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Fred Di Giacomo

A arte de Altamira Borges: celebre uma mulher negra enquanto ela vive

A artista plástica Altamira Borges, em cena de "Naif - A arte do povo" - "Naif - A arte do povo"/Reprodução
A artista plástica Altamira Borges, em cena de "Naif - A arte do povo" Imagem: "Naif - A arte do povo"/Reprodução
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

05/01/2021 04h00

"As pessoas me perguntam porque eu pinto tanta noiva e casamento. É porque, quando eu me casei, casei numa cidadezinha muito humilde. E eu queria uma coisa mais bonita: casar na igreja, tirar minhas fotos, fazer um álbum para, quando eu tivesse meus filhos, poder mostrar para eles, né? Para os netos... Aí, não deu certo casar na igreja e foi só no cartório. E, no cartório, não tiraram minhas fotos. E eu estava vestida de noiva e tudo, mas fiquei com aquilo na cabeça. Guardei o vestido de noiva dez meses e meu marido falou 'um dia a gente vai na igreja e tira as fotos', mas aí, não tinha mais graça, né? E não tirou. E eu fiquei com aquilo na cabeça, Então, quando eu ia pintar eu só sabia fazer noiva e igreja."

A clareza com que Altamira Pereira Borges, 88, explica a fonte inconsciente de sua arte vibrante, calcada no trauma da juventude, daria inveja à Freud e exigiria anos de análise de pessoas comuns. Mas Altamira trilha o incomum. Nascida na minúscula Jacaraci, cidade do interior baiano, onde hoje habitam apenas 13.656 almas, Altamira resolveu o trauma da falta de fotos de casamento, celebrado em 1951, retalhando o vestido de noiva e pintando-o de verde. Uma artista contemporânea do sudeste chamaria isso de performance e seria aplaudida pelos cadernos culturais dos jornais.

Casamento Altamira - "Naif - A arte do povo"/Reprodução - "Naif - A arte do povo"/Reprodução
Detalhe do quadro da artista Altamira Borges, de 88 anos
Imagem: "Naif - A arte do povo"/Reprodução

"Toda vida eu gostei de pintar, desde criança, né? Eu pintava na escola, mas não tive muito tempo de estudar. Só estudei até terceiro ano e tive que sair. Aí, fui trabalhar e nunca mais estudei. (...) [Quando] comecei a pintar, não dava muito valor para as pinturas que eu fazia. Colocava [os quadrinhos] nas paredes, em um canto, no outro... Quando eu vim para Penápolis (SP), depois de muito tempo, meu marido faleceu e eu pintava muito à noite para me distrair, né?"

Bom, leitores e leitoras, nasci e me criei em Penápolis e não conhecia a trajetória de Altamira. A pintora, que os críticas chamam de naif, desenvolveu suas técnicas a partir de 1982 quando passou a frequentar o ateliê do Museu do Sol, primeiro museu de arte naif da América Latina, localizado na princesinha da noroeste, Penápolis. Sua história está contada no belo "Naif - A Arte do Povo", documentário produzido por Rafael Freitas e Thiago Tonello, da Under Filmes.

Com mais de 80 anos, a prolífica Altamira encontra-se acamada. Por isso não consegui entrevistá-la para esta coluna. Os depoimentos que você lê aqui foram pescados por Rafael e Thiago, para o documentário "Naif", e me fizeram pensar como, numa cidade de 60 mil habitantes, uma figura genial como dona Altamira pode passar anônima. É preciso que Altamira morra para que celebremos essa mulher negra, nordestina e periférica como fizemos com Carolina Maria de Jesus e Stela do Patrocínio?

Museu do Sol

Altamira  Borges - "Naif - A arte do povo"/Reprodução - "Naif - A arte do povo"/Reprodução
Altamira Borges nasceu na Bahia, mas passou a pintar profissionalmente em Penápolis (SP)
Imagem: "Naif - A arte do povo"/Reprodução



Início dos anos 80, imperava ainda a ditadura militar no Brasil. Na Penápolis, longe e quente, Altamira, migrante baiana, registrava o mundo em sua banca de feira, no Mercadão Municipal da cidade, enquanto nenhum cliente surgia para comprar hortaliças. Quando calhava de restar tempo, pintava as pessoas que por ali passavam.

_ Dona Altamira, você não vai pro Museu? Tinha um rapaz que pintava e trabalhava aqui no Mercadão e, depois que ele foi no Museu, acabou até indo nos Estados Unidos para pintar.
_ Ah, mas as coisas que eu faço não é coisa de valor
_ Claro que é, Dona Altamira.

Altamira sempre reforça em suas falas que não dava valor para o que fazia; que não teve estudo, que não tinha técnica. O quanto um artista plástico popular tem que lutar contra sua própria autoestima para batizar-se artista? O quanto uma pessoa que já é um talento, tem estilo e voz própria precisa ser "certificada" pelo mainstream branco para sentir-se o que sempre foi: artista.

"Aí, um dia me deu a ideia de ir pro Museu do Sol. Levei uns trabalhos que eu tinha e mostrei para a diretora. Ela me perguntou:

_ Nossa, Altamira, é você que faz isso, você que inventa?
_ É...
_ Está muito bom, muito bom, a senhora tem criatividade. Vem pintar aqui no Museu do Sol.

Localizado no meio do sertão paulista o Museu do Sol reúne obras de artistas como o rei da xilogravura J.Borges e o sambista e artistas plástico Heitor dos Prazeres. A instituição oferece, também, aulas de pintura e de música e um ateliê para artistas "naif" ou "primitivos"; artistas populares. "Arte naif é a pessoa que não teve faculdade, não teve estudo, não teve nada e inventa as coisas da própria natureza, né?", ensina Altamira. "Conforme eu via as coisas eu fui criando. Eu uso muito acrílico sobre tela, eu mesmo que aprendi a misturar as cores, as que eu quero. Nunca ninguém me deu aula, tudo eu mesma invento e eu mesma faço".

Igrejinha de Altamira - "Naif - A arte do povo"/Reprodução - "Naif - A arte do povo"/Reprodução
Altamira Borges tem obsessão por desenhar igrejas, casamentos e novas
Imagem: "Naif - A arte do povo"/Reprodução



Naif

Quando Altamira iniciou seus trabalhos no ateliê do Museu do Sol, a artista brasileira ainda pintava, principalmente, com guache e aquarela. No Museu, Altamira passou a usar tinta óleo e a fazer colagens tridimensionais.

Integrada à cena local, que incluía outros artistas como Osvaldo Galindo e Celso Egreja, Altamira estreou, em 1985, em sua primeira exposição: o 6º Salão de Artes Plásticas da Noroeste. Na época da redemocratização, desenrolava-se uma efervescente cena artística no oeste paulista. O trabalho de Altamira passou a chamar atenção em outros eventos como o Salão de Belas Artes de Matão (SP), o Palácio da Cultura de Presidente Prudente (SP), Bienal Naifs do Brasil, em Piracicaba (SP), o Prêmio Banco Real de Talentos da Maturidade (SP) e uma exposição no Espaço Cultural Banco Central, em São Paulo (SP).

Atelier - "Naif - A arte do povo"/Reprodução - "Naif - A arte do povo"/Reprodução
Atelier da artista Altamira Borges, em Penápolis (SP)
Imagem: "Naif - A arte do povo"/Reprodução

Com o sucesso regional, Altamira pode deixar sua banca no Mercadão Municipa e dedicar-se a pintar e vender seus quadros: "Já veio gente de fora: do Chile, da França, dos Estados Unidos, Dinamarca... esses lugares todos. E eu comecei a vender tela."

Para o jornal local Diário de Penápolis, Altamira explicou a importância dessa venda: "Tenho um filho com problemas que depende muito de mim. Considero-me uma pessoa vitoriosa, pois consigo fazer aquilo que gosto, cuidar da minha casa e do meu filho, o que me deixa muito feliz".

Altamira está viva. Celebremos sua obra.