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Exaustão

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Imagem: Getty Images
Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

16/10/2020 11h12

Minha filha mais nova gosta atividades manuais. Na proposta que recebeu hoje da escola, foi convidada a fazer uma máscara. Animada, inventou orelhas de raposa com potes de iogurte. Mas os primeiros cortes no plástico não resultaram exatamente no esperado, e então o tempo virou. Saiu bufando pela casa. Pouco depois, deu um ou dois gritos. Transbordou irritação com quem ofereceu ajuda. Exatamente como eu mesma tenho reagido a tudo nas últimas semanas. Depois teve uma crise de choro, como quando tinha dois anos de idade e as palavras ainda eram recursos pouco disponíveis para expressar o que sentia. Mas se adultas e adultos não estamos conseguindo elaborar a pandemia e o Brasil de 2020, como esperar que uma criança de oito anos de idade consiga?

Hesitei em escrever este texto. Porque estamos sob a segurança de um teto, com comida na mesa e saudáveis. Acessamos os direitos à moradia, saúde, educação, temos esgoto e água potável a qualquer hora do dia ou da noite. Saber das condições de vulnerabilidade — que só aumentam — da maior parte das pessoas, torna constrangedor dizer que está difícil por aqui também. Porque no Brasil da fome que voltamos a ser, do encarceramento, do aumento de assassinatos de homens negros pela polícia, do feminicídio, da violência doméstica, da LGBTfobia, de mais de 150 mil pessoas mortas por Covid-19, estamos bem. Mesmo que estar bem signifique sete meses de isolamento, com cinco pessoas pressionadas por obrigações escolares ou de trabalho, espremidas em um apartamento.

Não me orgulho em compartilhar que gritos, outrora impensáveis aqui em casa, agora são parte da rotina. A rispidez deu o tom das trocas entre nós. Ser demandada pelas crianças é cada vez menos a normalidade cotidiana e cada vez mais motivo de irritação. E como as crianças têm demandado! A autonomia para tarefas escolares, brincadeiras e banhos se foram com a escola presencial e os encontros frequentes com amigas e amigos.

No celular, mensagens de pessoas desconhecidas chegam a qualquer hora do dia ou da noite. Sempre com convites especialíssimos, questões urgentes e prioridades pelas quais seria sensato adiar qualquer trabalho já planejado. Trabalho este sempre atrasado. Apesar da pressa, a lentidão para executar cada tarefa, as confusões, as pequenas e grandes faltas de atenção são sintomas da exaustão que temos sentido. Para onde estamos correndo?

— É cansaço, mãe, disse minha filha assim que coloquei o ponto de interrogação no parágrafo anterior, como se tivesse lido minha mente ou a tela do computador enquanto pintava uma girafa sentada no chão.

— Por que cansaço?

— De fazer tanta lição. Ficar tanto tempo em casa. Por isso eu fico nervosa.

Aos oito anos ela conseguiu expressar em palavras. Talvez nem tudo esteja perdido por aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.