PUBLICIDADE
Topo

Anielle Franco

Mulheres pretas acadêmicas

Bárbara Carine fundou a Escolinha Maria Felipa, em Salvador (BA) - Acervo Pessoal
Bárbara Carine fundou a Escolinha Maria Felipa, em Salvador (BA) Imagem: Acervo Pessoal
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

18/01/2021 04h00

Seguindo os últimos textos, onde destaquei algumas mulheres que seguem inspirando outras mulheres, hoje vou utilizar esse espaço para falar de duas mulheres negras e acadêmicas, que são imbatíveis.

O espaço acadêmico definitivamente não foi pensado para mulheres negras. Isso em um contexto de diáspora, porém nós resistimos e existimos nesse lugar. Pensar a existência de mulheres negras ocupando cadeiras em lugares de conhecimento, formulando conhecimento, propagando ideias e sendo visíveis, não é algo comum e entendido como natural. Atualmente tem ocorrido mais, porém não com facilidade. Conquistar esses espaços, como a academia é resultado de uma corrida desigual, árdua, e incansável de mulheres como eu e tantas outras irmãs para conquistar objetivos, obter glórias, ou até simplesmente, sobreviver com dignidade em meio às desigualdades.

Nesse caminho de resistência e ocupação de mulheres negras, o movimento feminista negro traz várias potências consigo. Mulheres que vem chegando com tudo e contribuindo com bastante conhecimento e representatividade. Movimentando estruturas sociais, por meios de espaços físicos e também por meio das redes sociais, se mostrando ativas na luta, no sentido de realmente promover mudança para nós mulheres negras.

Entre diversas mulheres negras extremamente potentes eu destaco aqui duas, ambas baianas, mães solo de duas meninas lindas, professoras de química, feministas negras, e que atuam desenvolvendo atividades com perspectivas sócio-raciais.

A primeira é Laís Moreira, a Lai é minha amiga-irmã, nos conhecemos pelas redes sociais logo após o assassinato de minha irmã Marielle, e depois pessoalmente na Bahia quando juntas participamos de um evento promovido pela Escola Landulfo Alves (BA), na qual ela era professora. Esse evento era uma homenagem a Marielle. De lá para cá continuamos nutrindo afeto e nunca mais perdemos contato.

Lai - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Laís Moreira é cyberativista da página Somos as Netas das Negras
Imagem: Arquivo Pessoal

Laís que se entende como uma mulher preta em diáspora africana cursou Licenciatura em Química na UFRB, e é recém-aprovada no mestrado em de Ciências Sociais também na UFRB. Lai está sempre ativa nos movimentos políticos e sociais que pautam feminismo negro, é cyberativista da página Somos as Netas das Negras, onde fala sobre maternidade solo, feminismo negro, opressões causadas pelo patriarcado e outras partilhas também. Foi colaboradora do coletivo feminista Marielle Franco, e ainda se divide como filha, mãe, amiga, professora, e as demais multitarefas que nós mulheres pretas exercemos nesse país.

Lai acredita em uma educação decolonial, antirracista e com resgate ancestral, o que versa diretamente com a próxima potência preta que eu vou falar aqui, a Bárbara Carine.

Conheci o trabalho da Bárbara por meio da Lai. Como a corrente da irmandade feminina preta funciona bem, né? Pois, a Bárbara se lê como mulher preta cis, é mãe, feminista negra, de origem periférica, professora Doutora de Química na UFBA, é militante, e também a idealizadora do projeto Escolinha Maria Felipa que funciona em Salvador (BA). Esse grandioso projeto que a Bárbara idealizou, o qual já tem uma certa notoriedade, recebe o nome de Maria Felipa. Maria Felipa foi uma mulher preta, nascida na ilha de Itaparica (BA), que guerreou ao lado de outras mulheres na independência da Bahia. Esse projeto idealizado pela Bárbara consiste em uma Escola Municipal, que visa uma educação bilíngue, decolonial, antirracista e diversa.

Com a produção intelectual dessas meninas, cada uma partindo de sua superfície de atuação, mas que se tocam em vários momentos, pois têm similaridade em seus corpos de mulheres negras acadêmicas e em suas projeções, eu percebo que a cada dia que passa o meio acadêmico se torna um meio ainda mais habitado por grandes potências negras. Tem muita qualidade no que vem sendo apresentado por meio do meu povo preto, as irmãs aqui mostram isso, como inúmeras outras.

Um bonde grande de mulheres pretas intelectuais está chegando. Sigamos!