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Arte fora dos centros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Minimalismo por uma questão de classe

Nathaly Dias, prega o minimalismo de baixa renda - Reprodução/Instagram
Nathaly Dias, prega o minimalismo de baixa renda Imagem: Reprodução/Instagram
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

23/02/2021 04h00

Minimalismo é uma escola artística surgida nos EUA após a Segunda Guerra Mundial. Minimalismo é viver com menos. Minimalismo é não gastar a existência ocupado em consumir. Minimalismo é coisa de rico.

Minimalismo é coisa de rico?!

O camarada Tony Marlon, uma das mentes mais criativas e generosas do Brasil, cria do Campo Limpo, periferia paulistana, lançou a provocação em uma das reuniões de pauta de Ecoa. Se inspirara no comentário de um jovem do Capão Redondo sobre isso.

O argumento (reproduzo de cabeça) era algo como "ricos passaram a vida fazendo odes ao consumo, até como uma forma de diferenciar-se dos pobres, e, agora que os pobres podem consumir, inventaram que o bacana é ser minimalista e investir em 'experiências'." Mas que diabos seriam essas "experiências"? Viagens, shows, cursos, retiros espirituais, passar um ano sem trabalhar e toda uma série de coisas muito mais caras e elitistas do que comprar um tênis da Nike ou uma moto. Resumindo: esse minimalismo de butique era apenas a roupa nova do consumismo e do classismo.

Ferréz - Rodrigo Casarin - Rodrigo Casarin
escritor Ferréz
Imagem: Rodrigo Casarin

A ideia me lembrou uma edição do programa vegano "Panelaço", em que o escritor Ferréz, também do Capão Redondo, conversava sobre alimentação saudável com o apresentador João Gordo. Ferréz comentou que há 6 anos se alguém falasse para ele não comer açúcar ou carne ele diria "eu lutei pra comprar açúcar, vai me dizer que eu não posso comer açúcar? Que eu não posso comer carne?". Porque o pobre passou anos sem poder comer carne e, com os anos de estabilidade econômica que ocorreram entre os anos 90 e 2000, isso se tornou uma conquista. E tem uma grande verdade aí.

MAS, e aqui está o motivo desta coluna, quando a gente resume o "minimalismo" a "uma coisa de rico" não está fazendo, mais uma vez, o jogo do sistema? (Talvez o Criolo tenha resumido esse pensamento de uma forma muito mais eficiente no clipe abaixo):

Consumismo tóxico

"A indústria da moda, do consumo, fica dizendo com jogadas de marketing que a gente precisa disso ou daquilo, mas, na verdade, nós não precisamos", quem falou isso não foi Karl Marx, nem os famosos progressistas a la Chico Buarque, sempre acusados de serem "esquerda caviar". Foi uma moradora de favela, mais especificamente o Morro Branco, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Nathaly Dias, 27, influencer digital, foi chamada pela imprensa de "Marie Kondo da Baixa Renda". Ela toca o Minimalismo de Baixa-Renda focado para o público pobre ou, como ela diz, " baixa-rendinhas".

Cria de favela, Nathaly disse ao UOL que "É preciso viver com o essencial. Se a gente que é pobre entendesse o quanto pode ser impactante e bom esse estilo de vida, viveria mais feliz".

Nathaly ecoa o que um monte de gente que está longe de pertencer à elite branca tem gritado nos últimos dois anos diante do aquecimento global, da destruição da Amazônia, do assassinato de sem-terras e quilombolas: não dá para gente seguir consumindo o planeta como se ele fosse infinito. O grande lance do capitalismo, como ensina o filme chileno "No", é que ele promete que "qualquer um pode chegar no topo. Qualquer um, mas não todos.". É impossível que todo negro no mundo consuma como consumia Michael Jackson, que todo favelado ostente como ostenta Anitta, que todo brasileiro consuma como consome um estadounidense. Não tem tanto mundo para tanta gente devorar.

Wanderson Flor - Marconi Cristino - Marconi Cristino
O filósofo Wanderson Flor do Nascimento
Imagem: Marconi Cristino

E "consumir" não é da natureza do homem, não é tradição do brasileiro, não é "direito de todos". O consumismo é uma invenção branca e europeia. Não é à toa, o xamã yanomami Davi Kopenawa chama os brancos de "povo mercadoria". Que o líder indígena Aílton Krenak diz que "Estamos a tal ponto dopados por essa realidade nefasta de consumo e entretenimento que nos desconectamos do organismo vivo da Terra.". Que a geógrafa e ativista Márcia Kambeba diz que está na hora dos brancos aprenderem com os indígenas. Ouvindo esses pensadores indígenas e observando a crise econômico, pandêmica e ambiental que assola o mundo, parece claro que ser minimalista é um requisito básico para que a humanidade siga existindo.

E não são só os ameríndios que trazem esse saber arraigado em sua ancestralidade. O filósofo Wanderson Flor ensina que a relação de comércio dos iorubás (grupos étnico-linguístico africano que habita países como Nigéria e Congo) é muito diferente da "Vida para Consumo" que o filósofo Zygmunt Bauman analisou em seu livro de mesmo nome. Na obra de Bauman, ele escreve que para se sentir parte da sociedade as pessoas não precisam mais apenas consumir, mas precisam tornar-se produtos de consumo.

Percebam, nenhuma dessas pessoas acima é um "playboy branco pedindo para você largar seu emprego e ir fazer yoga no Tibet".

Minimalismo por uma questão de classe

Quando eu morava em Penápolis, interiorzão de São Paulo, fiz meus primeiros anos de estudos em uma escola pública e depois ganhei uma bolsa de estudos em uma escola particular onde meus pais trabalhavam.

Lá, a maior parte da molecada tinha um par de tênis de marca: Nike, Reebook, New Balance, etc. Um, não, alguns. E eu tinha um parzinho de chuteiras de futebol de salão nacionais. E quando a galera me zoava, eu não me sentia humilhado, ou menor. Eu lembro que meus pais me treinaram num "minimalismo anticonsumista", me ensinando que os tênis da Nike eram feitos com trabalho escravo de crianças, que as pessoas consumiam tênis gigantes e hiper-coloridos (ah, os anos 90) com intenção de ostentar, que isso era uma armadilha do capitalismo, etc. Eu falo por experiência própria, não é fácil não consumir na sociedade de consumo. Na lógica do "consumo, logo existo." Não é fácil ser a pessoa que não participa da viagem de formatura do final do ano, ou que não tem um vídeo-game de última geração, quando se é adolescente, uma fase em que a opinião dos outros importa muito.

Mas transformar o "minimalismo" em uma escolha consciente, uma escolha de classe, uma forma de optar por não entrar no jogo em que vamos sempre perder, é uma forma de fortalecer a autoestima das crianças pobres do mundo - que são a maior parte das crianças do mundo, inclusive.

Muitos já escreveram que hoje em dia uma pessoa da classe C tem muito mais bens de consumo (e, logo, uma vida melhor) do que um nobre da Idade Média. Eles esquecem que o conceito de "nobre na Idade Média" é algo de um passado que só se aplica à Europa ocidental. O "nobre da idade média" não comia melhor que um tupi vivendo no litoral paulista no mesmo período, nem era mais livre do que um Warlpiri, na Austrália. Como canta Emicida, comparando seus ancestrais africanos com os europeus "Dizem que o diabo veio nos barcos dos europeus/Desde então o povo esqueceu/Que entre os meus todo mundo era deus".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL