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Arte fora dos centros

Caipiras Punks: a história secreta da cena alternativa do interior paulista

G.A.L.O.: integrantes das bandas Menstruation, Restos e Denúncia - Arquivo Pessoal
G.A.L.O.: integrantes das bandas Menstruation, Restos e Denúncia Imagem: Arquivo Pessoal
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

08/10/2020 04h00

Sabrina Sato, a penapolense mais famosa do Brasil, deu uma entrevista para o Jô Soares, pouco depois de participar do Big Brother Brasil, em 2004, dizendo que nunca tinha andado de elevador ou de escada rolante antes de sair de Penápolis, cidade localizada no noroeste paulista. A menos de 20 km da Penápolis natal de Sabrina, nascera, algumas décadas antes, em 1955, nosso presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, na pequena Glicério. A atriz Pepita Rodriguez é penapolitana de criação. Viveu infância, adolescência e juventude na cidade onde seu filho Dado Dolabella passou muitas férias e feriados. Dolabella, vocês sabem, viveu seus 15 minutos de fama por ter brigado com João Gordo, vocalista da lenda punk Ratos de Porão.

Sabrina, Bolsonaro e Pepita são alguns dos ícones do noroeste paulista, região onde os termômetros têm batido acima dos quarenta graus neste outubro seco. A terra originária dos povos kaingangs é marcada por monoculturas - da cana-de-açúcar, da laranja, do sertanejo e do pensamento conservador - pela criação de gado e por grandes feiras agropecuárias. Nada que indicasse que nessas cidades, mais próximas ao Mato Grosso do Sul do que da capital paulista, se desenvolveria uma das cenas roqueiras mais agressivas, undergrounds e desconhecidas do Brasil.

Assista a depoimentos e cenas raras das bandas descritas nesta reportagem em um teaser exclusivo do documentário ?Caipiras Punks?:

Bárbaros do Metal

Em Penápolis, um vulgo surgido no final dos anos 80 virou lenda local como sinônimo de gangues, satanismo, visitas ao cemitério e som pesado. Tornou-se, até, nome usado para assustar crianças das vilas periférica. Estamos falando do Deva, fundador da gangue Bárbaros do Metal.

Deva (no alto com a camiseta pintada por um tio marceneiro) e a galera do DeathBangers - Edson Osso/Acervo Pessoal - Edson Osso/Acervo Pessoal
Deva (no alto com a camiseta pintada por um tio marceneiro) e a galera do DeathBangers
Imagem: Edson Osso/Acervo Pessoal

Deva havia sido criado na Vila Industrial, periferia da zona leste de São Paulo. Um jovem negro, conhecido em São Paulo como Porção, era fã do metal extremo da banda mineira Sarcófago. Andava no estilo black metal e encontrava os amigos da DeathBangers na tradicional Galeria do Rock ou no bar de metal underground Fofinho.

Quando se mudou para Penápolis, distante quase 500 quilômetros da capital, encontrou um deserto roqueiro de 50 mil almas entediadas. Deva, então, montou a gangue Bárbaros do Metal, com seu amigo Lambari, que costumava intimar quem estivesse com camisetas pretas ou de banda na rua "boêmia" de Penápolis, a Avenida. Foi a fase "The Warriors" da cidade, quando gangues como as Vamps, formadas só por mulheres headbangers, tinham fama de arrancar o bico dos seios de suas inimigas.

Em 1993, em um festival na minúscula e vizinha cidade de Barbosa, Deva conheceu outros irmãos fãs de black metal: Téo e Valter Alves, de Araçatuba.

Téo Alves em sua fase black metal. Depois ele seria baterista da Menstruation - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Téo Alves em sua fase black metal. Depois ele seria baterista da Menstruation
Imagem: Arquivo Pessoal

A banda que sempre muda de nome

Em Araçatuba, "a terra do boi gordo", Valter, também conhecido como Beto, e seu irmão Téo começaram a ouvir rock nacional nos anos 80. Do rock nacional foram para o Kiss e do Kiss para o black e death metal que tanto agradava Deva e Lambari.

Só que Valter tinha o sonho de montar uma banda. E tocar como o Sarcófago era impossível para quem mal equilibrava três acordes no contrabaixo. Quando um amigo punk lhe apresentou os pioneiros do grindcore Brigadas do Ódio, sua vida mudou. Aquilo era algo rápido, agressivo e com vocal rasgado, como o black metal, mas possível de se tocar. Em 1992, Beto se aproximou do anarcopunk e montou sua primeira banda, a Menstruation que teria a peculiaridade de sempre mudar de nome - já tendo sido Stupid Patriotismo, La Floresta, DaDa entre outras

Valter estava nessa transição quando foi tocar no festival de Barbosa. Lá estavam Deva e Lambari (que fizeram uma participação no show da Menstruation) e três proletários da cidade industrial de Birigui que haviam montado uma banda para tocar Garotos Podres e sons próprios. Eram eles Caubói (Caubi), Black (Luciano) e Boca, a banda Restos.

Aquele encontro seria seminal para a primeira geração do punk do noroeste paulista. A partir dali as bandas Menstruation e Restos mergulhariam na ideologia anarquista, criariam o coletivo libertário G.A.L.O. (Grupo de Ações Libertárias Organizadas) e passariam a organizar protestos, festivais e trocas de cartas.

Punks de Penápolis, Mirassol e Birigui reunidos no começo dos anos 90, incluindo Miro (Desnutrição e Academic Worms) e o zineiro Bylla - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Punks de Penápolis, Mirassol e Birigui reunidos no começo dos anos 90, incluindo Miro (Desnutrição e Academic Worms) e o zineiro Bylla
Imagem: Arquivo Pessoal

Bylla e Deva, em Penápolis, também organizaram alguns festivais no bairro periférico do Mutirão, onde os amigos do Restos e da Menstruation se apresentaram. Era como se cada cidade da região fosse um bairro da capital paulista, com suas bandas, gangues e estilo de se vestir.

Nessa época, em 1991, surgiu em Penápolis a primeira banda punk da cidade, o Sexo Oposto, criada por Delei, que chegou a frequentar cemitérios com Deva e Lambari.

Resistência Anarquista

A banda Restos do hino Resistência Anarquista - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A banda Restos do hino Resistência Anarquista
Imagem: Arquivo Pessoal

Provavelmente a banda punk mais conhecida da região de Araçatuba, 198.129 habitantes, foi a Restos. Seu grande hino era Resistência Anarquista, cuja letra o guitarrista e vocalista Caubói escreveu inspirado em uma greve de sapateiros locais derrotada sem ter suas reivindicações atendidas. Birigui, segunda maior cidade da comarca de Araçatuba, onde vivem 123 mil pessoas, é uma cidade industrial, conhecida por ser a capital nacional dos calçados. Em 1995, juntaram-se ao G.A.L.O. as bandas Repúdio e Denúncia. Nessa época, as bandas do G.A.L.O chegaram a se apresentar na capital paulista, no Centro de Cultura Social - Vila Dalva, pico anarcopunk lendário da cidade cinza.

O Stupid Patriotismo (ex-Menstruation) gravou um split (No Homophobic) com a banda belga de grindcore Agathocles e participou (assim como Restos, Repúdio e a fundamental Desnutrição, de Mirassol) de uma antologia japonesa chamada No Future IV. Foi uma época em que a cena local era muito ligada ao movimento anarcopunk que aflorava pelo Brasil com bandas como Abuso Sonoro e Execradores. No mesmo período nas vizinhas Mirassol e Rio Preto, integrantes de bandas como a já citada Desnutrição e Academic Worms fizeram parte do MAISP (Movimento Anarquista do Interior De São Paulo) e também foram influenciadas por bandas anarcopunks como o Discarga Violenta, de Natal.

Tumulto

A Tumulto veio ao mundo em 2000 - Arquivo Pessoal  - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Entre 1997 e 2000 as coisas esfriaram no underground caipira. Em Birigui, Repúdio, Denúncia e Restos foram acabando uma por uma - assim como o G.A.L.O. A Desnutrição deu um tempo nas atividades. Ao mesmo tempo, uma geração de bandas punk pop ocupavam a Mtv e as rádios rock. A explosão do Nirvana, em 1991, foi seguida pelo surgimento de bandas mainstream como Green Day e Raimundos. Nesta época, a cidade de Rio Preto se tornou a Califórnia do interior paulista, e bandas como XiosPork's, Nevrose, Swear, Diskusteen e Caso Geral passaram a fundir peso e melodia, crítica social e bom-humor.

Quem estava mais ligado à ideologia do que ao som, acabou se aproximando do hip hop, influência forte, junto ao mangue beat, no caldeirão que foi uma das bandas mais inventivas desta cena. A Tumulto (fundado, em Birigui, por João, Hendrigo e Luciano Black que tocavam nas bandas Restos e Denúncia) fazia uma mistura de hardcore e psicodelia com forte percussão. Era como a Nação Zumbi tocando clássicos do punk nacional.

A Tumulto veio ao mundo em 2000. Um ano depois Téo, Valter Alves e um grupo de amigos fundaram o Espaço Cultural Quilombola, em Araçatuba, uma mistura de centro cultural, biblioteca anarquista e squat que organizava festivais de música, exposições de fanzine e oferecia aulas de capoeira de Angola.

Militantes

Joyce e Cynthia do Grito Feminino tocando em Auriflama - Arquivo Pessoal  - Arquivo Pessoal
Joyce e Cynthia do Grito Feminino tocando em Auriflama
Imagem: Arquivo Pessoal

Em 1999, Penápolis tinha em excesso o principal combustível para a formação de uma cena roqueira: o tédio juvenil. Se você não gostasse de sertanejo, basicamente você não tinha o que fazer na cidade.

Neste ano, alguns adolescentes que frequentavam o Grupo de Jovens da Igreja da Vila América, bastante politizados e envolvidos com os grêmios das escolas públicas onde estudavam, resolveram montar uma banda de rock. A falta de técnica, os instrumentos precários e o ativismo de esquerda os aproximou do punk. A banda que surgiu como Kirsch virou, então, Militantes. Passaram a militar na União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Penápolis (UMESP) e, graças ao movimento estudantil, conheceram os anarcopunks do Espaço Quilombola.

No mesmo ano, eu e meu irmão criamos o Andarilhos, que posteriormente contou com o guitarrista Marcão e virou Praga de Mãe. Por meio do Marcão conhecemos o Gilvan, da Militantes, e também passamos a militar na UMESP. Chegamos a apresentar um programa semanal de rádio na Bandeirantes FM. Meu irmão, Gabriel, acabou ficando amigo do André Gubolin, baterista clássico do rock local, que estava montando a ramônica Cretin Family. Começamos, então, a organizar dezenas de festivais.

Em 2001, a pequena e conservadora Penápolis, na época governada pelo prefeito Firmino Ribeiro Sampaio (DEM), foi invadida por um ônibus rural com uma bandeira do MST pendurada na janela. O busão vinha recheado de anarcopunks de cortes moicanos, coturnos, calças rasgadas e jaquetas com rebite. Gritavam contra a homofobia e o machismo, vendiam zines de poesia e (pânico em Penápolis) comeram um cachorro-quente que encontraram jogado no chão sujo da cidade.

O visual daqueles forasteiros chocou a playboyzada penapolense que frequentava a Avenida. Estavam entre os forasteiros os irmãos Téo e Valter Alves. A dupla voltaria para o maior festival organizado em Penápolis, até então, o Destruindo a Rotina que contou com as bandas de Rio Preto Caso Geral e Xiospork's e, de Penápolis, os Militantes (que apresentaram suas composições Camisa de Força e Guerrilheiro), Cretin Family, Praga de Mãe (que estreava com o novo nome e o hit local Dança, crítica às músicas comerciais que tocavam nas rádios); entre outras.

Um ano depois, bastante inspiradas pelo Praga de Mãe e pelas rrriot girls, surgiria a primeira banda de (punk) rock toda composta por mulheres de Penápolis, a Grito Feminino. Com a Grito Feminino completaria-se a época clássica do punk rock local.

Protestos GALO - Arquivo Pessoal  - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Ascensão e Queda

Longe demais das capitais e dos holofotes, sem clipe na Mtv ou músicas nas rádios, sonhando à distância com lugares "míticos" como o Hangar 110 e a Galeria do Rock; os caipiras e as caipiras punks do noroeste paulista viram o auge da sua cena entre os anos de 2001 e 2003. Nessa época, bandas clássicas como Desnutrição e Stupid Patriotism estavam ativas de novo, o Espaço Quilombola organizava festivais e foi criado, em Penápolis, um festival grande (Plis Rock) que dura até hoje.

Gilvan e a UMESP conseguiram até um programa de rádio na Bandeirantes FM. Eram tempos em que a internet engatinhava, a Mtv não chegava em muitas cidades do interior, trocava-se fitas K7 pelo correio e redigiam-se fanzines na máquina de escrever ou à mão.

Bandas da primeira e da segunda geração tocaram juntas em festivais espalhados pelo velho oeste paulista, pelo Paraná e pelo Mato Grosso do Sul. Mas a partir de 2003, muitos grupos acabaram. Deva, o mítico líder da gangue Bárbaros do Metal, foi assassinado.

Formado por jovens periféricos, do Brasil profundo, sem acesso a instrumentos de qualidade, informação e gravações a politizada cena do noroeste paulista merece ter seus gritos ouvidos e registrado. Quem encarou o sol de mais de 40 graus com suas camisetas pretas e coturnos, protestando contra rodeios, a homofobia e a sociedade conservadora que pariu Bolsonaro foi, à sua maneira, um herói da resistência.

Batiam expediente como operários, office boys, serralheiros, cortadores de cana, auxiliares administrativos. Grande parte deles eram negros; outra parte importante eram mulheres abrindo espaço no ambiente machista do rock (como as integrantes das bandas Diskusteen, Swear e Grito Feminino). Todes encontraram um respiro em meio à monocultura conservadora, machista e religiosa do nosso velho oeste. Um exemplo para o Brasil bolsonarista de 2020.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.