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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Devaneios

Devaneios - Victor Balde
Devaneios Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

18/04/2021 06h00

Hoje dormi pensando numa tragédia familiar.

Um casal morreu pela mão genocida que governa este país.

Os dois internaram com covid há um mês atrás, o homem, de 54 anos, morreu logo após a internação, na data de 24 de março. A mulher morreu ontem, 10 de abril.

É estranho ver os nossos irem sem ritual de despedida.

Esta era minha prima Márcia.

Apesar de ser parte da família, não nos víamos a mais de 40 anos porque eu fui vítima de racismo na casa de Márcia.

E resolvi, ao sair da casa de minha mãe, que esta parte da família não me acompanharia.

Quem ler meu livro Café, vai encontrar lá a estória de tia Marta e tia Tereza, Marcia ou Marcinha era a filha de tia Marta.

Poderia ter sido diferente.

Não, eu não carrego nem mágoa nem culpa diante do tratamento dispensado a mim, eu que não sei agredir só poderia me afastar.

Todavia, enquanto há vida, há esperança.

Por isso hoje eu falarei, entre outras coisas, de amor.

São 6h30

Mas o dia para mim já se pôs, desde duas horas da madrugada.

Durmo cedo.

Antes que a noite se faça grande me aninho.

Te convido, fecho as brechas pra realidade e embarco pra um mundo só meu.

Cada noite é uma viagem.

A lua segue em seu quarto crescente.

O céu encoberto não me permitiu visualizá-la

Não tem problema, eu sei que ela está lá.

Como você está em mim e não está

Não está, mas existe igual a lua lá fora

Não vejo mas imagino. você está.

Pois que tu sois regido por ela

As vezes tenho medo que a lua desapareça

Porque ela é feita de água, igual você

As vezes me penso louca

Eu só penso, enquanto algumas pessoas tem certeza

A loucura é o sal que não deixa o juízo apodrecer

Diz a pessoa na voz de Bethânia.

Ontem criei uma desculpa, sou boa nisso.

Eu precisava voltar atrás para romper com uma promessa.

Um acordo que fiz comigo.

Pra não gastar todo carinho que tenho nutrido e guardado por você.

Eu havia pedido a mim que me afastasse

O excesso de presença

É como o primeiro beijo

Uma linha divisória entre o sonho e a rotina

Nunca é o mesmo.

Eu já me machuquei, assim sabia

Fosse eu mágica, eternizaria todos os bons momentos que julgo necessário.

Chegou em casa duas cartas.

Uma delas era um convite pra eu me tornar testemunha de Jeová.

Sabe o que me impressionou mais?

A carta era longa e muito bem escrita, como as que eu já escrevi na adolescência.

Cartas de amor,

Só os tolos escrevem cartas de amor, eu tenho saudade das minhas tolices sinceras.

A carta me levou a aquele sagrado lugar da inocência.

Ela escreveu a carta a mão, achei mágico.

Deitar o que crê em papel em branco e em vão

Jogar as letras ao ar, vá lá que eu acreditasse e quisesse ir.

Eu escrevo pra mim mesma.

Li a carta, entendi a questão dela, querendo que eu engordasse as filas de seu rebanho.

Eu poderia ir sim, se eles aceitassem toda minha linhagem.

Meus santos, meus rituais e toda minha sagrada intimidade espiritual.

Mas não quis perguntar, apesar dela ter deitado ali entre as súplicas dela, signos e números, caso eu pensasse em ter com ela.

Rasguei a carta, mas antes em respeito a escrita dela.

Li todos os signos.

A carta queimava rasgada no canto do quarto, sem queimar.

A chama trouxe à minha memória as falas da minha bisavó.

Só os justos merecem o reino do céu.

Isto é uma realidade ocidental forjada a base da cruz e a espada.

Foda se, meu reino foi invadido e destruído por este povo aí.

Eu sendo a mulher que sou, de linhagem matrilinear, não posso mais permitir que essas falsas verdades invadam meu pensamento e maculem a força da minha nação.

Sou descendente de mulheres nutridoras de potência, não posso permitir que uma promessa tão vaga roube minha lucidez.

Eu não sou a mulher de um homem, apenas, pertenço a uma nação.

A segunda carta era um cartão pra Evandro.

Daí o voltar atrás na promessa

Se fez urgente minha presença num certo lugar

Olha, a urgência nem era a carta, era outra urgência.

Meus olhos iriam viajar pela carta, seria minha desculpa pra viajar noutros olhos.

Não são verdes nem azuis, mas são olhos de água.

Tive que esquecer tudo o que disse ontem

Eu disse a mim mesma que nunca diria sobre este escrito a ninguém, isto quando o escrevi em 2016.

E olha eu aqui roendo a corda em 2021.

Aqui estou me pondo nua, parece que gostar de você tira de mim o senso de ridículo e da realidade.

Se eu, pra te ver como prego chupo parafuso, bebo café como se fosse suco.

Fico sem palavras, revelo segredos.

Não é legal ser alguém que trai a si mesma.

Não importa na cotação, rompi um trato mas ganhei dois beijos e dois abraços, ta pago, chamei isto de me trair por gosto.

Também eu queria ver Evandro, um dos meus potinhos de ouro, porque na terça feira de manhã ele me ligou de madrugada dizendo:

- Mãe, tudo bem? Diz que está, por favor. Tive um pesadelo, um sonho muito ruim, acordei, sentei na cama, de tão real e ruim que foi, por isso estou te ligando, chorando.

- Sonhei que roubaram nossa casa, e o ladrão arrancava todo seu cabelo com as mãos, eu sentia sua dor, eu batia muito nele, mas apanhei também. Somos das nações que recebem recados sonhados.

- Filho nossos sonhos nunca são do outro. O sonho é de quem o sonha. Como você pode ver ou ouvir, estou bem, tente dormir novamente, depois conversamos, mais tarde.

Evandro é de peixes, e este povo é quase sagrado.

Tudo isto que escrevi acima são devaneios que fiz sobre mim após me apaixonar por uma criança.

Levei o fato ao meu analista e chegamos a uma conclusão:

Amar uma criança pode sim me trazer a minha própria infância, descobri-la e curá-la até.

E muito embora eu sentisse que o amor era retribuído, com muito medo das duas partes, resolvi vivê-lo com leveza e imaginar que ele caminhava, dormia e se levantava comigo.

Transformei meu amor num oráculo, um companheiro invisível, um passante.

Alguém que eu poderia chamar a qualquer momento.

Eu idealizei e me apaixonei pela idéia, e eis que ele se transformou numa lanterna.

A minha lanterna, foi assim que eu descobri que quem ama carrega uma lanterna de tanto que o amor acende o sol da gente.

E me senti iluminada pois quem carrega uma lanterna, quem carrega a luz, é o primeiro a receber o lume.

É o primeiro a se alumiar.

Depois de criar os outros que pari, Zambi, sabedor de minha ancestralidade, deu-me mais alguém que não necessariamente viera do meu útero pra eu potencializar e sentir de volta a mesma potência que refletia em nós pelos espelhos de nossos olhos.

O resto é céu é mar e muito, muito mais potência.

Isto mudou toda a rota de pensamento de fracasso da minha vida.

Eu enviveci, de mim mesma.

Eu fui criada pelo recorte do amor caucasiano,

- Mulher precisa ter prendas domésticas, se preparar, cuidar do homem que vai cuidar dela, protegê-la do frio e da fome, e das crias. Ela, a ele, deverá obediência. Sua felicidade será a labuta de todo dia, amor a deus tanque e pia.

Meu espírito mulherista e rebelde, lá no fundo, me deixou crer naquela verdade até onde ela me coube.

Até eu entender aquilo que o homem branco, o traficante de minhas ancestrais, aquele que se plantou malditamente em nós pelo seu semem.

Não pode me proteger do frio, porque minha terra nunca foi fria.

Não pode ele me proteger, porque ele sim trouxe a ameaça.

Não pode matar minha fome, porque o que eles apelidaram de prendas domésticas na terra de meus ancestrais tem outro nome.

A fome veio com eles e sua sede de poder e sua preguiça.

A terra que é minha mãe, maior junto com minhas ancestrais, me potencializaram pra gerir vida.

Plantar, cuidar, gestar, pintar, cantar, dançar.

São dons, são ofício, legados que vieram de nós e nos resguardou na linha de calunga.

Passado adiante de geração a geração.

Quando maafa atravessou o atlântico e escravizou os meus, mesmo escravizados estes costumes, permaneceram em nós como uma política ligada à sobrevivência.

O tráfico não tirou de nós o amor pela terra e pela comunidade estendida.

A escola caucasiana nunca poderá entender porque está pra além de seu entendimento.

Cuidar está ligado a nós pelo espírito de intimidade.

Coisa que o capitalismo arranha mas não alcança.

Opa voltei.

Após receber duas cartas, a segunda falava sobre o sonho de Evandro, meu caçula.

Evandro e eu somos caçulas.

Eu agora estudando xamanismo descobri muito sobre mim e o mundo à minha volta, joguei cartas pra Evandro.

E escolhi pra ele a sequência do pé de milho.

O livro das cartas do caminho sagrado diz que:

O milho vem sendo nosso sustento há muitas gerações.

O pólen é sagrado.

A terra fértil nos dá o milho de presente.

A filosofia que não dá milho não tem valor.

O milho é o símbolo da bondade, abundância e fertilidade pra o nosso povo.

Alimenta corpo, mente, coração e espírito.

A beleza de viver em equilíbrio é que dá milho.

O maná da vida.

Jamie Sams

Por isso que na roça as pessoas liam o pé de milho pra tirar a sorte, porque se o milho vai bem tudo estará bem.

A Meu Filho

Que está num sentido da vida que demanda cuidado porque ele está buscando prosperidade pra nos potencializar.

No feminismo a mulher tem lugar de fala.

No mulherismo, africana o todo tem lugar de fala.

É um caminho contrário porque o capitalismo é feroz.

Ele está correndo atrás do ganho, matando o seu leão diário.

Por e para isto precisa se firmar diante dos obstáculos, sempre.

Por vezes não se alimenta direito.

Já foi alvo de larápios.

Já teve carro e celular furtados.

Sua paz está em jogo.

Porque somos alvo sempre, não tem descanso.

Era semana do SPFW.

Quem cochilar o cachimbo cai

Tudo lindo e trabalhoso, apesar do racismo do evento

Vocês estão de parabéns, eu me orgulho de vocês todos.

Eu sei o risco que correm, são jovens tentando a vida, conscientes da luta, nadando contra a maré, num governo corrupto que fez pra cada um de nóiz uma cela numa cadeia no interior.

Mas não queremos isso, somos resistência.

O pé de milho falou comigo.

Por esta razão, Evandro foi visitado, ele viajou por este pesadelo.

O contrário plantado no nosso subconsciente, lá no Atlântico ainda.

Às vezes provoca a gente dizendo:

- Daqui pra frente você não passa porque você não é branco.

Contrário, eu sei que por hora o terreiro é seu, mas arreda e deixa meu filho e meu povo passar!

A sequência, o milho assim ele o é.

Raiz

Caule

Grão

Maná

O que me foi revelado só a Evandro pertence.

Não seja curioso

Mas vai aqui o que minha mãe yansã soprou nos meus ouvidos e me permitiu contar a todos.

Ali no sonho teve uma profecia porque um dia antes eu cortei todo cabelo, fiquei careca, então ele sentiu.

Evandro cortou meu cabelo a primeira vez que resolvi carecar, e ele chorou dizendo que meu cabelo era lindo e ele estava se sentindo mau por estar naquele lugar, depois ele voltou atrás dizendo que eu havia acertado em raspar a cabeça porque meu coco era redondinho e ainda que fosse um coco torto seria o coco da mãe dele.

Eu brinquei dizendo que se meu coco fosse cheio de calombo ele iria colar meu cabelo novamente.

Lembro ainda o quanto foi gratificante provar chapéus, brincos grandes e pequenos, novas molduras pra obra de arte que havia acabado de descobrir.

Sim, teve comentários idiotas, mas eu estava vivendo a minha liberdade adquirida com o suor da minha vida e eu cortei o cabelo porque queria contar um segredo maior, muito maior.

Cortei o cabelo porque o amor que estava me atravessando me deixou muito triste e pra não cortar os pulsos...

Escondi um segredo pra mim que era pecaminoso pra parte dos demais.

Contei este que era minha careca, eu estava apaixonada por outra pessoa naquela época, e isto sim seria uma bomba bem grande, um pecadão eu estava amando uma mulher.

Pense que tanta gente ali iria cortar meu pescoço, Evandro sabia o segredo.

Não era apenas raspar o cabelo, era jogar uma vida velha fora, fazer a transição de ser cativa, pra tomar as rédeas da minha vida.

Esperar sair o cabelo alisado seria esperar muito, e eu tinha pressa, poderia no meio do caminho mudar de idéia, inclusive, é só tingir pra tapear como fiz muitas vezes, pra agradar inclusive aqueles mesmos gregos e troianos do quintal.

Tanto o cabelo quanto eu mesma nunca éramos aceitos.

Que jeito dar a o que nunca teve jeito?

E o cabelo cresceria de novo.

Mas a mulher amada dentro de mim nem este ou aquele amor merecia, eu poderia escolher.

Escolhi fazer o mesmo que estou fazendo com você, escrevendo.

Escrevi lindos livros, odes e poesias, ofereci não a ela mas ao amor que eu estava sentindo.

Depois quase joguei no lixo, quase rebolei no mato.

Mas Yansã me alertou a não fazer este caminho, ela me disse:

- Não seja tola, vai jogar uma estória linda como esta no lixo? Nada.

Acerte no bicho, jogue na rede, espere a dor passar e escreva, uma memória e venda.

As pessoas gostam de tragédia, fofoca, novela, contos, mentiras, lembra?

Alumie seu caminho, a paixão tá passando, mas o dom da escrita é seu, você não deve nada a ela.

Com o cabelo faça o que quiser mulher, já que já descobriu que esta dama não é digna de receber todo este amor.

Burrice a gente não herda, use a escrita pra sair da merda, ganhar um troquinho extra.

Vai chorar sim, mas vai vender o escrito, comprar uma passagem, fazer muitas viagens, pode até começar indo chorar as mágoas lá no Cristo Redentor se quiser.

Mande esta mulher a merda, burrice a gente nunca herda...

Ah! voce nem sabe se é lésbica mas uma coisa já é, bissexual, com certeza, nem precisa jogar as cartas na mesa.

Você é feita de coragem, está cercada de gente que queria ser como você gente, mas não sabe como.

Medrosa gente perigosa, espere pra ver o que dirão do seu cabelo ou da ausência dele, é medo.

Não dê a eles sua lanterna.

Então, isto tudo foi quando raspei pela primeira vez.

Mas agora havia crescido e eu havia raspado de novo.

E novamente as ofensas vieram, mas eu estava blindada.

Aí quando alguém dizia:

- Nossa que temeridade!

Eu respondia:

- Temeridade é o que vem por aí e ria sozinha.

Em 2016, fiz minha primeira viagem, não ao Cristo Redentor, mas ao Rio Vermelho Salvador.

Uma entidade nunca falha.

E como nós mulheres, na ordem dos idiotas, não temos direito ao próprio corpo, que dirá de cabelo.

Eu recebi muitas mensagens me dirigindo orações.

Entendi que o pessoal achou que eu estivesse entrando em um processo de quimioterapia.

Isto pode, transição não.

Entendi que mulher na cabeça de muita gente, se raspa o cabelo, é porque está doente.

Voltando ao sonho.

Quanto a enfrentar o ladrão.

É o próprio íntimo dele tentando se manter de pé diante dos obstáculos e dos fatos reais.

Quem conhece Evandro sabe que ele é quem nos potencializa, quem apaga os incêndios que a gente acende.

E ele mais que ninguém sabe que nosso país está sofrendo um grande golpe e aí tudo piora.

Suicídio, assalto, delírio, medo, loucura, assédio, furtos...

O pesadelo dele narra a nossa dor momentânea, o banzo.

O MEU AVISO COMO MÃE

Nunca reaja.

Os amigos do alheio estão em todo lugar.

Na vila Madalena, Higienópolis, Pinheiros, Praça Ramos, Catedrais.

Só mesmo os motoristas do Uber é que vêem o mau só nas periferias.

Pra eles nós somos áreas de risco.

Nossos corpos são atravessados por um monstro chamado genocídio.

Este monstro tem muitos tentáculos chamado de braço.

Nós, enquanto corpo negro somos:

Mulheres negras

Homem negro

Idoso e idosa

Pessoas doentes

Comunidade lgbtqia+

Periferias

No primeiro vacilo um destes braços do genocídio atravessa nossos corpos e a gente não tem um escudo que nos proteja.

Uma amiga. Tereza Santos diz que:

Nós mulheres negras estamos a frente no diálogo mulherista porque nossos homens negros estão mortos ou encarcerados, não podendo estar conosco neste momento, neste movimento.

Qual família de gente não branca pode dizer que isto não é uma realidade hoje?

Aí seguimos trabalhando cantando a canção.

Falar sobre a terra é muito importante na hora de falar de amor.

O que plantar mesmo nesta fase do ano pra nós que estamos em São Paulo.

Repolho, couve flor, brócolis, couve, são resistentes ao frio e seguir com os temperos que gostamos, os tomatinhos miúdos vão bem com o frio, meu doce.

Em abril, aqui em casa, colherei o açafrão plantado em setembro, colherei também os morangos, e lá vem geléia, suco e fermentado, coração.

Visite lá meus cursos sobre os ciclos do meu quintal.

Tá tudo lá.

A lua recebe a luz do sol e reflete sobre a terra, emitindo sobre plantas, animais, água e a própria terra.

A lua é crescente e por isso exerce influência sim, e muito boa por sinal...

A seiva está presente em maior abundância no caule, ramos, e folhas.

A lua crescente é um tempo bom para:

Quem quer fazer enxerto, é bom.

Quem quer fazer poda, é bom.

A brotação é mais rápida.

Sabe o tomatinho, se plantado agora produz mais, fica cheio de pencas e frutos docinhos.

Esta fonte eu recebi de minha mãe.

Desta feita a lua é nova

Ontem quando a noite cobriu o dia eu vi o C da lua nova.

E muitos salpicar de estrelas.

Ainda não sei ler nenhuma estrela, eu leio nuvens.

O Clóvis, meu companheiro de hemodiálise, aquele que tem esquizofrenia moderada, me disse que:

- A primeira estrela que surge e a última a se recolher é a estrela de Vênus.

Vênus é bem como nós que estamos para cuidar, bem como quem cozinha, lembra muito o ofício ou dom de cozinhar.

Então caso minha mãe fosse uma estrela ela seria a dona Maria mixirica de Vênus.

Ah! estas mulheres feitas de lua e água, como você.

Ontem transcendi, aprendi que a menopausa, pausa a menstruação mas o ciclo continua existindo e influenciando.

Teve um tal balzaqui que inutilizou o corpo das mulheres após os quarenta anos, um caucasiano besta é isto o que ele é.

Caramba!

Estou aqui escrevendo e é agosto, preciso germinar os quiabos, as vezes você me distrai.

Botei água pra germinar o quiabo e de quebra um pouco de girassol.

Antes falei muito com o quiabo íntegro ciente de que até aqui ele cumpriu seu papel de guardião dos infantes que dormiam dentro dele, que eu chamo rebentos.

De manhã quando eu parti o invólucro do ancestral.

E as sementes viram o pote com água, fizeram-se felizes e saltaram como fazem nossas crianças quando chega o ônibus de passeio ou os dias ensolarados e felizes de verão.

Saltaram ruidosos e felizes sem medo.

É bom não ter medo.

Fui escrever o texto e as páginas estavam muito coladas, quem fez este livro ramelou na cola.

Gosto mais de livros costurados.

Depois de germinar as sementes ou melhor entregá- las ao seu destino, a água, pra que se cumpra o ciclo do destino delas.

Novamente eu fui contemplar a lua em forma de ritual íntimo de agradecimento.

Ela ainda estava em forma de C, e em volta do C dela, tinha um círculo. Eduardo dizia que quando tem um círculo esbranquiçado em volta da lua é que amanhã vai chover.

Ele sempre viveu na roça, nunca foi a escola, eu fui a escola e nunca matematizei isto.

A escola me emburreceu pras coisas naturais mas eu sempre tive vida própria.

A escola nunca pôde comigo, eu sou mais que ela.

Se tenho medo?

Ora menino, acaso não sabes que também sou feita de medo?

Pensas tu que nunca por confiança furei dedo em algum inocente brinquedo.

Que nunca alguém que muito confiei, por amor, deixou de brincar com meu segredo.

Medo, quem nunca?

Pensas tu que a vida sempre me foi leve?

Tu nem imaginas quantas foram as vezes que já fui ao diabo que te carregue.

Sem talco, carinho, ou até breve.

Só mesmo a desconfiança me abraçava de leve.

Se por acaso eu enumerar os chifres que já tomei as chifradas que já dei você vai cair de costa.

Imagine as minhas feridas abertas ou mal curadas com o sal da maldade do patriarcado.

Mas foi eu que saí, eu que deixei a segurança da barra da saia de minha mãe, eu queria conhecer o mundo.

E o desconhecido quando quer explorar convida.

A gente ouve o convite, se rebela e vai, e dentro do combinado que o combinado não sai caro.

Tá tudo certo, quem chora primeiro chama pela mãe, e corre de volta pra casa.

Pode ser que volte tarde demais e encontre a porta cerrada a casa vendida a mãe morta, a família dilacerada.

Podes também simplesmente não encontrar nada.

Quantas vezes tive a fala trocada

Quantas vezes dormi na calçada

Quantas vezes chorei sozinha abandonada

E hoje nem posso dizer que estava de todo sozinha, estava equivocada, envenenada.

E foi porque a conta errei, era Deus me segurando a mão

Caso eu tivesse morrido naquela busca quem mais, além de minha família, falta de mim sentiria?

E se hoje ouso confessar que amo, é que hoje, e só hoje, descobri o sentido de zelar pela minha verdade.

Hoje o dito da filosofia caucasiana não governa mais o meu ib.

E compreendi que o amo, porque eu não sou a mulher de um homem ou a procura de um.

Eu sou a mulher de um povo com uma matrigestão completa, herdada no berço.

Que não quer mais ser atravessada por idéias ocidentais.

Eu, daqui onde estou, digo a você e espero que toda minha nação ouça e sinta em seu coração.

Levante-se raça poderosa, Garvey!

Enquanto isto não acontecer, nós, as mulheres, homens, trans, enfim, toda a diversidade deste povo, seguiremos amando, e desarmando as armadilhas que encarceram e matam nossos irmãos.

Um dia todo este império impiedoso vai ter que ouvir e escutar a nossa história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL