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Bianca Santana

Preservar saberes em tempos de cercamento

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

06/10/2020 11h13

Em 2018 fui convidada para participar de um debate no Medialab Prado, em Madri, sobre diferentes saberes e o comum. Quando cheguei, a primeira pergunta feita por uma das organizadoras do evento (que depois se tornou uma amiga querida) foi: "você trouxe o tarô?".

Ao lado dela estava o acadêmico renomado com quem eu dividiria o palco no dia seguinte. Fiquei desconcertada. Respondi que sim, porque quase sempre tenho um tarô na bolsa. E fiquei curiosa em saber o motivo da pergunta. "Está na Wikipedia que você é taróloga!"

Sim. Apesar de não fazer atendimentos com o tarô há anos, um depoimento para uma reportagem me rendeu o título. E é curioso ser confrontada com meu próprio desejo de separação quando sou surpreendida com uma pergunta sobre as cartas em contextos de não intimidade. Mesmo que na maior parte do tempo eu fale e escreva em resistência à normatividade heteropatriarcal e ao epistemicídio que desqualifica e hierarquiza conhecimentos tradicionais como inferiores. É preciso expurgar o colonizador permanentemente de dentro de mim.

Neste momento de crescentes violações à liberdade de expressão e de pensamento, lembro com frequência da minha versão preferida para a história do Tarô de Marselha. Sallie Nichols, no livro "Jung e o tarô: uma jornada arquetípica" apresenta a hipótese de que o tarô tenha sido desenvolvido como uma forma de condensar saberes ancestrais que estavam em desarmonia com as autoridades da igreja católica durante a Idade Média. E assim teriam sido pintadas imagens alegóricas que condensam em suas formas, figuras e cores o que se sabia sobre a humanidade e o cosmos. Conhecimento profundo travestido em cartas aparentemente superficiais.

Alejandro Jodorowsky e Mariana Costa, em "O caminho do tarô", propõem voltar ao sul da Europa, no ano 1000, quando sinagogas, mesquitas e igrejas estavam próximas fisicamente e promoviam trocas de saberes entre si. "É possível que um grupo formado por sábios das três crenças, prevendo uma decadência de suas religiões que, pela sede de poder, inevitavelmente levaria ao ódio entre as seitas e ao esquecimento da tradição sagrada, confabularam para depositar esse conhecimento no humilde jogo de cartas, o que equivalia a preservá-lo ou ocultá-lo, para que atravessasse as obscuridades da história até chegar a um futuro distante (…)".

E por mais que falem em sábios, e que obviamente muitos homens estabeleçam relações com as cartas, ouso afirmar que o tarô é das mulheres. E que são as mulheres as guardiãs desse conhecimento desde a Idade Média. Assim como são as mulheres as conhecedoras das ervas, dos cuidados e da manutenção da vida. Em toda a diáspora negra, mulheres escravizadas e suas descendentes foram as responsáveis por proteger suas comunidades e garantir a sobrevivência em sociedades racistas. E de preservação de segredos o candomblé é quem mais entende. Na Europa, foram as mulheres que resistiram às diversas formas de subordinação impostas pelos cercamentos de terra, famílias nucleares, aprisionamento de seus corpos, proibição de seus saberes. Milhares de parteiras, erveiras, mulheres livres no exercício de sua sexualidade foram condenadas como bruxas. Torturadas, presas, queimadas.

Mas mesmo com tamanha perseguição, apesar do fanatismo religioso essencial à estruturação do capitalismo, séculos depois há incontáveis versões gráficas das 78 cartas que compõem o Tarô de Marselha, com seus 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores. E nas classes populares é fácil encontrar mulheres que interpretem as cartas do jogo de baralho comum reconhecendo nelas significados parecidos com os das 56 cartas dos arcanos menores.

No Medialab Prado, falei sobre Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Cidinha da Silva e a perspectiva amefricana de Lélia Gonzalez. Mostrei vídeo com Nega Duda cantando para Oxalá, contei sobre Beth Beli e o Ilú Obá de Min. Mostrei um pouco do trabalho da Vanessa Nascimento na UNEafro, da Luana Vieira no Pagode da Disciplina, da minha comadre Maitê Freitas na coleção Sambas Escritos. Repeti a pergunta que continua sem resposta: quem mandou matar Marielle Franco?

E, quando acabou o seminário, com as salas do centro cultural fechadas e as luzes apagadas, um grupo de mulheres encontrou um cantinho para que abríssemos juntas o tarô. Em português, espanhol e inglês, a partir do arcano maior retirado por cada uma do maço de cartas, compartilhamos nossas dores e desejos e táticas. Saber comum preservado e compartilhado entre mulheres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.