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Bianca Santana

Um quilombo na Câmara Municipal de São Paulo

Integrantes do mandato coletivo Quilombo Periférico - Reprodução/Instagram
Integrantes do mandato coletivo Quilombo Periférico Imagem: Reprodução/Instagram
Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

17/11/2020 04h00

Elaine Mineiro. Debora Dias. Samara Sosthenes. Julio Cesar. Alex Barcellos. Erick Ovelha. Ativistas dos movimentos negro e das periferias. Estudantes, professores e coordenadoras de cursinhos populares. Sueli Carneiro. Douglas Belchior. Beatriz Lourenço. Vanessa Nascimento. E ainda mais lideranças. Um mandato coletivo motivado por valores ancestrais e comunitários, a serviço de quem permanece na base da pirâmide social da maior cidade do Brasil, ocupará uma das cadeiras da Câmara Municipal de São Paulo a partir de 2021.

Um quilombo.

Tomo emprestadas algumas das palavras da militante do movimento negro e historiadora Beatriz Nascimento, publicadas no artigo "O conceito de quilombo e a resistência cultural africana", de 1985:

"Durante sua trajetória, o quilombo serve de símbolo que abrange conotações de resistência étnica e política. Como instituição guarda características singulares de seu modelo africano. Como prática política apregoa ideias de emancipação de cunho liberal que a qualquer momento de crise de nacionalidade brasileira corrige distorções impostas pelos modelos dominantes. O fascínio de heroicidade de um povo regularmente apresentado como dócil e subserviente reforça o caráter hodierno da comunidade negra que se volta para uma atitude crítica frente às desigualdades sociais a que está submetida".

Somos quilombo na UNEafro, na Coletiva Emana, na Agência Solano Trindade, no Bloco do Beco, no Jongo dos Guaianás, no Samba das Pretas. Em Sapopemba, Cidade Tiradentes, Lajeado, Campo Limpo, Jardim São Luiz, centro. Nos movimentos culturais de periferia, nos saraus, terreiros, atendimentos em saúde, escolas de samba, encontros de educação popular. E agora seremos quilombo na Câmara Municipal de São Paulo.

"Ser quilombo na Câmara significa que o movimento negro e o movimento de periferia vão estar dentro da política institucional, levando nossas pautas históricas, nossas vivências, nossas quebradas para fazer essa disputa que é extremamente importante e que sempre nos foi negada", me disse Débora Dias, co-vereadora do Quilombo Periférico aos 22 anos de idade, jovem negra, lésbica, estudante de ciências sociais na Universidade Federal de São Paulo, articuladora do Projeto Agentes Populares de Saúde, artista e pesquisadora da Coletiva Emana, coordenadora de núcleo da UNEAfro, onde foi estudante.

Se nas periferias de São Paulo faltam hospitais, creches, escolas, bibliotecas, teatros e cinemas, sobram viaturas e soldados armados para matar e encarcerar a população negra. Além de movimento social, que denúncia há décadas o genocídio negro, de dentro do poder legislativo o Quilombo Periférico trabalhará para desmantelar as políticas de morte e o racismo institucional na cidade. Assassinatos, encarceramento, violência contra a mulher, homo/lesbo/transfobia são, infelizmente, políticas conhecidas de perto, pelo Quilombo que se dedicará a interrompê-las. A educação popular praticada há décadas, será projeto de lei. A implementação efetiva do Estatuto da Criança e do adolescente será prioridade, bem como a ampliação das políticas culturais e descentralização dos recursos públicos da cultura. Fortalecimento do SUS e do Sistema Único de Assistência Social; das ações coletivas de enconomia solidária; de uma educação antirracista pela efetivação das leis. E este será só o começo.

"Aquilombar a Câmara hoje é levar toda a luta ancestral do povo preto, do povo periférico. Pela memória dos corpos assassinados pela polícia. Pela memória das famílais que perderam seus entes queridos por Covid-19. O movimento negro e o movimento de periferia estiveram a todo momento do lado certo da história. Ter um mandato que é do movimento é fazer história", me emocionou Débora Dias.

Em 2018, pouco antes das eleições, quando este mesmo Quilombo concorria a uma cadeira na Câmara Federal por meio da candidatura de Douglas Belchior, escrevi: "Assim como nosso mais famoso quilombo acolhia, na Serra da Barriga, indígenas, brancos pobres ou quem mais vivenciasse situações de exclusão, nosso quilombo no Congresso Nacional estará a serviço de todas e todos. Falta pouco para a eleição. #FaremosPalmaresDeNovo. E a hora é essa." Foi por muito pouco. Chegamos a celebrar a vitória antes de o coeficiente eleitoral, no meio da madrugada, determinar que a vaga pertencia a outro partido.

Neste 2020, #FaremosPalmaresdeNovo a partir da Câmara Municipal de São Paulo. Com a certeza de que nossos passos vêm de longe, que a caminhada é árdua, acontece em muitos lugares e formatos, mas que chegaremos.