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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pelo direito de sermos gente, pelo direito de termos direitos

"A imagem de soldados do exército armados, em meio a um terreno com panelas de comida cheias e um grafite escrito "Cozinha solidária", é o retrato do Brasil." - MTST
"A imagem de soldados do exército armados, em meio a um terreno com panelas de comida cheias e um grafite escrito 'Cozinha solidária', é o retrato do Brasil." Imagem: MTST
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

18/10/2021 06h00

"A ordem é ninguém passar fome,
Progresso é o povo feliz"

(Movimento dos Trabalhadores Sem Terra)

Na última semana, fomos surpreendidas com notícias devastadoras do crescimento da fome e da miséria em nosso país. Primeiro, a notícia da ação covarde da Polícia Federal junto ao exército brasileiro, que realizou a reintegração de posse do terreno onde acontecia um projeto de Cozinha Solidária, na Azenha, em Porto Alegre. Em meio ao agravamento da fome, o governo federal decidiu entrar com um pedido de reintegração do terreno que estava abandonado e que pertence à União.

Esse episódio me tocou profundamente porque, apenas alguns dias antes, tive a felicidade de conhecer essa iniciativa do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, em parceria com a Bancada Negra da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Na ocasião, representantes dos mandatos negros da cidade, que fazem parte da Agenda Marielle Franco, contaram sobre esse projeto, que em pouco mais de 15 dias de funcionamento serviu mais de 2 mil refeições a famílias em situação de extrema vulnerabilidade.

A imagem de soldados do exército e policiais federais armados, em meio a um terreno com panelas de comida cheias e um grafite escrito "Cozinha solidária", é o retrato do Brasil em que vivemos hoje. De um lado, solidariedade e ação coletiva no enfrentamento à fome que insiste em nos assombrar; do outro, um governo que prefere apontar armas para sua própria população a oferecer comida e dignidade.

O segundo episódio que apertou meu coração nessa semana, e que inspira o título do meu artigo de hoje, foi o da soltura de Rosângela Sibeli, uma mulher negra, mãe, em situação de rua, presa por ter tentado furtar vinte reais em comida: uma lata de leite condensado e uma Coca-Cola de 600 ml. O motivo do furto? A fome que ela e seus cinco filhos estavam passando. Em entrevista, Rosângela falou: "na hora que eu estava saindo, a menina perguntou se eu não estava esquecendo nada. Eu estava entregando na mão dela, mas a viatura viu". Assustada, ela jogou os itens no chão e correu com medo de ser presa. No momento, Rosângela enfatizou que estava com fome enquanto os policiais a repreendiam: "Eu estava com muita fome, queria muito comer um miojo, estava doida para tomar um leite condensado e um refrigerante gelado. Não tenho dinheiro para isso", finaliza.

Dias depois, ao sair da prisão, Rosângela, ao invés de revoltada com a sua prisão, mostrou que se sentia culpada ao ter sua liberdade decretada. Mais uma cena de partir o coração. Afinal, como uma mãe pode se sentir culpada por um ato que cometeu em meio ao desespero da fome? No fim, ela disse que seu único sonho era um dia "ser gente" e eu fico me perguntando como conseguimos produzir algo assim. Como em tão pouco tempo a crise social e política do nosso país foi capaz de tirar a humanidade de tantos de nós. Infelizmente, o episódio de Rosângela ou da cozinha solidária não são isolados e têm sido cada vez mais frequentes.

Hoje temos cerca de 20 milhões de pessoas passando fome no Brasil, em situação de insegurança alimentar. São 20 milhões de pessoas que não têm certeza se terão todas as refeições necessárias em seu dia, pessoas que sabem que terão que deixar de comer para alimentar as suas crianças, ou que vão chegar no fim do mês comendo apenas arroz. Esse é o panorama que a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (2021) apresenta em seu inquérito sobre insegurança alimentar durante a pandemia de Covid-19.

Quem puder ajudar a combater esse cenário devastador, contribua com o "Tem Gente com Fome, Dá de Comer". Essa é uma campanha nacional de arrecadação de fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia, promovida pela Coalizão Negra Por Direitos em parceria com a Anistia Internacional e outras organizações.

PARA DOAR QUALQUER OUTRO VALOR:
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL