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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Justiça por Moïse Mugenyi, Durval Teófilo Filho e todo o povo negro

Dinelli
Imagem: Dinelli
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

07/02/2022 06h00

Seja um preto favelado que foi "confundido" com ladrão, uma jovem grávida que sai para visitar sua avó e não volta, um trabalhador imigrante que é espancado e morto por cobrar seus direitos ou uma mulher negra eleita, a sociedade brasileira parece acreditar que nossos corpos são descartáveis. Me pergunto: que ódio é esse que temos vivido nos últimos anos em nosso país? Como dormir e acordar tranquilos num país que todos os dias, sistematicamente, mata negros, trans e qualquer tipo de ser humano que não seja padrão?

O assassinato de Moïse Mugenyi no fim de janeiro por cinco homens em um quiosque da Barra da Tijuca e o assassinato de Durval Teófilo Filho pelo seu vizinho em São Gonçalo apenas alguns dias depois são crimes que escancaram a face mais cruel de nossa sociedade. As cenas de violência que Moïse sofreu ecoam em minha mente. Ver sua mãe e amigos chorarem a sua morte destroçou meu coração. Me coloquei no lugar daquela família, daquelas pessoas, daquele ser humano. Precisamos lembrar que estamos falando de um ser humano.

O mesmo país que acha normal matar um congolês que veio em busca do seu sonho, acha normal quando nós mulheres somos espancadas por companheiros, quando somos estupradas por estarmos com roupas curtas, ou vou além, quando uma mulher negra eleita morre com cinco tiros na cabeça. Volto a perguntar: Que ódio é esse que está tomando conta de nossa sociedade?

Não me refiro a ódio físico, mas me refiro a qualquer tipo de ódio que temos visto e vivido nesse país nos últimos anos e década, que tem sido legitimado por uma parte da sociedade que insiste em dizer que tudo é mimimi. Lutar por direitos, cobrar respostas, impor o fim do racismo, garantir direitos, tudo é mimimi? Será? Não! Não é mimimi.

É direito a vida, a sonhos, a futuro. Futuro que nos é negado. Até quando teremos que enterrar nosso povo preto e continuar calados por conta do seu achismo de mimimi? Chega de genocídio ao povo negro. Chega de chorarmos nossas perdas. Chega de sermos o país que tem uma população negra acima de cinquenta por cento, mas que insiste em nos invisibilizar.

Eu rezo e torço todos os dias pelo dia que teremos nossas vidas e nossos sonhos cuidados e valorizados. Que nossa cor não seja motivo para morrermos. Que nossas mães não mais enterrem seus filhos. Torço para que esse dia chegue comigo ainda em vida. Enquanto isso não acontece, sigo gritando por justiça? Justiça por Moïse, por Durval, por Marielle e por todo povo negro.