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Casa Pretahub é espaço para transformação digital de empreendedores negros

Estúdio faz parte da estrutura oferecida pela Casa Pretahub, no centro de SP - Divulgação
Estúdio faz parte da estrutura oferecida pela Casa Pretahub, no centro de SP Imagem: Divulgação
Adriana Barbosa

Criadora da plataforma Feira Preta. Formada em gestão de eventos, sua atuação profissional começou em 1995, na área de comunicação. Em 2002, com pouco mais de 20 anos de idade, fundou aquela que é hoje a maior feira negra da América Latina. Em 2019, recebeu o Troféu Grão do Prêmio Empreendedor Social da Folha de São Paulo, com a aceleradora Pretahub, e foi contemplada na categoria Empreendedorismo e Negócios do Prêmio Claudia. Em 2020, ganhou o Prêmio Estado de São Paulo para as Artes.

29/09/2020 04h00

Diz um provérbio africano que "o conhecimento é como um jardim: se não for cultivado, não pode ser colhido". O que eu sempre quis cultivar como profissional que fomenta o empreendedorismo negro no Brasil foi a ideia de compartilhamento e cocriação. O clichê de que juntos somos mais potentes é muito concreto na forma como empreendo. E com a Casa Pretahub, inaugurada neste final de semana no centro da cidade de São Paulo, é o que todo um ecossistema colhe de uma trajetória que não desviou desse caminho, mesmo com vários desafios pelo caminho.

A Casa Pretahub é a concretização de uma ideia que nasceu em 2002 como o primeiro co-working preto do país, mas não encontrou cenário para se desenvolver como negócio à época. Reformulada, se apresenta hoje como espaço compartilhado que oferece estrutura para a transformação digital de negócios criados por empreendedores negros, uma solução inovadora e única na América Latina.

Em cada cômodo, uma entrega. Loja colaborativa, ambiente para leitura, estudos e cursos. Galeria de arte negra. Estúdios de som, audiovisual e fotográfico para pessoas e produtos. Áreas gastronômicas para criar e vender. Área de eventos e espaço maker para prototipar tudo aquilo que a criatividade negra é capaz de criar. Tudo acomodado em um só lugar, no centro de São Paulo.

Quando se fala tanto na importância de criar comunidade em ambiente digital, será que esgotamos todas as possibilidades de seguirmos fomentando pessoas também nas redes offline, em espaços físicos - territórios - que potencializem justamente a digitalização de empreendedores negros que, historicamente, não tiveram investimentos públicos ou privados dedicados a esse letramento?

A casa ocupa 530 m² em dois andares de um prédio e nasce com o propósito de se tornar uma franquia social e ter o formato replicado em outros Estados, pois é assim que o povo preto transforma. Transformamos, compartilhando os saberes que consolidaram as bases do que nos trouxe até aqui: de forma criativa e circular em um fluxo contínuo que atravessa e retroalimenta gerações inteiras. Eu aprendo com você, que aprende comigo, que aprendo com você.

Em um modelo de negócio freemium — mistura do gratuito (free) com premium, os espaços poderão ser reservados sem custo no site da PretaHub, mas o serviço é pago para quem quiser utilizá-lo por mais horas ou dispor do auxílio de um técnico de som, uma produtora ou outros serviços. A mão de obra será fornecida 100% por empreendedores negros alocados no espaço.

É nesse ecossistema sustentável que a Casa Pretahub chega para empreendedores e criativos negros. Resultado, mas também processo. Uma rede de talentos negros nas mais diferentes áreas que criam, recriam e disponibilizam produtos e serviços que alimentam nossas identidades, nossas subjetividades e, também não deixemos isso de lado, nossos bolsos. Porque todo mundo quer é boleto pago, possibilidade de crescer e investir, seja no nosso negócio ou no que a gente quiser.

Para as marcas e pessoas físicas parceiras - hoje Extra, Facebook, Fundação Tide Setubal, Mercado Livre, Luciano Huck e Marcelo Rosembaum - uma oportunidade de desenvolver projetos especiais de educação, audiovisual, empreendedorismo e muitos outros em um ambiente diverso, acolhedor, funcional e tecnicamente impecável.

Condensando aprendizados de duas décadas de atividades da Feira Preta, a Casa é também o que costumo chamar de tecnologia preta aplicada. É o nosso jeito de fazer as coisas, fomentando iniciativas que se desdobram em movimentos sociais, culturais, econômicos e políticos.

Eu poderia também dizer que este novo território preto incrustado no centro da cidade funciona como um bioma, uma grande comunidade de diferentes formas de vida que se adaptam às condições locais e, a partir de impactos semelhantes ao longo de seu desenvolvimento, resultam em uma diversidade de novas formas de vida.

Mas abandonemos o grego que constitui a terminologia de bioma e recuperemos África: a Casa Pretahub funciona como um BAOBÁ, árvore da vida, pilar que une os mundos, testemunha do tempo.

A Casa Pretahub constrói hoje o futuro preto. Porque o Afrofuturismo acontece agora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.