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Fred Di Giacomo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O carnaval que conhecemos foi criado por um gênio negro e homossexual

O músico e anfitrião, Cartola, observa o sambista Ismael Silva (ao violão), ao fundo, no bar Zicartola, no Rio de Janeiro, em 1969 - Acervo da Biblioteca Nacional/Divulgação
O músico e anfitrião, Cartola, observa o sambista Ismael Silva (ao violão), ao fundo, no bar Zicartola, no Rio de Janeiro, em 1969
Imagem: Acervo da Biblioteca Nacional/Divulgação
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

16/02/2021 04h00

É carnaval, mas, você já sabe, as escolas de samba não desfilaram nas avenidas. Pela terceira vez na história do Brasil, os festejos oficiais de Carnaval foram adiados. A primeira se deu em 1892, "por questões" sanitárias, e a segunda em 1912, em luto pela morte do herói nacional Barão de Rio Branco. Ao contrário do que muita gente pensa, o Carnaval da Gripe Espanhola, em 1919, não foi adiado e foi considerado "o melhor de todos os tempos", ou como escreveu Ruy Castro "a grande desforra contra a peste que dizimara a cidade" [do Rio de Janeiro].

No entanto, esses carnavais adiados eram muito diferentes do que os que a gente conhece. Não havia, então, Escolas de Samba, muito menos as competições de melhor samba-enredo. Em 1892, na verdade, não havia nem o samba.

A primeira escola de samba

A primeira escola de samba foi criada por Ismael Silva (1905 - 1978), um jovem negro, pobre e homossexual (segundo os relatos de biógrafos e pesquisadores), nascido na praia de Jurujuba, em Niterói (RJ). Essa escola foi a "Deixa Falar".

Ismael Silva, autor de grandes clássicos do samba como "Se você jurar" e "Antonico", foi, também, quem cravou o termo "Escola de samba". A ideia brotou em sua cabeça, pois no bairro carioca onde ele morava, o Estácio, havia uma "Escola Normal" que formava professores. Segundo Ismael, a turma do Estácio eram os verdadeiros "professores do samba" e quando sambistas da Mangueira ou de Madureira gabavam-se de sua superioridade musical, Professor Ismael só ensinava "Deixa falar".

Os bambas do Estácio não trouxeram apenas o nome "Escola de samba" como novidade. Seus sambistas, que incluíam lendas como Bide, Marçal e Brancura, introduziram a cuíca no samba e criaram o surdo. Ismael também explica, no vídeo abaixo, como acelerou a cadência do ritmo mais popular do Brasil, para que os desfiles de carnaval ficassem mais "animados".

Desde que o samba é samba

O pioneirismo de Ismael Silva e da "Deixa falar" virou livro assinado pelo escritor Paulo Lins, autor do best-seller "Cidade de Deus". Assim como em seu primeiro livro (que virou filme dirigido por Fernando Meirelles e Katia Lund), Lins parte da realidade para criar sua ficção.

"Desde que o samba é samba" (Ed. Planeta, 2012) gerou polêmica por caracterizar Ismael, explicitamente, como homossexual. O sambista, que foi amigo dos escritores Mário de Andrade e Manuel Bandeira, não falava sobre o tema abertamente. No biografia "Mário Reis: o fino do samba", Luis Antonio Giron escreveu que "Ismael destacava-se dos outros, pois se vestia melhor, usava joias e era homossexual assumido".
Ismael Silva - Folhapress - Folhapress
O sambista Ismael Silva
Imagem: Folhapress