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A qualidade da banda larga no Brasil (ou a falta dela)

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

19/05/2020 04h00

"Imagina você comprar até um quilo de cebola na feira ou no supermercado. Você paga um quilo, mas o vendedor te entrega quanto ele tiver disponível na hora, até o máximo de um quilo". Com esse exemplo, Sergio Amadeu da Silveira, pesquisador de políticas tecnológicas explicava, lá por 2007, a importância de se regulamentar a oferta de banda larga no Brasil. Mas ninguém parecia entender.

Bandalargar o Brasil era o nome da proposta do então Ministério da Cultura capitaneado por Gilberto Gil, formulada e executada por José Murilo Junior, Claudio Prado e a equipe da chamada Ação Cultura Digital, de que eu fazia parte. A proposta era investir em infraestrutura tecnológica pública para que todas as pessoas pudessem ter acesso à internet. O governo Lula lançou o Plano Nacional de Banda Larga, que Dilma transformou em apoio aos planos de negócio das operadoras e Temer soterrou. O mercado resolveria a conectividade.

Em 2020, além das cerca de 60 milhões de pessoas sem acesso à internet no Brasil, aquelas que contratam banda larga em casa ou pacote de dados no celular também devem estar se perguntando se o mercado realmente resolveu o problema de conectividade. Porque as empresas de telecom oferecem até tantos mega ou giga bytes, de acordo com o seu plano. Até. Porque quase nunca a banda contratada é a banda disponível. Em países europeus, o que se contrata é muito próximo do que se recebe. Mas no Brasil colônia, manipulando o argumento de probabilística, de que nem todo mundo vai acessar o serviço ao mesmo tempo, o mercado faz as contas a seu favor.

Acabo de defender minha tese de doutorado, em uma banca online. Durante as quatro horas de conexão, cai quatro vezes, duas delas enquanto eu apresentava o trabalho, outras duas ao ouvir com atenção a arguição de componentes da banca. Além da tensão da defesa em si eu só pensava que não. O mercado não resolveu a conectividade. Não temos internet suficiente para o trabalho e o estudo remoto.

Das muitas lições dessa pandemia, que tal aprendermos mais essa e voltarmos a exigir, formular e executar políticas públicas de conexão à internet? A oferta de internet é serviço essencial como a oferta de luz e de água. Sei que falta água nas periferias. Mas não pode faltar. Nem água, nem luz, nem internet.

Com o lembrete do #AdiaEnem, afinal, quem é que está conseguindo estudar sem aulas nas escolas? As periferias certamente não estão. Mas, depois da experiência difícil da banca, pergunto se a classe média pretensamente conectada está.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.