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Anielle Franco

"Tudo o que nós tem é nós": 2020 e a luta negra no Brasil

Mulheres durante evento no Instituto Marielle Franco  - Arquivo Pessoal
Mulheres durante evento no Instituto Marielle Franco Imagem: Arquivo Pessoal
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

21/12/2020 04h00

Caro/a leitor/a,

Mais uma vez quero utilizar este espaço para refletir conjuntamente com você sobre os desafios que enfrentamos, especialmente, neste ano no Brasil. Para começar, me permitirei utilizar dois marcos importantes para minha trajetória. O primeiro, repousa no enfrentamento cotidiano e os desafios da luta negra nessa sociedade racista, neste ano marcado por uma pandemia global, em que as desigualdades sociais, raciais e de gênero se destacaram como narrativa central sobre nossas vidas. O segundo está associado ao início do trabalho organizado do Instituto Marielle Franco, ONG que criei junto à minha família para defender a memória, espalhar o legado, lutar por justiça e regar as sementes de Marielle.

Bem, não é novidade para você o cenário devastador que estamos vivendo submersos sob o risco de morrer de tiro, covid ou fome. Dezembro chegou e, com ele, vieram índices elevados de contaminação e mortes de pessoas que cada vez mais estão próximas a nós, amigos, família — já são mais de 184 mil óbitos e mais de 7 milhões de pessoas foram contaminadas pelo vírus, segundo dados de consórcio de veículos de imprensa. A inércia programada e genocida do governo federal, a demora da construção de planos de retenção, prevenção da contaminação, além do planejamento ineficaz e ausente sobre o início da vacinação no país fomentam sensações em nós que impactam mental e fisicamente nosso bem-estar.

Tudo isso para dizer que o desafio imposto, especialmente à população negra, multiplicou-se em 2020. Sobreviver por aqui sempre foi a meta e a construção cotidiana, neste ano que passou nossas fórmulas de resistência foram atualizadas, munidas de expertise humanitária nos jogamos nas ruas desde o início lutando por segurança alimentar, saneamento e água para nossos territórios, batalhamos pelo auxílio, gritamos e pedimos "ar" e "vida" quando joelhos de policiais sufocaram nossos homens negros, lutamos por mais representatividade nas eleições e contra a violência que foi produzida politicamente para impedir que mais de nós pudesse ocupar os espaços de poder.

Um ano que marca na história o nosso ativismo que produz vida e o discurso deles que fomenta a morte, eu fico pensando sobre o quanto avançamos. Às vezes é difícil buscar fagulhas positivas na chama que lambe nossas esperanças, mas é importante enxergar o plano micro das mudanças, o que fazemos todos os dias é romper com barreiras estruturais, e aos poucos, juntos, isso vai tendo impactos grandes com o tempo. "Somos fruto da imaginação de nossos antepassados", disse Angela Davis, seguiremos construindo outra imaginação para as próximas gerações.

E, falando em imaginação, o Instituto que lidero junto à minha família hoje é a materialização de um sonho de fazer com que a trajetória e a luta de minha irmã permaneçam vivas na memória do mundo. Não poderia ser diferente, este ano tiramos do papel o Instituto Marielle Franco, nossa ideia era buscar a estruturação, mas a realidade nos impôs a missão de responder aos impactos das desigualdades que foram intensificadas no nosso país. Como Arlindo Cruz canta, "o povo que sobe a ladeira, ajuda a fazer mutirão, divide a sobra da feira e reparte o pão", foi esse povo que norteou as ações do Instituto, para quem avançamos com projetos como o "Mapa Corona Nas Periferias", que conectou coletivos de favela e periferia de todo o Brasil; o "Agora É a Hora", que mobilizou mulheres negras lideranças para multiplicar o acesso a segurança alimentar e de renda no Rio de Janeiro; o "Brasis", coletânea sobre histórias da periferia; o "Para Onde Vamos", pesquisa e relatório sobre o futuro e o ativismo de mulheres negras no Brasil. Avançamos também lutando por justiça e memória pela Mari e o Anderson, com o #14M, a Casa Marielle, a live com Elza Soares e nossa campanha contra a federalização do caso. Por último, o Instituto se debruçou para potencializar o acesso de pessoas negras na política institucional, lutando por mais financiamento e tempo de tv para as candidatas, criando nossa Agenda Marielle Franco, um conjunto de compromissos e práticas do "fazer Marielle" que teve a adesão de mais 700 candidaturas, de 300 cidades, com 81 eleitos e eleitas e também a produção de pesquisa e incidência sobre a violência política que atinge, especialmente, mulheres negras.

UFA! É, 2020 pode ter sido desafiante por muitos sentidos, mas para nós, desde 2018, todo dia é tempo para se reinventar na dor e na ausência e impulsionar fagulhas de transformação. No próximo ano, espero que possamos seguir juntes imaginando um mundo onde (re)existir não precise de tanto trabalho.

Com fé em dias melhores.