PUBLICIDADE
Topo

Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulheres negras e defensoras de direitos humanos: seguimos avançando

13.mai.2021 - Ato em frente ao Theatro Municipal, no Rio, lembra o assassinato da vereadora Marielle Franco - Herculano Barreto Filho/UOL
13.mai.2021 - Ato em frente ao Theatro Municipal, no Rio, lembra o assassinato da vereadora Marielle Franco Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

29/11/2021 06h00

Hoje, dia 29 de novembro, Dia Internacional das Mulheres Defensoras de Direitos Humanos, relembro a luta de minha irmã, Marielle, de seu compromisso pela busca de direitos e de um mundo sem violência. Defensoras de direitos humanos são todas as mulheres, grupos, organizações ou movimentos que atuam na luta pela eliminação efetiva de todas as violações de direitos e liberdades fundamentais dos povos e indivíduos. São mulheres que no último ano trabalharam incessantemente para garantir alimento para milhares de famílias brasileiras e estiveram denunciando todas as violações do Estado.

Hoje quero celebrar todas essas mulheres que estiveram na linha de frente da pandemia e que lutaram por nossos direitos no passado para que eu pudesse estar onde estou hoje, lutando pelos meus direitos e dos meus, abrindo caminhos para novas gerações que estão por vir, e celebrando em vida mulheres negras que fizeram e fazem história. Por isso mesmo, quero tratar da minha última semana na coluna de hoje também.

Meus últimos dias foram, sem dúvidas, os mais intensos deste ano. E olha que 2021 não foi um ano fácil, tanto pelo trabalho de suma importância que desempenhei, junto a minha equipe à frente do Instituto Marielle Franco, seja por ter que administrar e conciliar a vida de mãe, esposa, filha, tia e mestranda, múltiplas identidades que nós, mulheres negras temos que administrar. Na segunda-feira (22) à noite estive no centro do Roda Viva. Era um dia de celebração, pois não parava de pensar tudo que tinha passado desde o assassinato da minha irmã em 2018, para estar ali de pé, apesar de toda minha dor. Naquele dia, no entanto, mais cedo, ocorreu uma chacina no complexo do Salgueiro. O episódio aconteceu apenas dois dias depois da comemoração do Dia da Consciência Negra, e me deixou absolutamente chocada.

Os relatos das mães que entraram no mangue para retirar os corpos dos seus filhos me atravessaram da mesma forma que, em maio, fui atravessada pela chacina do Jacarezinho. Por isso mesmo, abri o Roda Viva prestando solidariedade às mães e familiares das vítimas dessa chacina e, no mesmo dia, o Instituto Marielle Franco comunicou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre o episódio.

Naquela noite, falei sobre muitos temas, sobre o legado do movimento de mulheres negras brasileiro, sobre a importância de respeitarmos os direitos humanos e defendermos defensoras e defensores que estão no front da luta pelos nossos direitos, sobre compromisso com minhas mais velhas, e sobre futuro. Ao citar Sueli Carneiro, Lucia Xavier, Jurema Werneck, Benedita da Silva e Conceição Evaristo, localizei as mulheres negras que vieram antes de mim e que puderam assumir esse compromisso de abrir caminhos para que hoje estivesse falando e sendo ouvida por tantas mulheres e celebrei movimentos, iniciativas e companheiras que constroem hoje a luta pelo direito de mulheres negras ao meu lado.

Na mesma semana, defendi minha dissertação de mestrado onde falo sobre escrevivências, a história de minha família, da atuação do Instituto Marielle Franco, da memória e do legado de minha irmã, Marielle. Tratei do pensamento de Conceição Evaristo, da memória de outras mulheres negras, da importância de registrarmos e produzirmos conhecimento sobre a atuação dessas intelectuais, lideranças e ativistas em vida e mesmo após sua morte. Com a presença de minha mãe, Marinete, Lúcia Xavier, Bianca Santana, Fátima Lima e tantas outras mulheres negras, pude concluir essa importante etapa da minha vida acadêmica e celebrar ao lado dessas mulheres que sempre estiveram ao meu lado, mais uma conquista.

No dia de hoje que é duplamente especial, faço um chamado para que as reflexões que fiz no Roda Viva na última semana, e tudo que tenho produzido ao lado de companheiras de luta feminista e do movimento negro nos últimos anos, possam ressoar em meus leitores. Faço um chamado para que possamos celebrar nossas mulheres negras em vida e reconhecer o trabalho de defensoras de direitos humanos antes que as mesmas estejam em risco. Faço um chamado à responsabilidade pela vida de mulheres negras defensoras de direitos humanos, nós, aquelas que dedicam suas vidas para melhorar a vida de todos nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL