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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Chacina do Jacarezinho - Quantos mais têm que morrer para a guerra acabar?

6.mai.2021 - Quarto em que um homem foi morto em ação policial no Jacarezinho - Joel Luiz Costa/Reprodução
6.mai.2021 - Quarto em que um homem foi morto em ação policial no Jacarezinho Imagem: Joel Luiz Costa/Reprodução
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

10/05/2021 06h00

"Executaram o menino

que morava na rua de baixo

com cinco tiros.

Um matou ele,

o outro a mãe,

o terceiro o pai,

o quarto o irmão.

O quinto

foi um recado,

e pegou de raspão

no bairro inteiro."

Sérgio Vaz (2019)

Começo minha coluna de hoje com esse poema de Sérgio Vaz, para retratar o sentimento que me tomou nos últimos dias e a dimensão da dor que trás uma atrocidade como a qual vivemos na última semana no Rio de Janeiro. Na última quinta-feira (06 de maio) acordamos com a notícia da ocorrência de uma operação com muitos mortos na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro. Horas depois vieram os números e os relatos de moradores, contando o que de fato aconteceu: uma chacina.

Essa foi a chacina mais letal da história do Rio de Janeiro, e uma das mais letais em 10 anos no Estado, ficando atrás apenas da já conhecida chacina da Baixada Fluminense. A pergunta que minha irmã fez um dia antes de ser assassinada e que eu repito sempre que atos de violência do Estado acontecem, permanece: Quantos mais têm que morrer para essa guerra acabar?

Quantos vão morrer, eu não sei, mas na quinta-feira foram 29 mortes confirmadas, entre elas crianças e adolescentes. Além disso, dezenas de pessoas ficaram feridas por estilhaços, inclusive pessoas de fora da comunidade do Jacarezinho, trabalhadores que estavam de manhã cedo no metrô

a caminho de seus trabalhos. A operação que ocorreu de forma desastrosa e que tinha como justificativa uma investigação de aliciamento de crianças e adolescentes pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro, teve como resultado a morte dessas crianças e adolescentes, e nada é capaz de justificar tamanha brutalidade e crueldade da polícia do Rio de Janeiro.

Outro fato que chama atenção é que, até o dia 7 de maio, foi confirmado que dos 21 investigados e com mandato de prisão, apenas três foram detidos (como deveria ocorrer) e outros três foram mortos. Na chacina promovida pela Polícia Civil na favela do Jacarezinho e que teve como saldo 25 mortes, pelo menos 13 desses jovens não tinham nenhuma relação com a apuração que levou os agentes à favela. Ou seja, apesar do delegado Felipe Curi em coletiva de imprensa no mesmo dia da operação policial ter afirmado que "Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminosos, homicidas e traficantes", a própria investigação conduzida pela Polícia Civil e que ocasionou na operação aponta outra versão.

É importante lembrar ainda, da existência de decisão cautelar do Supremo Tribunal Federal na ADPF nº 635, determinando a suspensão da realização de operações policiais em comunidades no Estado do Rio de Janeiro durante a pandemia de Covid-19. A ressalva é quanto a hipóteses absolutamente excepcionais que devem ser justificadas por escrito pela autoridade competente, com a comunicação imediata ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro; bem como que, nos casos extraordinários de realização dessas operações durante a pandemia, sejam adotados cuidados excepcionais, devidamente identificados por escrito pela autoridade competente, para não colocar em risco ainda maior população, a prestação de serviços públicos sanitários e o desempenho de atividades de ajuda humanitária. Nada disso foi suficiente para impedir que a Polícia Civil entrasse no Jacarezinho na quinta-feira e promovesse a execução de jovens que sequer estavam sendo investigados naquela ocasião.

Enquanto ainda não temos uma total apuração dos fatos, os movimentos sociais, organizações da sociedade civil e coletivos de favela realizam um trabalho incessante para que esse caso não seja considerado algo isolado, para que a mídia noticie como de fato é - uma chacina, e não uma "operação policial" - e para que a justiça seja feita. Afinal, não há como naturalizarmos uma política pública racista, que condena a pobreza e há anos leva a morte para milhares de pessoas que vivem em favelas na nossa cidade.

Por fim, deixo meu mais sincero sentimento a todos os familiares das vítimas dessa política genocida, sejam familiares de policiais ou de jovens que foram injustamente condenados em um tribunal de rua e tiveram como sentença uma bala em seu corpo e a retirada de sua vida. Me solidarizo em especial com todas as mães negras, que no último domingo não puderam ver seus filhos e todas aquelas que, assim como eu relatei no início do texto, temeram pela vida das suas crianças, adolescentes ou jovens negros que colocaram no mundo. Essa política de morte tem que acabar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL