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Anielle Franco

Que 2021 nos traga novas alegrias e conquistas, assim desejamos.

Mulheres Negras Decidem - Reprodução/Instagram
Mulheres Negras Decidem Imagem: Reprodução/Instagram
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

28/12/2020 04h00

O ano de 2020 foi um ano extremamente difícil. Muitas perdas, perdas numericamente estrondosas, difícil assimilar tudo isso. Difícil recebermos tantas notícias que nos entristecem e nos fazem entender que a vida é um sopro. Muitas perdas de amores e familiares em um mesmo ano. Quase 190 mil vidas se foram.

O sentimento que ressoa disso tudo hoje está em conseguir agradecer. Agradecer por estarmos aqui. Termos chegado até aqui e estarmos consideravelmente bem. Numa conjuntura pandêmica como esta, estar vivo é um grande motivo para agradecer.

Quando um ano se finda todo mundo pensa meio retrospectivamente sobre o ano que está passando e idealiza coisas boas para o ano que se inicia. A gente faz, pensa, sonha, anota muitos planos e deseja projetos, casamentos, separações, filhos, negócios, estudos, viagens e realizações.

Foi assim que nos energizamos para 2020, mas infelizmente não foi com essa fluidez que ocorreu. A situação pandêmica que estamos hoje vivenciando em variáveis graus nos arrebatou e nos levou a uma situação, que nunca imaginei que experimentaríamos algo parecido. É tipo aquela coisa de filme, que você assiste, sente o impacto, mas pensa que na vida real algo como aquilo não acontece. Porém aconteceu e nos tocou catastroficamente. De acordo com o IBGE, no final de dezembro de 2020, o Brasil encerra o ano com 14 milhões de desempregados, esses dados também são reflexos do cenário caótico que o Brasil passa perante a pandemia.

Porém como sabiamente diz uma escritora feminista negra Bell Hooks, "precisamos pensar para além da dor". Pensar para além de nossas dores, nos faz olhar para nossas capacidades e também para os nossos medos. E por meio deles, perceber que precisamos abrir espaços e tecer caminhos jamais atravessados. Nos faz entender que nossa força é o que nos move e nos faz ir além.

Foi um ano difícil.

Um ano onde mais uma vez, muitas mulheres, e muitas mulheres negras tiveram que se reinventar por meio de suas dores. Mães que perderam filhes, alguns ainda criança, mulheres que foram violentadas, assediadas, que estão em vulnerabilidade social constantemente só por serem mulheres. Mas que se erguem. Não só isso, mas mostram como a força feminina molda e alavanca esse país.

Nós nos levantamos como diz Maya Angelou: "como a esperança emergindo na desgraça, assim eu vou me levantar". E assim fazemos desde que o mundo é mundo. Nos reinventamos para seguir batalhando, sobrevivendo e reexistindo.

Em 2020, seguimos combativas, pedindo justiça, desejando e nos movendo por mais igualdade e menos ataques aos nossos corpos. Foi um ano politico eleitoral em que nos dispusemos a estar ativas na movimentação e ascensão de diversas mulheres, que com coragem levaram seus corpos a uma disputa política partidária, empreenderam, firmaram suas ideias em lugares inesperados que de lá tiravam seu sustento e o de suas famílias.

2020 foi o ano de campanhas feitas por meio das redes sociais. O número de mulheres eleitas foi prazeroso de ver. Mas lembro aqui, que fazemos política com nossos corpos de diversas maneiras. O nosso corpo é um estado político em ação. Desde nossa política institucional, passando por mães solos que encontram maneiras diversas para sobreviver, até nossas líderes de favelas e periferias que são exemplos para tantas outras pessoas. Exemplos vivos de uma sobrevivência combativa diária.

Ver mulheres ocupando espaços onde suas causas não são pensadas com tanta prioridade, é algo urgente. Ver mulheres sendo protagonistas de suas histórias e chegando a lugares jamais pensados é algo renovador, representativo e principalmente motivador.

Por isso, a partir do próximo mês, dividirei com vocês, uma sequência de textos e perfis de diversas mulheres, que hoje, fazem por si e por muitos outros, abrangendo diversas causas e fomentando lutas inspiradoras.

Nesse ano, lutamos muito para provar nossa existência e resistência. E nada melhor do que começarmos um novo ano, revigorando nossas forças com exemplos vivos de luta e afeto.

Para um ano novo, eu desejo que sejamos tomados de amor, leveza, paz, saúde, e muita resistência.