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Fred Di Giacomo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O Cânone Latino-Americano: 87 livros essenciais escritos em Abya Yala

O Cânone Latino-Americano: 55 livros essenciais escritos em Abya Yala - Montagem
O Cânone Latino-Americano: 55 livros essenciais escritos em Abya Yala
Imagem: Montagem
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

02/03/2021 04h00

Quantos livros de nossos vizinhos latino-americanos você leu no ano passado? Quais pretende ler esse ano? Mais importante: quais eram as narrativas que os povos originários contavam (e escreviam no caso dos maias), quando os primeiros europeus invadiram nosso continente? Quais são os "clássicos" da literatura mexicana, argentina, guatemalteca, chilena e cubana?

É lugar-comum falar do isolamento cultural do Brasil diante de seus vizinhos. Somos uma ilha lusófona em meio a um continente que fala (praticamente) só espanhol. No entanto, apesar de nosso tamanho continental e o talento de escritores consagrados, como Machado de Assis e Clarice Lispector, nunca ganhamos um Nobel de Literatura, ao contrário de Chile, Peru, México, Colômbia e Guatemala. Também costumamos estar mais antenados ao que se escreve nos Estados Unidos, Europa e, até, no Japão, do que nas obras publicadas pelos hermanos.

O Cânone (não) ocidental

Quando descobri o famoso (e polêmico) crítico literário estadunidense Harold Bloom (1930 - 2019), diverti-me devorando sua obra e suas listas, especialmente "O cânone ocidental" (Editora Ponto de leitura, 2010) em que ele analisa com calma 26 autores que considera essenciais em nossa cultura e ainda lista centenas que comporiam um "cânone ocidental" ampliado. No entanto nessa lista gigante, só um livro do poeta Drummond de Andrade representa o Brasil. São pouquíssimos, também, os exemplos de latino-americanos na lista de Bloom. Seria essa uma questão de falta de qualidade literária em nossa literatura ou de lugar de fala? Seria falta de um conhecimento mais profundo da literatura do hemisfério sul por Bloom ou colonialismo?

Na verdade, existe uma pergunta que vem antes. Nós que nascemos nesse continente que o povo Kuna chama Abya Yala somos mesmo ocidentais? A doutora em literatura e escritora indígena Julie Dorrico recomenda, inclusive, que não usemos o termo "latino-americano" para nos denominarmos. Latino-americano seria uma homenagem aos invasores que exterminaram e violaram povos originários, sequestraram e escravizaram povos africanos e impuseram à civilização mestiça que surgiu aqui um gigante complexo de vira-latas.

Pensei, então, que seria divertido brincar com o Cânone de Bloom, criando cânones de literaturas que partam de Abya Yala, da África, do Oriente Médio, etc. e insiram nesse cânone não só as literaturas "ocidentalizadas" criada pelos descendentes de europeu nessas regiões, mas suas literaturas pré-coloniais. Para a missão consultei listas de acadêmicos e publicações consagradas e pedi ajuda aos universitários: Julie Dorrico (doutora em literatura e escritora indígena), Rodrigo Casarin (crítico literário e colunista do UOL, na Página Cinco), Rodrigo Novaes de Almeida (editor da revista literária Gueto e escritor), Livia Deorsola (tradutora de diversos autores latino-americanos) e Tom Farias (crítico literário e pesquisador).

Obviamente, não é uma lista com pretensão de ser definitiva ou "científica". Mas é um bom começo para os interessados em mergulhar na literatura e nas narrativas criadas no continente, com uma visão que inclui obras de fora do cânone ocidental. Também é uma reflexão sobre nossa identidade cultural. Ela peca, obviamente, por ter um olhar muito "brasileiro".

Listo abaixo, primeiro, os 36 livros que reuni em minha pesquisa e depois as listas individuais de cada convidado. Faltou alguma obra essencial? Deixe seus palpites nos comentários!

36 livros essenciais da literatura latino-americana

(por ordem cronológica da primeira publicação/registro conhecidos)

  • Popol Vuh (Livro da Comunidade), (1554-1558), Guatemala, mito Maia/Quiché
  • Cantares Mexicanos, Século XVI, México, coleção de poemas e canções Nahuatl (Azteca)
  • Romances de los señores de la Nueva España (aprox 1582), Juan Bautista de Pomar (1535 - 1601) e Nezahualcóyotl (1402 -1472), México
  • Comentarios reales (1609) , Inca Garcilaso (1539 - 1616), Peru
  • Os Cantos de Maldoror (1869), Conde de Lautréamont (1846 - 1870) Uruguai/França
  • O Gaúcho Martín Fierro (1872), José Hernandez (1834 - 1886), Argentina
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis (1839 - 1908), Brasil
  • Azul (1888), Rubén Darío (1867 - 1916), Nicarágua
  • Vidas Secas (1938), Gracialiano Ramos (1892 -- 1953), Brasil
  • España, aparta de mi este cáliz (1940), Cesar Vallejo (1892 - 1938), Peru
  • A invenção de Morel (1940), Adolfo Bioy Casares (1914 - 1999), Argentina
  • Ficções (1944), Jorge Luis Borges (1899 -1986), Argentina
  • A Rosa do Povo (1945), Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), Brasil
  • O reino deste mundo (1949), Alejo Carpentier (1904 - 1980), Cuba
  • Labirinto da Solidão (1950), Octavio Paz ( 1914 - 1998), México
  • Pedro Páramo (1955), Juan Rulfo (1917 - 1986), México
  • Grande Sertão: Veredas (1956), João Guimarães Rosa (1908 - 1967), Brasil
  • O senhor presidente ( 1957), Miguel Ángel Asturias Rosales (1899 - 1974), Guatemala
  • Três tigres tristes (1959), Guillermo Cabrera Infante (1929 - 2005), Cuba
  • Cem Sonetos de Amor (1959), Pablo Neruda (1904 - 1973), Chile
  • Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), Carolina Maria de Jesus (1914 -- 1977), Brasil
  • O Jogo da Amarelinha (1963), Julio Cortázar (1914 - 1984), Argentina
  • A paixão segundo G.H. (1964), Clarice Lispector (1920 --1977)
  • Cem anos de Solidão (1967), Gabriel García Márquez (1927 - 2014), Colômbia
  • De dónde son los cantantes (1967), Severo Sarduy (1937 - 1993), Cuba
  • Hasta no verte Jesús mío (1969), Elena Poniatowska (1932 - ), México
  • Boquinhas Pintadas (1969), Manuel Puig (1928 ? 1961), Argentina
  • Eu, o supremo (1974), Augusto Roa Bastos (1917 - 2005), Paraguai
  • Lavoura Arcaica (1975), Raduan Nassar (1935 - ), Brasil
  • Desolación / Ternura / Tala / Lagar (1979), Gabriela Mistral ( 1889 -- 1957), Chile
  • A casa dos espíritos (1982), Isabel Allende (1942 - ), Chile
  • O livro dos abraços (1989), Eduardo Galeano (1940 -2015), Uruguai
  • A festa do bode (2000), Mario Vargas Llosa (1936 - ), Peru
  • 2666 (2004), Roberto Bolaño (1953-2003), Chile
  • Metade cara, metade máscara (2004), Eliane Potiguara (1950 - ), Brasil
  • A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (2015) (Davi Kopenawa e Bruce Albert), Brasil

As listas de nossos convidados:

Livia - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Livia Deorsola, editora de livros e tradutora do espanhol
Imagem: Acervo Pessoal

O Cânone Literário da América Latina por Livia Deorsola, editora de livros e tradutora do espanhol

  • Pedro Páramo (Juan Rulfo), México
  • Boquitas pintadas (Manuel Puig), Argentina)
  • O vento que arrasa, (Selva Almada), Argentina
  • Adán Buenos Ayres (Leopoldo Marechal), Argentina)
  • O sonho dos heróis (Adolfo Bioy Casares), Argentina
  • Cem anos de solidão (Gabriel García Márquez), Colômbia
  • O livro dos abraços (Eduardo Galeano), Uruguai
  • O labirinto da solidão (Octavio Paz), México
  • Hasta no verte Jesús mío (Elena Poniatowska), México
  • Zama (Antonio Di Benedetto), Argentina
  • Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa), Brasil
  • A hora da estrela (Clarice Lispector), Brasil
  • Lavoura arcaica (Raduan Nassar), Brasil
Julie - Acervo Pessoal/Julie Dorrico - Acervo Pessoal/Julie Dorrico
A escritora e pesquisadora indígena Julie Dorrico
Imagem: Acervo Pessoal/Julie Dorrico

10 livros canônicos escritos em Abya Yala por Julie Dorrico doutora em literatura e escritora indígena

1. Todas as vezes que dissemos adeus (Kaká Werá);
2. Makunaimã (Jaider Esbell, Cristino Wapichana, Deborah Goldemberg, etc);
3. As pegadas do Kurupyra (Yaguarê Yamã);
4. Karaíba: uma história do pré-Brasil (Daniel Munduruku);
5. Tybyra (Juão Nyn);
6. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (Davi Kopenawa e Bruce Albert);
7. Projetos e presepadas de um curumim na Amazônia (Edson Kayapó);
8. Coração na aldeia, pés no mundo (Auritha Tabajara);
9. Mondagará: a traição dos encantados (Roni Wasiry Guará);
10. Metade cara, metade máscara (Eliane Potiguara).

Casarin - Flávio Florido/UOL - Flávio Florido/UOL
O jornalista Rodrigo Casarin, autor do blog Página Cinco no UOL
Imagem: Flávio Florido/UOL

Um cânone latino-americano por Rodrigo Casarin, crítico literário e colunista da Página Cinco

(dispostos de forma aleatória)

  • O Senhor Presidente (Miguel Angel Astúrias)
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
  • A Paixão Segundo G. H. (Clarice Lispector)
  • O Jardim das Veredas que se Bifurcam (Borges) (posteriormente incluso no livro "Ficções")
  • Pedro Páramo (Juan Rulfo)
  • Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez)
  • Angústia (Graciliano Ramos)
  • Quarto de Despejo: diário de uma favelada (Carolina de Jesus)
  • A Festa do Bode (Mario Vargas Llosa)
  • Capitães da Areia (Jorge Amado)

15 livros essenciais publicados em Abya Yala, Tom Farias, professor, pesquisador e crítico literário

Tom - Marta Azevedo - Marta Azevedo
Tom Farias, 2018
Imagem: Marta Azevedo
  • Torto Arado (Itamar Vieira Júnior)
  • Nada digo de ti, que em ti não veja (Eliana Alves Cruz)
  • O avesso da pele (Jeferson Tenório)
  • Dois amores (Paulo Lins)
  • Por que amamos: O que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor (Renato Noguera)
  • Levante (Henrique Marques Samyn)
  • Memória da Pele (Elisa Pereira)
  • Morada (Catita)
  • Os dias antes de nenhum (Ricardo Terto)
  • Dandara: Um nome bonito (Jeferson Pedro)
  • Rua do escritor (Henrique Rodrigues)
  • Velhos demais para morrer (Vinícius Neves Mariano)
  • A pupila é preta (Cuti)
  • Oroboro Baobá (Emmanuel Mirdad)
  • Poemas de regresso (Geni Guimarães)
Daysi - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Daysi Bregantini, editora da revista Cult e filósofa
Imagem: Reprodução/Instagram

15 marcos da literatura latino-americana por Daysi Bregantini, diretora da revista Cult, editora e filósofa

  • Dom Casmurro (Machado de Assis).
  • Água Viva, (Clarice Lispector)
  • Lavoura Arcaica (Raduan Nassar)
  • Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa)
  • Os Sertões (Euclides da Cunha)
  • O arco e a lira (Octavio Paz)
  • Quarto de despejo: diário de uma favelada (Carolina Maria de Jesus)
  • A Fúria (Silvina Ocampo)
  • Hot Sul (Laura Restrepo)
  • O Jogo da Amarelinha (Julio Cortázar)
  • Historia do Pranto (Alan Pauls)
  • Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez)
  • O Livro dos Abraços (Eduardo Galeano)
  • Obra completa (Márcia Tiburi)
  • Até Breve (Juan Carlos Onetti)
Novaes - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Rodrigo Novaes, editor da revista literária Gueto e escritor
Imagem: Acervo Pessoal

15 livros essenciais da literatura latino-americana, Rodrigo Novaes de Almeida, editor da revista Gueto e escritor

1. Sagarana (João Guimarães Rosa)
2. O Terceiro Reich (Roberto Bolaño)
3. Budapeste (Chico Buarque)
4. A morte e a morte de Quincas Berro d'Água (Jorge Amado)
5. A dança dos desejos, opus 13 (Esdras do Nascimento)
6. Quarenta dias (Maria Valéria Rezende)
7. Cidade de Deus (Paulo Lins)
8. Pornopopéia (Reinaldo Moraes)
9. Passado amor e outras histórias (Horacio Quiroga)
10. Doze contos peregrinos (Gabriel García Márquez)
11. Todos os fogos o fogo (Julio Cortázar)
12. As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano)
13. Quarto de despejo: diário de uma favelada (Carolina Maria de Jesus)
14. Água viva (Clarice Lispector)
15. Quincas Borba (Machado de Assis)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL