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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Chega de genocídio: Justiça para Jhonatan e todo jovem morto pelo Estado!

Jonathan deixou filho de 4 meses - Reprodução
Jonathan deixou filho de 4 meses Imagem: Reprodução
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

02/05/2022 06h00

"Quem vai contar os corpos?". Sempre me pergunto quem vai lidar com todas as dores que ficam depois que alguém é tirado de nossas vidas de uma maneira violenta. Na última segunda-feira (25), mais uma mãe precisou enterrar seu filho. Jhonatan Ribeiro de Almeida, 18, era pai de um bebê de 4 meses. Era amigo, era filho, era mais um jovem negro morto com um tiro no peito pela polícia do Rio de Janeiro. Me dói tanto ver uma mãe, assim como eu, negra perguntar "porque mataram meu filho?", falar que seu filho não teve o direito de sobreviver porque nenhum socorro foi prestado, e ainda ter que justificar que seu filho não fazia parte do tráfico. E, ainda se fosse, nada dá aval para um Estado que atira primeiro e pergunta depois.

Tudo isso acontecendo a poucos dias de completar um ano da chacina do Jacarezinho, a mais letal do estado do Rio de Janeiro desde a redemocratização, sendo comparável à chacina da Baixada de 2005. Me recordo como fui impactada pelas notícias que iam chegando naquele 6 de maio de 2021, em meio a pandemia da covid-19. Foram 28 pessoas brutalmente assassinadas pela polícia. Não consigo esquecer das imagens que vi, casas tomadas pelo sangue, corpos jogados no chão como se não fossem nada, mulheres carregando corpos.

Além de execuções sumárias na chacina do Jacarezinho, os moradores relataram torturas, abusos de autoridade, casas invadidas por policiais sem mandados, confisco de celulares de moradores, além de helicópteros atirando aleatoriamente contra casas. A unidade sanitária que administra vacinas contra a covid-19 teve que ser fechada. Logo após o massacre, a Secretaria da Polícia Civil do Rio impôs um sigilo de cinco anos sobre todos os documentos de operações realizadas desde junho de 2020, inclusive o de Jacarezinho, que foi oficial, isto é, avalizada pelas autoridades do Estado

Segundo dados do relatório anual do Instituto Fogo Cruzado, 75% dos massacres ocorridos na região metropolitana no Rio foram de responsabilidade da polícia. Há exatos três meses o governador Cláudio Castro anunciou o programa Cidade Integrada como uma das suas maiores políticas de Segurança Pública, alegando que iria levar cidadania e segurança. Mas até agora, segundo relatos dos próprios moradores, tudo que este projeto fracassado do estado do Rio fez foi intimidar moradores e, nesta segunda-feira, assassinar no meio da rua um jovem de 18 anos. Uma das frases que mais me fez refletir sobre o papel do Estado e na efetividade da cidade integrada foi o da tia de Jonathan, que questionou: "O que a Cidade Integrada vai dar? Como que houve troca de tiros se a comunidade estava ocupada 24 horas? A polícia não respeita a gente, não respeita a nossa família".

Para pensarmos em saídas e políticas de Segurança Pública é preciso de um debate que não caia nos discursos do Estado racista, que opera diariamente o genocídio da população negra, com a dita "guerra às drogas" e do "todos os mortos eram bandidos". O racismo estrutural segue operando nas relações de desigualdades e privilégios de raça e classe. A necropolítica, que dispõe das relações de poder social e político para decretar como algumas pessoas podem viver e como outras devem morrer, segue fazendo um Estado perverso. São esses os principais mecanismos que fizeram 28 pessoas serem assassinadas em maio do ano passado e que fizeram Jhonatan ser assassinado sem sequer ser socorrido.

Neste 2022, ano eleitoral em que decidiremos também os governantes a nível estadual - os responsáveis pela Segurança Pública do nosso estado - precisamos ter sabedoria para a nossa escolha, para que não tenhamos filhos crescendo sem pais, mães enterrando seus filhos e para que não haja nenhum futuro sendo interrompido por esse Estado genocida. Precisamos de mais pessoas negras e da favela no poder, que sofrem nos seus corpos essa política de morte do Estado. Pessoas que, assim como minha irmã, Marielle, sabem que a favela não pode ser resumida a três letras: UPP. É preciso que o Ministério Público investigue o ocorrido e preste informações à família de Jhonatan Ribeiro de Almeida.

Aos familiares de Jhonatan, toda minha solidariedade, meu afeto e o compromisso coletivo de que sua morte não será esquecida e que lutaremos por justiça!