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A jornada tripla da maternidade negra

Anielle Franco grávida da segunda filha, Eloah - Vanessa Freitas
Anielle Franco grávida da segunda filha, Eloah Imagem: Vanessa Freitas
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

28/09/2020 04h00

A construção do imaginário sob os corpos das mulheres negras traz consigo retratos associados a força, resistência física, submissão, signos derivados da estrutura racista que moldou a sociedade em que nós, mulheres negras, fomos obrigadas a nos adaptar e encontrar caminhos para existir. Nós somos eternamente designadas a viver sob a influência de obstáculos reais, ou simbólicos, e desafiadas a provar nossa capacidade de seguir em frente. Não temos nunca a oportunidade de demonstrar fraquezas humanas, pois nossa realidade nos impede e nos engole dia a dia. Somos sempre impulsionadas a produzir diante do "impossível". E é por meio desse marco, da trajetória de mulheres negras que vieram antes de mim, que mergulho hoje neste texto.

Partirei de um ponto comum que vem me atravessando nos últimos anos, sempre alinhado à palavra "realização". Essa palavra e também esse ideal que deveria ser algo bom, que remetesse a conquistas, por vezes está associado a violências simbólicas e até mesmo renúncias. Por isso, hoje, abordarei um pouco mais sobre a experiência das mulheres negras nessa jornada múltipla que é a maternidade.

Na pesquisa "Nascer no Brasil", que deu origem ao estudo "A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil", a pesquisadora Maria Leal, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), evidenciou que as violências racistas sob o corpo das mulheres negras começam já nas salas de maternidade e, em alguns casos, ainda durante o pré-natal. Mas, relacionado ao parto e ao nascimento, segundo a pesquisadora, frases como "mulheres pretas têm quadris mais largos e, por isso, são parideiras por excelência" ou "negras são fortes e mais resistentes à dor" estão presentes na forma como essas mulheres são atendidas nos serviços de saúde do nosso país. Além disso, as chances de recebimento da anestesia local para a realização da episiotomia — corte feito na região do períneo para ampliar a passagem do bebê em partos vaginais — é 50% menor para mulheres negras, evidenciando uma violência física.

A violência obstétrica e o racismo em serviços de saúde são uma realidade presente na jornada reprodutiva de mulheres negras. A jornada de luta na maternidade, para nós, começa muito antes de nossas pequenas e nossos pequenos virem para este mundo. Devo confessar que, hoje, depois de dar a luz a minha filha mais nova, Eloah, me permito olhar para estes desafios cotidianos com a certeza de que meu papel como mulher negra não consiste só em equilibrar um mundo de realizações impossíveis, como esperam de nós, mas também incidir na construção de perspectivas de futuro para as minhas filhas e minha sobrinha. Conseguir construir e pensar o futuro para todos os mais novos que ainda têm uma vida longa pela frente nesta sociedade.

Desta luta e atuação secular, onde nós, mulheres negras, lideramos e produzimos, desde o primeiro momento em que colocamos os pés nas terras deste país, alternativas para nossas vidas e de nossas famílias, e construímos conexões de resiliência que poucas pessoas hoje conseguem entender. Afinal, somos nós que vivenciamos mais intensamente as consequências das desigualdades neste país.

Somos as mais afetadas pelo desemprego, pelas condições de trabalho precárias, pela ausência de moradia de qualidade, pela fome e mesmo assim somos também as que pensam e implementam soluções para todos os problemas que vivenciamos, garantindo e protegendo desde o nosso direito de ser gestante e parir em paz, até o direito de nossas filhas e filhos crescerem de forma saudável, em comunidades seguras e com dignidade.

Reproduzir-se enquanto fortaleza, multiplicar-se enquanto coletividade, a maternidade negra é um objeto de justiça social. Não há outro caminho para nós, mulheres negras se não o de construirmos e apontarmos para um futuro onde nossos direitos e ações não sejam constantemente marginalizados e questionados. Não temos outro caminho se não o de pensar formas de vivermos nossa maternidade de maneira plena, respeitosa e integral.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.