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Sevirologia: histórias inspiradoras de empreendedores na pandemia

Carlos Humberto Silva é o criador da startup Diáspora Black   - Divulgação
Carlos Humberto Silva é o criador da startup Diáspora Black Imagem: Divulgação
Adriana Barbosa

Criadora da plataforma Feira Preta. Formada em gestão de eventos, sua atuação profissional começou em 1995, na área de comunicação. Em 2002, com pouco mais de 20 anos de idade, fundou aquela que é hoje a maior feira negra da América Latina. Em 2019, recebeu o Troféu Grão do Prêmio Empreendedor Social da Folha de São Paulo, com a aceleradora Pretahub, e foi contemplada na categoria Empreendedorismo e Negócios do Prêmio Claudia. Em 2020, ganhou o Prêmio Estado de São Paulo para as Artes.

13/10/2020 12h19


Em tempos de pandemia, estamos inseridos nas complexidades que são resultados de questões estruturais impostas pelas desigualdades sociais impostas por histórias antigas associadas ao Brasil-Colônia. A gente tá afogado em notícias com tendências pessimistas, como por exemplo a elevação para mais de 12% de pessoas desempregadas. Nessa pandemia, muitos empreendedores negros e não negros foram afetados. Os pedidos de falência subiram mais de um terço em relação a 2019.

É desesperador, eu sei. Mas aqui nessa coluna, quero te oferecer um respiro e contar histórias que inspiram. Quero chamar a atenção para a "Sevirologia". Pra quem me acompanha mais de pertinho, deve se lembrar, que conto a minha história de vida e da Feira Preta a partir da arte de se virar. Mas não fui eu quem criei essa palavra com significado próprio.

A primeira vez que me deparei com esse termo, foi em uma troca de conversa com o baiano Reinaldo Pamponet, ex-executivo da Microsoft que aliou uma visão de futuro ligado às novas tecnologias à força simbólica do tambor, dando início a Eletrocooperativa, que formou mais de 2 mil jovens no Pelourinho, em Salvador (BA). Ele foi um dos caras que me ajudou a enxergar a potência da Economia Criativa como um caminho para a sociedade em rede e com valores da colaboração e do compartilhamento. Atualmente, esse visionário gere a ItsNoon, uma rede virtual com mais de 7 mil pessoas que buscam espaço para trabalhar e se conectar com a sociedade.

Inspirada nisso, quero trazer aqui quatro casos de pequenos empreendedores que foram afetados pela pandemia, mas que estão dando um jeito de recriar seus negócios. Vamos lá?

Caio Gimenes - Fotógrafo

O primeiro que quero contar é a inovação do Caio, fotógrafo de casamentos e eventos que mora no Tatuapé, zona leste da cidade de São Paulo. Especializado no que se chama "Boutique Weddings": casamentos para menos pessoas, estava fazendo cerca de quatro cerimônias por mês até a pandemia chegar e interromper os eventos. Caio então percebeu um movimento de outros profissionais que já estavam fazendo ensaios online. Ele então entrou em contato com os casais que estavam com casamento marcado e ofereceu o novo serviço. A ideia era registrar o que essas pessoas estavam fazendo no agora, quando estariam, na verdade, celebrando a união. De casa, Caio faz uma videochamada com os noivos, pede para posicionar o celular, a família e dirige a foto. Depois, dá print na tela, trata a foto e coloca na nuvem. Junto com isso, entrega um vídeo que ele vai gravando com o making of de toda essa produção. Deu tão certo que uma pessoa passou a recomendar outra e Caio já chegou a fazer oito ensaios por semana, aumentando seu alcance.

Jaciana Melquíades - Era Uma Vez o Mundo

A segunda história é da carioca Jaciana Melquíades que, ao ficar grávida do Matias, passou por uma transformação pessoal e profissional. Em seu processo de autoconhecimento, começou a questionar padrões de beleza e auto-estima, a refletir sobre que tipo de imagem ela apresentaria ao seu filho, que tipo de referência ela seria.

Durante este processo, começou a trabalhar em um projeto de oficinas pra jovens de periferia, que falavam não só de história, mas também sobre negritude. Foi nesse período que ela mesma fez o enxoval do Matias e criou para ele uma boneca negra de pano. Ela levava as bonecas para as oficinas e as pessoas queriam uma igual. Então ela começou a fazer. E o negócio foi tomando uma proporção tão grande que acabou virando sua principal atividade.

Assim nasceu a "Era Uma Vez o Mundo", que vinha crescendo e ganhando notoriedade. Você sabia que 93% das bonecas no mercado nacional são brancas? Talvez isso explique o sucesso do negócio dela, que tinha uma loja no centro do Rio e outra no Shopping Madureira, além das vendas online. Mas aí, veio a pandemia. Dois alugueis, onze funcionários e nada de vendas. Ela fez as contas e viu que conseguia sustentar o negócio por dois meses. As vendas caíram e bateu o desespero. Foi um momento tão triste que ela resolveu escrever um post, no Twitter, apelando para quem quer que fosse, que a ajudasse. No desabafo online, ela dizia assim: "Comecei a empreender como a grande maioria de mulheres pretas que são empreendedoras no Brasil: por necessidade. E como quase toda empreendedora igual a mim, estou quebrando."

Recebeu uma avalanche positiva e virou o jogo. O post foi compartilhado mais de 6 mil vezes. Uma pessoa que ela não conhecia pegou o texto e espalhou pelo WhatsApp. A mensagem viralizou e foi lida por mais de 600 mil pessoas. O resultado prático? No dia seguinte ao da postagem, vendeu 50 bonecas. Vinte dias depois, já tinha vendido quase 300 bonecas pelas redes.

Hoje, graças à solidariedade das pessoas - e também da compreensão de que seu produto respondia à necessidade de entreter as crianças em casa durante o isolamento social - Jaciana se reergueu e, mesmo depois da emoção do post ter esfriado, conseguiu manter o ritmo de boas vendas, semana a semana.

Carlos Humberto - Diáspora Black

Você sabia que tem 27 mil agências de viagens no Brasil? Pois é. E 2020 definitivamente não tá sendo um bom ano pra elas. Primeiro teve a alta do dólar e, logo depois, a crise do coronavírus, com muitas pessoas cancelando passeios. Em março, 85% das viagens marcadas foram canceladas. Imagina como as agências de viagem, que em geral são pequenas empresas, estão lidando com isso?

Mas, quero trazer a história de uma agência que conseguiu sair dessa onda negativa - por incrível que pareça.

Já pensou você fazer aquela viagem, realizar aquele sonho de anos, de conhecer um lugar diferente e - quando você chega lá - alguém te confunde com funcionário do hotel ou o segurança te barra na piscina? Pois é: isso acontece direto com turistas negros. É o racismo nosso de cada dia. O carioca Carlos Humberto Silva estava cansado de sofrer esse tipo de preconceito e teve uma ideia. Em 2016, criou a Diáspora Black, plataforma de turismo que oferece algo além, mas que deveria ser básico: a garantia de que todo viajante vai ser respeitado.

Além da oferta de hospedagem e roteiros pensados a partir de uma perspectiva da cultura negra, tem também os treinamentos para garantir que todo o ecossistema do turismo oferecesse atendimento de qualidade, que o livrasse - e outros turistas - de viver experiências racistas. A Diáspora Black só cresceu. Pra você ter ideia, no último verão, já estavam com 9 funcionários e operando em 18 países.

Carlos é geógrafo de formação. Manja de geopolítica e estava prestando uma atenção especial no que estava rolando do outro lado do mundo, ainda em janeiro, quando o coronavírus começou a se espalhar pela China. Isso deu tempo a ele de começar a pensar num plano B e a Diáspora Black não foi pega totalmente de surpresa.

Se ninguém mais viaja, o negócio de Carlos não tinha saída. Mas foi aí que ele e a equipe do Diáspora Black entenderam que ou faziam algo ou iam à falência. Mas o que fazer? Eles começaram a testar alguns outros serviços que já tinham dentro do escopo de atuação e um deles começou a dar certo. Hoje, a agência é referência em venda de experiências negras online.

São desde atividades culturais, gastronômicas, de saúde, bem-estar, cursos de formação. Então tem desde a possibilidade de você vivenciar - online, né - uma oficina de yoga kemética, de gastronomia africana, e várias outras. Tem ofertado uma variedade de cursos que vão desde branquitude e racismo, a capoeira. E até oficina de drinques e petiscos, algo que as empresas começaram a comprar, pra descontrair as pessoas que estão trabalhando em casa. O diferencial é que essas experiências online trazem a cultura, a memória, o legado da comunidade negra no mundo. Por exemplo: na oficina de drinques, o especialista não conta só como se faz a caipirinha. Ele explica que, no tempo da escravidão, o limão foi uma das culturas agrícolas que ajudaram economicamente os negros que viviam em quilombos. E o limão, sim o limão, ajudou a fortalecer o movimento abolicionista no Brasil. Interessante, né? E o resultado? Cresceram 25% a mais do que projetaram.

Maria Soares Escorel e Patricia Quintella - Reciclo Bikes

Agora é a vez da Maria Soares Escorel. Ela e a esposa, Patrícia Quintella, resolveram montar uma bicicleta. Usaram o quadro - a estrutura - de outras bikes antigas, dos anos 70. A Maria usava a bicicleta no dia a dia, pra trabalhar, e sempre era parada nas ruas do Recife por pessoas que queriam elogiar e perguntar onde ela tinha comprado aquela bike leve e super estilosa. Os amigos começaram a pedir para elas fazerem a deles e, quando se deram conta, estava ali um super potencial de mercado. Criaram a Reciclo Bikes. Quando começou a ficar difícil garimpar bikes velhas pra reformar, montaram um modelo só delas, a Corra Linda. Um sucesso!

Com a pandemia, alguns estados consideraram as bicicletarias serviços essenciais, como em São Paulo, e puderam funcionar. Mas em Pernambuco, tiveram que dar um tempo.

Em março e abril, sem perspectiva de reabertura do comércio, elas pensaram em vender vouchers de serviços de manutenção, de lavagem de bicicleta, essas coisas. Antecipados com desconto. O voucher só seria utilizado quando voltasse o funcionamento normal. Muitos negócios recorreram aos vouchers como uma forma de fazer caixa. Deu certo e ela vendeu mais de 120 vouchers.

Pra vender os vouchers, Maria reativou o site da Reciclo Bikes, que estava meio abandonado. Lá, expôs as bikes que estava vendendo e começaram a ter uma procura. Inicialmente, ficaram receosas de como fariam as entregas, pois ela não tinha estrutura pra vender online uma coisa tão grande quanto uma bicicleta. Mas a demanda veio elas montaram um esquema: a pessoa escolhia a bicicleta pelo site e marcava um horário com a Patricia pra ir à loja, fazer a entrega e os ajustes. Esse pico de vendas aconteceu em muitas bicicletarias por todo o Brasil, principalmente nas periferias. E também em outras cidades do mundo. As pessoas recorreram à bicicleta para evitar aglomeração e a Reciclo Bikes zerou o estoque!

E aí? O que achou destas histórias?
Você, pequeno e médio empreendedor? Se conectou com elas de alguma forma? Quero te convidar então para ouvir a série de podcast que conto essas e outras histórias de emprendedores que souberam se virar para driblar a crise, nas principais plataformas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.