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Arte fora dos centros

Quando se nasce pobre a maior rebeldia é ser estudioso

Estudantes de escolas públicas da região oeste de São Paulo protestam por educação de qualidade no cruzamento entre as avenidas Rebouças e Faria Lima - Marlene Bergamo/Folhapress
Estudantes de escolas públicas da região oeste de São Paulo protestam por educação de qualidade no cruzamento entre as avenidas Rebouças e Faria Lima Imagem: Marlene Bergamo/Folhapress
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

26/11/2020 04h00

Os livros eram os únicos tesouros que meus pais tinham. Os livros e seu amor pela educação como forma de diminuir a desigualdade social no Brasil.

Nasci em 1984, rodeado pelos livros de meus pais, em uma pequena cidade chamada Penápolis, no interior do estado de São Paulo, esquina com o Mato Grosso do Sul. A ditadura brasileira estava em seus últimos dias, e meus pais acreditavam que seu trabalho em escolas públicas de periferia seria parte de uma revolução pacífica e democrática, que ajudaria a criar um país melhor. Fui criado num bairro simples, perto do trabalho de meus pais, ouvindo suas histórias sobre os tempos em que ensinavam em escolas de madeira, nas quebradas do Jardim Ângela e de Parelheiros. Desde os cinco anos de idade, eu ficava ansioso para decifrar os livros antigos que enchiam minha casa. Eles me pareciam uma maneira de viajar pelo mundo e fugir da minha pequena e conservadora cidade natal.

Não fui o único a perceber o calibre pesado de um bom livro. Já entrevistei muitos artistas periféricos e do interior que me contaram como uma boa leitura revolucionou suas vidas. KL Jay (lendário DJ dos Racionais Mc's), por exemplo, me contou uma vez que "a autobiografia do Malcom-X foi uma onda forte que teve, né? Acho que a descobri através de um espaço que a gente colava, chamava Geledés - Instituto da mulher negra, há mais de 20 anos. Tinha muita gente falando do livro no movimento (hip-hop), nas letras de rap. Muitas bandas citando nas músicas." O mesmo livro salvou o rapper Dexter, quando ele se encontrava preso: "Foi como acender uma luz num quarto escuro. Nesse caso, o quarto da ignorância. O mundo dos livros é maravilhoso! Não tenho dúvidas [de que os livros podem mudar a vida dos jovens]. Sou a prova viva.", me contou há alguns anos o autor de clássicos como "Oitavo Anjo".

Lá no interior da minha meninice, eu era uma criança curiosa. Costumava passar horas no quintal dos meus pais olhando para pequenos insetos e tentando entender suas vidas. Subia nas árvores para colher mangas e usá-las como munição para atirar em meus primos. O tempo era largo e abundante. De muito pequeno, ficava pensando se Deus existia e, se não existisse, como a vida faria sentido sem ele/ela.

Às vezes outros vizinhos vinham à minha porta, na hora do almoço, pedir mangas. Eles não as usavam como bombas em guerrinhas pelos quintais de terra, mas as comiam. Essa foi a primeira vez que senti que a desigualdade social era um grande problema no Brasil. Meus vizinhos tinham fome.

Pra quem vive na guerra, a paz nunca existiu/No clima quente, a minha gente soa frio,
Tinha um pretinho, seu caderno era um fuzil (...)"

—Edi Rock, Nego Drama.

Sempre fui ruim de bola e bom de nota. Meus pais eram rigorosos na cobrança dos estudos - tanto na escola pública onde comecei, quanto na particular onde fui bolsista. E eu tinha esse imenso privilégio de ter pais professores, e com livros, em casa.

No entanto, adolescência ser bom aluno não era uma vantagem tão óbvia. Estudar era coisa de nerd, cdf? de otário. Ninguém tirava onda por ser bom aluno. Havia algo que nos fazia querer provar nossa malandragem e agressividade, mas eu não culparia aqui os hormônios, o clima quente ou a ausência dos pais trabalhadores. Eu diria que isso é parte da lógica do sistema em que estamos inseridos, principalmente considerando que a maioria da molecada do bairros de periferia e das escolas públicas eram negras; a educação era uma arma perigosa demais para que eles a tivessem em suas mãos. O conhecimento era revolucionário: muito mais temível do que um trezoitão que qualquer um arrumava barato e com número raspado, muito mais rebelde que pixar um muro e muito, mas muito mais, transgressor do que cheirar cola ou benzina. Conhecimento era poder.

E quanto mais o governo se esforçava para cumprir as metas internacionais de enfiar o máximo possível de crianças em escolas públicas, mais a qualidade das escolas públicas caíam. Quando, escola pública virou "coisa de pobre", sua qualidade despencou. Para tristeza dos meus pais, que também estudaram em escolas públicas como a maioria das pessoas de sua geração, essas escolas passaram a ser projetos de reformatórios padronizados onde se aprendia a ler, escrever e fazer contas básicas. Especificamente a escola onde eles davam aula chamava-se Escola Estadual Adelino Peters.

"A escola pública Adelino Peters foi muito importante pra mim na minha formação, tanto política, social e educacional. A política porque ela já tinha um histórico de luta muito forte com o grêmio Edson Luis. Era [uma escola] muito ativa ali na comunidade da Vila Aparecida, do Jardim Planalto, do Jardim Pevi. Ali eu pude compreender a visão do estudante como parte da engrenagem social, como uma pessoa que pode mudar as coisas", me contou Gilvan Eleutério.

Gilvan, que escreve e participou da antologia "Geração 2010" (Ed. Reformatório, a ser lançada em 2021) foi operador de paleteira, segurança de boate, professor de muay thai, militante estudantil, baterista e rapper. Foi também meu vizinho e aluno do meu pai no Adelino Peters.

"Eu estava tirando notas muito baixas, notas vermelhas, não me encaixava na minha antiga escola. Aí minha mãe pediu minha transferência pro Adelino Peters. Lá comecei a tirar notas melhores, comecei a me interessar mais pelas matérias, porque a visão de mundo dos professores do Adelino era bem diferente. Eles eram muito humanos, tinha paciência, muitos davam aulas em escolas e cursinhos particulares. E eu me sentia parte daquele cenário."

Em tempos pré-internet, no interior do país, havia poucos pontos de difusão de cultura, educação e novas visões de mundo e a escola pública cumpria (e ainda cumpre) essa função. Um exemplo: semana passada, eu conversei com o rapper niLL, de Jundiaí, responsável pelo belo álbum "Regina" e que lançou recentemente a faixa "Primeira Noite" com o projeto Jardim do Flow. Quando falávamos sobre os primeiros contatos dele, jovem negro de periferia, com a arte, niLL deu todos os créditos para a escola pública onde estudou:

"Meu primeiro contato com a arte foi através do desenho, pintura, essas coisas na escola, né? E escola que foi me fio condutor com a cultura, com a arte em si. Eu ia pra escola me interessava mais pelas aulas de Artes, Português, Filosofia, História."

rapper nill - Acervo pessoal - Acervo pessoal
O rapper niLL que se iniciou na arte na escola
Imagem: Acervo pessoal

Leia, se forme, se atualize, decore.
Antes que os racistas otários fardados de cérebro atrofiado.
Os seu miolos estourem e estará tudo acabado."

— Mano Brown, Negro Limitado

"Imagina os moleques de escola pública, tudo fodido, sem base, que já vem mal formado. E, aí, com toda aquela paciência você chegar no segundo e no terceiro colegial, com dificuldade de entender a matéria, e através da didática o professor te fazer começar a entender aquilo. A importância [dos professores do Adelino Peters] para minha formação foi primordial para poder compreender como a sociedade funciona e desmistificar muita coisa que a História não conta ou que escondem de nós; ter uma interpretação crítica da história.", me contou Gilvan, quando lhe perguntei qual tinha sido a importância do meu velho pai na sua vida.

Professores não ganham bem, não são valorizados pela sociedade e têm sido colocados numa função de "disciplinar" jovens marginalizados e revoltados com suas condições de vida. Pais e sociedade terceirizam a educação (não a formação intelectual, mas as "boas maneiras") dos filhos que não entendem que aqueles educadores são um portal para uma vida e uma sociedade diferente.

Todos filmes que idealizam oficiais militares ou mestres de artes marciais (de Capitão Nascimento a Pai Mei) não estão sendo honestos com você, meu amigo. O armamento mais pesado que você pode carregar consigo - algo que nenhuma prisão, nem credor vai te tirar - é sua educação. Em qualquer lugar do Brasil ou do mundo onde vocês esteja quando se nasce pobre a maior rebeldia é ser estudioso

"Os livros eram os únicos tesouros que meus pais tinham. Os livros e seu amor pela educação como forma de diminuir a desigualdade social no Brasil. ". Mal sabia eu como esses tesouros seriam preciosos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.