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Anielle Franco

O voto negro

Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

09/11/2020 04h00

Nas vésperas da primeira eleição municipal após o assassinato de Marielle e Anderson, pretendo utilizar este espaço para refletir sobre a importância do voto negro no cenário nacional, e quem sabe, até internacional. Nos últimos dias, o noticiário do país mergulha num tópico em particular: a corrida incessante americana pela eleição do posto de maior poder e prestígio do mundo, o cargo de presidente dos Estados Unidos.

Do campo da representatividade, é óbvio que a "democracia" norte-americana ainda deixa muito a desejar, assim como a brasileira. Por lá a corrida eleitoral se resume a dois candidatos cujo corpos e trajetórias remetem a um símbolo de padrão dominante, ambos homens brancos de uma geração que já produziu muitas guerras e "tretas" nesse mundo, mas vale dizer que com visões e projetos políticos distintos sobre as possibilidades de transformação do mundo.

Não precisamos ir muito longe para citar exemplos de como homens brancos de gerações passadas podem tentar imprimir seu egocentrismo na política para influenciar populações inteiras, já basta a experiência que estamos vivendo no Brasil desde as eleições de 2018, e de como nosso cotidiano foi acostumado com incessantes ataques à democracia, a nossa vida e existência. Mas o papo aqui hoje consiste em nosso papel, enquanto pessoas negras, de sermos agentes atuantes e definidores do futuro da democracia em países com diáspora pelo mundo.

O primeiro tópico da nossa conversa sobre voto negro se refere aos mitos que circundam a ideia de que "negros não votam em negros". Muitas pessoas, incluindo alguns de nós, tentam vincular em seu discurso a mensagem que não há interesse na população negra em votar em representantes da mesma cor/raça. O movimento Mulheres Negras Decidem pode nos ajudar na derrubada deste mito, segundo a campanha organizada pelo coletivo em 2018, a ideia do desinteresse da população negra em votar em seus similares não pode ser comprovada, isso porque a justiça eleitoral não faz recorte racial de seu eleitorado, o que impossibilita cientificamente a comprovação dessa tese. Além do que, para exemplificar, analisando o mapa eleitoral de Marielle em 2016, conseguimos ver que ela teve votação em todas as zonas eleitorais da cidade do Rio, significando assim uma projeção de adesão da população negra as pautas e ao projeto político da minha irmã.

Avançando em nossa análise, agora sob outra perspectiva e contexto, o que podemos aprender sobre a importância do voto negro na definição do futuro da democracia em países como o nosso, mas também em outros pelo mundo? Pegando mais uma vez o exemplo das eleições norte-americanas, é fato e já comprovado que em alguns estados por lá a votação massiva de negros e negras foi essencial para a vantagem e vitória do candidato democrata. Em outros estados, vimos esse eleitorado também definindo para o candidato republicano. Vale ressaltar que mesmo o voto não sendo obrigatório por lá, e a população negra ser apenas 14% do total populacional, essas pessoas decidiram sair de suas casas para fazer a diferença, para usar o instrumento do voto no intuito de passar uma mensagem muito clara sobre o futuro que as mesmas querem para o seu país.

Em especial, destaco as mulheres negras, que aqui e lá podem e fazem a diferença nessas eleições. No estado da Georgia, sul dos Estados Unidos e com contagem acirrada de votos, foram as mulheres negras organizadas que construíram um projeto para registrar mais pessoas negras no colégio eleitoral local. É no Brasil, que organizações e movimentos negros mobilizados construíram a iniciativa "Enegrecer a Política", voltada para fortalecer candidaturas de negros e negras nessas eleições municipais. Ambas iniciativas dizem muito sobre a liderança dos nossos corpos na defesa de uma democracia onde o racismo não é a estrutura central, dizem também sobre como o nosso ativismo está mobilizando ações por todo o globo e influenciando a construção de novos caminhos de futuro.

Por isso caro(a) eleitor(a), no final desta semana teremos uma nova oportunidade de mostrar para o mundo como o voto negro é essencial para mostrar o "para onde vamos". Nestas eleições municipais, que nossa população vote por lideranças como Marielle, vote pelo nosso povo, vote pela defesa dos direitos que lutamos tanto para conquistar. Votemos sabendo que este exercício de direito civil é a ferramenta que nos coloca no mapa da existência democrática humana.

Votos negros importam, e muito.