga, fazia.

Mas isto nenhuma mãe desconfiava, era segredo.

Por vezes os homens caçavam tu, um tipo de tatu, e a gente comia, e dizem que a gente comeu muito gato, isto eu não posso afirmar mas sei que nunca comi nada ruim, adoro comer.

Mas o danado era, porque será que Xica tinha tanta raiva de bolinha de gude, arapuca, de pipa, de cerol, de brincadeira, ela era muito séria.

E ainda me chamava de moleque macho.

- Oh moleque macho, olha só o que cumadi tá dizendo docê!

Ora sabia lá eu o que a cumadi dizia?

Pois se ela nem era muda, que falasse era menos um mudo no mundo.

Deve ser ruim a pessoa querer falar e a fala ficar represada.

Xica medrava ter parido um Nico de rua, em corpo de menina a Jacira parida e registrada e a rua não perdoava.

Certa feita pra testar o destino e desanuviar a consciência, ela chegou em casa com uma boneca de presente e por uma ironia do mesmo destino veio junto um caminhão de madeira.

Nico se apegou ao caminhão, era com ele pra cima e pra baixo a toda hora.

Um dia fazendo um carrinho de rolimã e não tendo um enfeite pro carro, Nico desmontou a boneca e deu a ela outras funções.
Quando Xica viu a boneca ralada no asfalto sendo usada como freio ela quase teve um troço.

Mas de onde lhe vinha tantos receios?

Era do todo, da vida, das bocas e dos instintos.

Quantas vezes ela chamava Nico, punha na bacia, punha água, lavava, aí sentava numa cadeira e explicava a vida e dava como exemplo as irmãs mais velhas que agora já moravam em casa.

- Porque você não faz como suas irmãs que colecionam já o talco, brilhantina, sabonete, elas se enfeitam, já já tá na hora de casar e você nem tem espaço pra guardar o enxoval. Sua gaveta só tem lixo e perda de tempo.

Ah isto eu tinha raiva porque eu não gostava de nada que elas guardavam, mas nem por isso eu desdenhava.

Eu nunca disse que não gostava quando Xica sumia, eu sentia falta da comida dela, e eu num ficava passando sermão nela, falando pra ela deixar aquilo e voltar pra casa, pensar Nico pensava mas num falava.

Pois se era tudo o que Nico precisava, que ele guardava papel pra capucheta, papel de pão, vareta, saco de leite pra rabiola, lata pra enrolar linha.

Ora era cada um com seu cada um.

Quando tinha galinha de mistura, Nico sempre guardava a clavícula da bichinha pra atrair a sorte e isso de dizer que quebrar aquele pedaço de osso dava sorte, quem ensinou foi mesmo Xica.

Nico era jeitoso mas também era de fé e levava sério tudo o que era dito a mesa.

Por isso, mantinha em segredo as três burcas seguras nalgum outro lugar.

Porque será que Xica chamava de burca as bolinhas de gude?

Na igreja, da vila, no culto, de quando o pastor dizia que toda criança era filho de Deus, mas só iria pra o céu quem fizesse jejum.

Ah! Nico erguia o braço, mas ele era mentiroso que só e de noite chegando em casa, escondido, procurava uns biscoitos, um pão e escondia debaixo do travesseiro pra comer escondido durante o jejum que ia até às dez horas da manhã.

A bisa se orgulhava de Nico, por isso ele passava fome sorrindo ou melhor digo agora mentindo.

Aqui no Ataliba não existia aquela mesa cheia de comida da Dona Benta, aquela do sítio.

Nico sempre teve medo de ficar com fome porque ele ficava com muita raiva e até brigava se ficasse sem comer.

E também ele nunca quis acreditar que Deus ia mandar ele ficar sem comer.

Nos passeios sempre tinha uns trocados porque ele era um moleque de recado, de leva e traz, levava recado pras moças e pros rapaz e com um dinheirinho a mais ele guardava segredo e até criava uma outra história pra contar pra Xica de quando ela mandava Nico tocaiá os namoro.

Quando a missa era de noite o combinado era assim:

Nico ficava no parque rodando no dangue e falava pra elas voltá quando o sino batesse o fim da missa.

Nico era um menino monetarizado, tudo o que ele fazia tinha taxa de postagem, manuseio e envio, segredos e mentiras eram a parte.
De outra maneira, como ele amealharia o seu futuro?

Cada coisa a seu tempo, de vento, burca, balão, aventura.

Nico não via presteza nas irmãs mas elas tinham beleza, mas num servia pra quase nada, num entrava em brejo, não corria pra pegá boiado, num bolia com sapo e nem preá, num catava lenha, nem rolava na grama.

Eram metidas em talco, chita e laço de fita, e como Xica gostava muito disto nelas.

Xica até dizia pra Nico:

- Penteia o cabelo, te põe bonita, amarra o laço que Deus gosta.

Ora, como coisa que Deus não gostasse de Nico, pois se eles até se falavam.

Nico até disse a Deus que não gostava do senta e levanta da missa, mas por ser comilão tinha vontade de comer aquilo que o Padre Raimundo dava na hora da comunhão.

Isto eu conto outra hora por agora eu só digo que terminou como sempre, com cocoruto.

Se Padre Raimundo e Xica resolvessem as coisas no três a um, ou par ou ímpar, ou na risca do triângulo, se eles soubessem como Deus, os Orixás e todos os Santos gostam muito mais de alegria, a vida deles seria diferente.

Basta ver que Deus criou o céu pra pipas e passarinhos, o homem só inventou de voar muito tempo depois, e Nico voava, devaneava entre pensamentos de brinquedo, comida e riqueza, e divisão.

Mas acontece que Nico, como as irmãs, cresceu, e começou a crescer nele umas coisas que ele nunca que entendia.

A primeira coisa que enjoou foi os meninos e de riscar a rua, e os pipas, o pião, um dia ele guardou tudo numa caixinha.

Sabe aquela mania que Nico tinha de olhar as meninas pelo buraco da fechadura? Ele roubava o segredo delas e Deus foi conivente com ele.

Depois Deus achou que Nico invejava as irmãs e deu a ele o mesmo que elas tinham, aí Nico descobriu que também era menina, ficou triste e contente.

A rua ficou pra trás.

Agora nico era quem ia casar, ficou tudo resolvido, Xica estava feliz e todas as vizinhas e cumadis viriam enrolar as latas de kibe, pastorar a feijoada, buscar lenha, enrolar brigadeiro.

Nico ainda não entendia bem o porque tinha que casar, ir ao cartório, mas uma coisa ele entendia bem:

Vai ter comida, vai ganhar presente, e vai morar num quartinho ali mesmo no quintal de Xica, se pá vai poder, entre uma pelada e outra, ir ali pra almoçar, jantar.

Xica teve uma conversa muito séria com as irmãs que ficaram de cara feia porque Nico precisava de um negócio chamado enxoval, que ele mesmo não tinha, mas Xica pegou das meninas.

Elas nunca entenderam que Nico investia em um futuro que naquele tempo era o campeonato de rua, que o deixou com riqueza e prestígio na rua, só não tinha dinheiro.

Mas se algum dia elas quisessem jogar, Nico ajudava.

Nico ficou foi muito triste quando Xica varreu a gaveta dos bens que ele tinha.

Brincar na rua não poderia mais, todavia deixar suas três bolinhas da sorte era a morte.

E as luas se passaram.

Agora Nico era mãe, Xica era avó, e tapou a boca de todas as bocudas do Ataliba.

Mas Nico, e aquilo que você sentia quando olhava outra mulher se despir?

- Ah! Acho que era só beleza mesmo.

Quarenta e tantas remessas de luas vieram e se foram.

E de repente, eu acho, eu me vi indo e voltando, buscando bocados feito passarinho.

Era um ir querendo, ficar temendo, sofrer.

Devolvi todos os meus sonhos à terra, e me igualei com as espécies da caminhada.

Sabe por que?

Porque adoro encontros que tenham sorrisos, dança e comida.

Por isso eu desbravei um mundo de prateleiras em prateleiras até chegar a hoje.

Depois que Nico adormeceu, eu passei a viver anestesiada, se por acaso um tijolo me caísse no dedinho, se eu cortasse o dedo mindinho, não sentia nada.

Engolia o choro como me ensinou a vida, a escola, a lida.

Só os fortes e os guerreiros irão vencer na vida e nesta vida aqui no Ataliba quem não quer ser vencedor?

Mas o que é vencer afinal?

Eu esqueci aquela voz que vivia dentro de mim, ignorei porque ela me ditava coisas impossíveis como realizar meus sonhos, buscar a felicidade num tempo em que aqui a gente faltava com a vida pra enterrar nossas outras metades que foram sendo mortas assim:

De tiro, de desprezo, suicídio, fome, desnutrição e ela que até a mim ameaçou a loucura.

E eu lembrei de quando, com muita alegria, abandonamos a comida na mesa pra buscar a expansão da cidade.

A chegada dos rodízios, pizzarias, shoppings, as roupas de marca, os cigarros, de então a liberdade de seguir sempre.

Depois veio a escassez, a embriaguez, os vícios, o pouco dinheiro, a falta de lucidez, a globalização e nada.

Voltar para realidade me trouxe noites de insônia, dores sem remédio, tédio e depois nada.

Eu quase morri, mas não morri.

- Dona Jacira, a partir de agora nada de frutas, gordura, leite, água, a senhora vai precisar vir ao hospital todos os dias.

- Dona Jacira, além do problema renal a senhora tem tuberculose.

- Dona Jacira sua pressão é muito alta.

Um dia fui apresentada à liga da hipertensão e encarei meus inimigos de frente.

Cortei os embutidos, as conversas fiadas, os açúcares, diminuí o sal, troquei as gorduras, e pra cuidar como quem não quer nada fiz um pequeno canteiro.

Aqui no quintal, eu me entreguei a natureza e o universo apostou em mim, eu olhei no espelho de cada gota de água das folhas e me vi bonita, eu revivi.

Tempo passado, filhos criados.

Eu me alimentei de esperança e ela renasceu em mim.

A voz que falava dentro de mim gritou dizendo:

- Achei que ia ter que bater na sua cara porque na porta já desisti de bater.

Entender que todo corpo é sagrado e precisa ser respeitado e alimentado de ar, de sol e de tranquilidade é hoje minha meta.

Hoje Xixá tem bem seus oitenta anos, está aqui linda e forte, eu agradeço ao universo porque a gente conseguiu se entender em vida e se alimentar de tudo o que o racismo tirou de nóiz.

Eu me alimento da força que tem na raiz das minhas matriarcas.

Lembra das sombras que Nico via na infância?

Ela nasceu comigo e vai embora comigo, alimenta meu corpo, meu espírito e meus ideais.

No futuro espero que o mundo seja melhor e que todas as crianças como meu menino Nico tenham o direito de ter direito a uma rua em um Ataliba qualquer, garantido pra ele ter na memória ou melhor no ndotolo a ideia de o que é viver em paz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL