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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A radical imaginação política das mulheres negras

Marcha das mulheres negras  - Tiago Zenero/PNUD-Brasil
Marcha das mulheres negras Imagem: Tiago Zenero/PNUD-Brasil
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

21/06/2021 06h00

Antes da gente entrar, foram dez anos antes com a Jurema e dez anos antes da Jurema à Benedita. A gente não pode esperar mais dez anos ou achar que eu estarei ali por dez anos. Marielle Franco (1979-2018)

Começo o texto de hoje, com a mesma citação de minha irmã Marielle Franco que abre o livro A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras, pensado e organizado por mim, Anielle, e minha querida amiga e companheira de tantas lutas Ana Carolina Lourenço, do Movimento Mulheres Negras Decidem, e construído a muitas mãos de mulheres negras de todos os cantos do Brasil ao longo do último ano. Em um ano pandêmico onde desigualdades sociais e raciais ficaram ainda mais acentuadas, pensar o que queremos em termos de política públicas para o Brasil, deve envolver a avaliação de tudo que já foi construído, de tudo que deu certo e também do que ficou incompleto em termos de promoção de equidade racial e justiça social para a população brasileira.

(...) Em um momento de agitação e angústias sem precedentes, estes textos são a chave para recuperar a ética na política. As mulheres negras podem ser as agentes de um verdadeiro processo de transformação e reconstrução da sociedade brasileira. As vozes aqui apresentadas rejeitam um modelo de Estado que se ocupe em apenas remediar problemas, ou um modelo de sociedade que abra mão de valorizar aquilo que é essencial para vida. A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras é uma contribuição no processo de visibilização das respostas e soluções empreendidas pelas mulheres negras brasileiras frente ao atual contexto de crise social, política e econômica. Ao acessar esta radical imaginação política, a crise em vez de nos forçar a pisar no freio, pode, deve nos inspirar à mudança. Ana Carolina Lourenço e Anielle Franco (2021).

A proposta do nosso livro passa por refletir sobre o modelo social baseado no pensamento e nas ideias de diferentes mulheres negras que, ao longo de décadas, inspiram um modelo político que aprofunde bases para a democracia e a igualdade social. O livro que reúne escritos de Andréa Lopes, Áurea Carolina, Benedita da Silva, Diana Mendes, Erica Malunguinho, Fabiana Pinto, Gabrielle Abreu, Juliana Marques, Leci Brandão, Renata Dias, Regina Sousa, Vilma Reis, Lúcia Xavier e Talíria Petrone; além das "escrevivências" de Lélia Gonzalez, Luiza Bairros e minha irmã, Marielle.

No último ano, para além de agir, pensando nas necessidades urgentes, nós, mulheres negras, atuamos pensando e projetando o futuro. Nessa linha, é importante que ao olharmos para o futuro, não percamos de vista tudo que já foi feito antes de nós estarmos aqui. Ver os passos de Antonieta de Barros, de Benedita da Silva, da minha própria irmã, Marielle, que foi o que fiz ao longo deste ano, buscando forças para atuar em temas tão difíceis em um contexto de extrema insegurança.

Em nosso livro, Andreia Lopes da Costa afirma que o processo de construção de memória social é resultado de um jogo de poder e lembranças que são esquecidas, ou resgatadas e onde são decididos quais serão os fatos históricos e personalidades representados nas narrativas oficiais, e como a Coalizão Negra por Direitos falou no ano passado com racismo não há democracia, e sem mulheres negras essa democracia também estará incompleta. Sendo assim, não haverá justiça social ou qualquer tipo de justiça enquanto a elaboração de leis e de políticas públicas for um monopólio de homens brancos, direcionadas para a maior parte da população, negra e feminina.

Hoje, lançamos essa importante obra que reúne textos analíticos, projetos de lei e discursos feitos por parlamentares e intelectuais negras de todos os cantos do país e em diferentes períodos da história. Nosso intuito, além de visibilizar o projeto de sociedade que mulheres negras vêm construindo, é também fornecer subsídio para que futuros líderes possam pensar as principais pautas políticas de nosso país, levando em consideração tudo que já foi feito por mulheres negras como minha irmã, e tantas outras que vieram antes dela. É nisso que acredito e tenho trabalhado hoje, pensar, construir e fazer acontecer uma mudança radical para os próximos anos do Brasil.

Transmissão do lançamento do livro.

E-book disponível para acesso gratuito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL