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A guerra cultural da extrema-direita é só vontade de manter nosso apartheid

O youtuber Olavo de Carvalho e a filósofa Djamila Ribeiro - Reprodução/Youtube e Lucas Lima/UOL
O youtuber Olavo de Carvalho e a filósofa Djamila Ribeiro
Imagem: Reprodução/Youtube e Lucas Lima/UOL
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

25/06/2020 04h00

Ninguém enforcou o presidente nas tripas de um pastor da Igreja Universal. Mas, por parafrasear de forma satírica o clássico dito do religioso francês Jean Meslier em seu Twitter pessoal, o escritor J.P. Cuenca perdeu seu emprego como colunista na Deutsche Welle (DW).

A DW disse, em comunicado oficial, repudiar "qualquer tipo de discurso de ódio e incitação à violência", mas não pareceu levar em conta que Cuenca estava sob ataques do fascismo verde-amarelo: "Os gabinetes do ódio e seus robôs detectam muito rapidamente seus alvos e partem para o ataque. É um mecanismo de coação e censura muito eficaz. O esforço aqui é o de inviabilizar a voz dissidente por demissão, ameaça, perseguição jurídica e destruição de reputação.", diz Cuenca

A coisa complica porque muitas das denúncias contra Cuenca partiram da milícia virtual olavista-bolsonarista que infecta as redes sociais com ameaças de morte, incitação ao ódio e uma espumosa dedicação à "guerra cultural" promovida pela seita extremista de seu líder. "O ruído dessas hordas fascistas comemorando a decisão da DW naturaliza um estado de autocensura no campo dos artistas e intelectuais de oposição ao governo que não existe do outro lado", afirma o escritor.

Infelizmente, qualquer brasileiro que insistiu na árdua tarefa de ler o noticiário nos últimos dois anos se deparou com as caretas, palavrões e interpretações filosóficas equivocadas do best-seller do ódio Olavo de Carvalho. Publicado pela Record, uma das maiores editoras do Brasil, Olavo (autointitulado ex-comunista) inspirou-se em sua interpretação paranóica de Gramsci para proclamar que o Brasil está em guerra. Um guerra cultural.

Para poupar o leitor de fazer uma busca no Google, resumo sua teoria: como os "comunistas" (sic) não teriam conseguido tomar o poder do Brasil pelas armas, eles teriam se apoderado da imprensa, da arte e das universidades para promover uma grande lavagem cerebral esquerdista e tornar vermelha a bandeira de nosso país, sem precisar derramar sangue no caminho.

Guerra cultural
Olavo é bom no que faz. E o que ele faz é propaganda. Carvalho escreve de maneira eloquente, tem uma cultura enciclopédica, domina a retórica e sabe que a "guerra cultural" é fundamental para manter o direito ao discurso nas mãos de quem sempre os teve: nossa elite branca. Sim, aquele 0,1%, herdeiros dos bandidos que invadiram o Brasil, em 1500, dizimando milhões de povos nativos, realizando estupros em massa, trazendo como escravizados outros milhões de seres humanos e mantendo o país sob um violento apartheid gasoso. Nesse sistema a aparência é democrática, mas a realidade traz grande parte da população vivendo aterrorizada em guetos, que chamamos de favelas, sob tortura, assassinato e autoritarismo militar.

Olavo, que promove cursos online de radicalização, influenciou gente importante do campo da cultura e da política, com o diretor de jornalismo da rádio Jovem Pan Felipe Moura Brasil, o poeta e ex-BBB Adrilles Jorge, o músico Lobão, o deputado e pastor Marcos Feliciano, o youtuber e guitarrista Nando Moura, o cineasta Josias Teófilo e o ex-secretário da Cultura e dramaturgo Roberto Alvim. Quase todos homens brancos, alguns deles arrependidos.

Carvalho acusa a imprensa de não ler seus livros e de se focar apenas em suas polêmicas nas redes sociais. Mas o que escreve o guru?

Seu maior best-seller - "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", organizado por Felipe Moura Brasil e editado, na Record, por Carlos Andreazza - vendeu impressionantes 150 mil exemplares em um país onde as pessoas não leem. Nele, Olavo afirma que após as políticas de cotas raciais americanas "o número de crimes cometidos por negros contra brancos aumentou significativamente."

Não para aí. É difícil negar seus tons racistas e supremacistas quando trata do que chama de "cultura negra": "desfrutando das liberdades republicanas, paparicados pela 'intelligentsia' universitária, não conseguem hoje produzir senão samba, funk e macumba e ainda se gabam de suas desprezíveis criações como se fossem elevadíssima cultura?"

E segue elogiando os colonizadores portugueses: "Quem eram, afinal, ante os negros, os portadores dessa cultura? Eram portugueses - uma raça céltica, tardiamente cristianizada por invasores imperialistas. E de onde vinha a força dos portugueses? Vinha da desenvoltura, do otimismo, da pujança com que, em vez de cair no ressentimento saudosista, em vez de revoltar-se contra a perda de suas "raízes" locais e raciais, em vez de buscar falsos consolos no ódio aos colonizadores, souberam se integrar criativamente no mundo cristão e tornar-se, mais que seus porta-vozes, seus soldados e seus poetas." Segue o ode à supremacia europeia: "podem dizer-se (...) de todos os povos europeus: todos abandonaram seus cultos primitivos para integrar-se na nova cultura. Transfigurados pela cultura universalizante que os absorveu, puderam por isso mesmo tornar-se nações grandes e poderosas (...)."

A pataquada conclui-se com um "alerta ao movimento negro" de que a valorização de sua ancestralidade pode levá-lo a algo próximo ao nazismo: "(...) de onde veio a tragédia cultural do povo alemão senão de sua cristianização imperfeita, de sua deficiente universalização, que, deixando à mostra as doloridas raízes da velha cultura bárbara, ocasionou a crise de regressão uterina que foi o nazismo? (...) É por não ter se libertado de seu apego a origens raciais e a cultos mitológicos que a Alemanha jamais alcançou, no mundo, o posto de liderança a que tão ardorosamente aspira: não há grandeza fora do senso de universalidade (...). O destino da Alemanha é uma lição para os negros."

Universalidade? E o que é universal, Olavo? Universal é a cultura branca-europeia-cristã enfiada goela abaixo pelos invasores genocidas que arrasaram o que hoje chamamos de América, África, Ásia e Oceania?

Tudo deve mudar para que tudo fique como está.

O autor de ?Torto Arado? Itamar Vieira Junior.  - José Povoa / Divulgação - José Povoa / Divulgação
O autor de ?Torto Arado? Itamar Vieira Junior.
Imagem: José Povoa / Divulgação

Mas o que diabos motivou a "guerra cultural" liderada por esses senhores brancos ocupando Youtube, rádio, livrarias e ministérios com sua mistura de ódio, literatura ruim e negacionismo?

É inocente quem esquece que nas últimas duas décadas o Brasil passou por um processo de inserção de parte de sua população marginalizada no campo literário, no debate universitário e nos palcos da "alta cultura". Como nos disse o escritor baiano Itamar Vieira Junior, autor de "Torto Arado":

"Os últimos governos vieram num processo muito importante de inclusão da sociedade. Abriram as políticas de cotas, permitiram o ingresso de muitas pessoas à universidade. Pessoas oriundas de escolas públicas, pessoas dos segmentos sociais mais vulneráveis da nossa sociedade como os indígenas, os quilombolas e as populações negras em geral. Tudo isso reverbera não só nos escritores, mas, também, nos leitores que vão buscar referências que lhes digam respeito. Isso é muito forte.".

Essas políticas públicas implementadas, principalmente, durante os governos Lula e Dilma são frutos da luta histórica do povo brasileiro organizado. Ninguém nos "deu" isso de mão beijada. Tão pouco alguém "foi comprado por uma bolsa família e dois sanduíches de mortadela". São resultado do esforço do movimento negro, do movimento indígena, do movimento das mulheres, dos movimentos LGBTQ+, das lutas dos sem-terra e sem-tetos, entre outros tantos.

E qual o resultado disso?

Bom, Maílson Furtado - sertanejo periférico, pioneiro de sua família a ter curso superior - foi o primeiro autor independente a ganhar a categoria "livro do ano" do Prêmio Jabuti, a maior premiação da literatura brasileira, em 2018. No mesmo ano, o próprio Itamar Vieira Junior, descendente de tupinambás, nigerianos e serra-leoninos, abocanhou 100 mil euros do Prêmio Leya.

E mais estreias: entre 2003 e 2008, Gilberto Gil foi o primeiro negro ministro da Cultura, em um país mundialmente famoso pela cultura negra. Em 2017, a filósofa negra Djamila Ribeiro tornou-se best-seller com seu livro independente "O que é lugar de fala?", conquistou coluna na Folha de S. Paulo e, no ano passado, ganhou prêmio Prince Claus, na Holanda. Da Amazônia, o líder yanomami Davi Kopenawa, por sua vez, revolucionou a antropologia mundial deixando de ser objeto de estudo para ser autor de "A queda do céu", um marco da literatura brasileira publicado pela Companhia das Letras, nossa mais prestigiada editora. Ainda venceu, no ano passado, o Prêmio Right Livelihood, conhecido como "Nobel alternativo".

Ah, e só mais um último exemplo: sabe quando foi ao ar a primeira novela da Globo protagonizada por uma atriz negra? Exatamente nesses últimos 20 anos, em 2004, quando Taís Araújo brilhou em "Da cor do pecado".

A literatura dos 0,1%

Ailton Krenak - Reprodução - Reprodução
Ailton Krenak
Imagem: Reprodução

Pensando nessas mudanças todas no campo da cultura, foquemos na literatura brasileira, área de atuação de J.P. Cuenca e Olavo de Carvalho. Considerando que quase todos os autores (97,5%) publicados pelas grandes editoras brasileiras, entre 2005 e 2014, são brancos, segundo pesquisa liderada pela professora Regina Dalcastagnè, quais atritos explodem quando isso muda minimamente? Eis a guerra cultural da extrema-direita, que não é uma batalha de "esquerda vs direita", mas um ataque dos 0,1% de homens brancos ricos contra a maioria da população brasileira.

Inclusive, quando os conservadores apelidam o campo progressista como "esquerda caviar" - tentando resumi-lo a Gregório Duvivier, Chico Buarque ou o próprio J.P. Cuenca - estão invisibilizando seus verdadeiros alvo. Gente como as intelectuais negras vivas e geniais Djamila Ribeiro, Joyce Berth e Sueli Carneiro. Ou a acadêmica indígena Julie Dorrico que produz pesquisa reconhecida internacionalmente, ao mesmo tempo que não nega o que Olavo, preconceituosamente, define como "cultos primitivos" de sua nação macuxi. Isso sem falar em pensadores como Tiganá Santana e Ailton Krenak, escritores como Ana Maria Gonçalves e Bianca Santana, artistas plásticos como Yacunã Tuxá e Maxwell Alexandre... Atente, quando alguém fala em "defesa da cultura ocidental", essa pessoa está reproduzindo (talvez por ignorância) um discurso supremacista branco defendido por organizações como a Klu Klux Klan. E a "guerra cultural" desses não está focada nos "Chico Buarques da vida". Os Chicos são apenas o inimigo mais próximo que o "pacto narcísico da branquitude" enxerga.

A filósofa e ativista Sueli Carneiro. - Divulgação - Divulgação
A filósofa e ativista Sueli Carneiro.
Imagem: Divulgação

Não vivemos na Suécia ou na Dinamarca, brancas como a neve, que segundo Olavo de Carvalho "abandonaram seus cultos primitivos para integrar-se na nova cultura." Vivemos um país onde mais de metade da população é formada por pardos e pretos. Um país onde o genial professor Silvio Almeida (cujo livro "Racismo Estrutural" foi lançado na coleção Feminismos Plurais, organizada por Djamila Ribeiro) diz que o movimento negro é o "samba, o futebol e a macumba". Justamente o que Olavo de Carvalho chama de "desprezíveis criações".

Nas condições normais de temperatura e pressão essa proporção (56,4% de não-brancos) da população nacional deveria ser reproduzida nos prêmios literários, nas novelas da TV, no Congresso Nacional e nas faculdades de medicina. Esse seria o normal em um país que não vivesse sob um apartheid gasoso em que você não precisa de leis segregacionistas para dizer onde é lugar de negro e onde é lugar de branco. Um país regido pelo racismo estrutural.

Não quero aqui fingir que vivemos, nos últimos 20 anos, um tsunami de igualdade e justiça. Mas essas pequenas fissuras que levaram a criação de produtoras de cineastas negros, por exemplo, como a Pujança ou a Filmes de Plástico começaram a abalar certas estruturas de poder. A "guerra cultural" da extrema-direita não é mera coincidência. É reação disfarçada de revolução.

"Tudo deve mudar para que tudo fique como está.", já escreveu Giuseppe Tomasi di Lampedusa. É por isso que Olavo de Carvalho esperneia. É por isso que a milícia digital bolsonarista pede a cabeça de colunistas e artistas progressistas, como J.P. Cuenca. É a luta do 0,1% de homens ultra-ricos brancos, e a meia dúzia de agregados e milicianos que lhes lambem as migalhas, contra a maioria esmagadora da população. Então, desculpe, minha leitora, meu leitor, se você não é milionário, mas está engajado na tal "guerra cultural", você está sendo manipulado.

Arte fora dos centros