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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Temos saída? Covid-19 e a desigualdade racial no Brasil

Mônica Calazans recebe segunda dose da CoronaVac - Reprodução/YouTube
Mônica Calazans recebe segunda dose da CoronaVac Imagem: Reprodução/YouTube
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

22/03/2021 04h00

A intensificação do cenário de desigualdade social no Brasil, promovida pelo próprio governo e sua política desastrosa de condução a pandemia de covid-19 levou, mais uma vez, a população negra brasileira a estar em uma situação de vulnerabilidade. Em que pese hoje a condição de raça/cor não defina a evolução da doença em cada pessoa, a desigualdade ao qual homens e mulheres negras e negros sempre estiveram expostos, determina quem que a população negra seja a mais impactada pela pandemia de covid-19.

Hoje, após 1 ano desde o primeiro decreto instaurando o isolamento social como medida para prevenção da propagação da covid-19 e iniciada a vacinação rumo a erradicação da doença que hoje, é a que mais mata em todo o mundo e em especial no Brasil, o que vemos é uma distribuição desigual de insumos para o enfrentamento da pandemia entre países pobres e ricos, e mesmo dentro de países como Brasil e Estados Unidos da América (EUA), uma desigualdade entre grupos populacionais. Nesse fator, tanto no Brasil, quanto nos EUA, apesar da enorme diferença no quantitativo total de população vacinada entre os países, a população negra é a que menos acessa esse direito que pode salvar vidas.

Desde o início da vacinação contra a covid-19 em nosso país, episódio que comemorei em uma coluna escrita no final de janeiro deste ano, a situação parece não ter melhorado, na verdade, piorou. Na semana passada e até o fim da escrita desta coluna, havíamos batido a marca de mais de 3 mil brasileiras e brasileiros mortos dentro de 24h por covid-19 e no mesmo dia, mais de 90 mil infectados no país. Isso nos aponta que, daqui a algumas semanas, ainda estaremos contando os corpos de nossos amigos e familiares vitimados por covid-19 e aponta a urgência de repensar o que temos feito até agora para enfrentar a pandemia. Em janeiro, refleti em minha coluna sobre a situação dos profissionais de saúde ao dizer que: "A população negra no Brasil compõem a maior parte do grupo de usuários exclusivos do Sistema Único de Saúde (SUS), que são aqueles que não possuem plano de saúde e dependem exclusivamente do SUS para atender suas necessidades em saúde. Sendo esse grupo, também, o que mais sofre com as consequências da precarização e desfinanciamento de nosso sistema público de saúde. Mas ao olharmos para os profissionais de saúde, esse grupo parece estar em situação similar.".

Hoje, mais de 2 meses depois, essa condição similar de vulnerabilidade se apresenta a partir de dados dos mais de 3 milhões de brasileiros que já receberam a primeira dose da vacina contra a covid-19. Segundo uma reportagem da Agência Pública, desde o início da vacinação até 15 de março, o Brasil tinha registrado duas vezes mais pessoas brancas vacinadas do que pessoas negras. Considerando um aspecto importante sobre os públicos prioritários, que em muitos municípios consistem em idosos e profissionais de saúde, os negros também são minorias entre os vacinados.

Apesar de trabalhadoras como Mônica Calazans serem maioria na força de trabalho da saúde no Brasil, a categoria a qual ela pertence de enfermeiras e auxiliares de enfermagem, em muitos casos não foi priorizada na vacinação. Além disso, outro grupo importante de trabalhadores da saúde que foi negligenciado na construção do plano de vacinação dos municípios, foi o dos trabalhadores da limpeza das unidades hospitalares e unidades de atenção básica. Esses trabalhadores que se encontram igualmente expostos a covid-19 e que no começo da pandemia, tiveram seu acesso a Equipamentos de Proteção Individual negados, hoje, aguardam por vacina.

No texto, pesquisadores destacam que a diferença na vacinação entre brancos e negros se dá porque, apesar de o Brasil ter mais pessoas negras que brancas, a partir dos 40 anos, essa população é minoria em todas as faixas etárias. Isso se explica, em boa parte, por determinantes sociais de saúde que fazem com que a população negra não consiga chegar a idades mais avançadas, e quando chegam, pela sua situação de vulnerabilidade econômica, os mesmos não conseguem, por exemplo, ir até uma unidade de saúde para serem vacinados.

Fato é que, ainda há muito que se avançar no debate da prevenção e enfrentamento da covid-19 no Brasil e em mecanismos para se fazer valer a universalidade do nosso sistema de saúde, sem esquecer do princípio de equidade que o mesmo se estrutura. Compreender as especificidades de grupos demográficos distintos é o primeiro passo para podermos vencer essa pandemia e quem sabe assim, começar a pensar saídas para a crise que vivenciamos e as cicatrizes que permanecerão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL