Os segredos do povo mura

Como se alimentar melhor com os indígenas

Por Marcos Candido

Os mura são um povo indígena com cerca de 12 mil pessoas cujo território tradicional fica no estado do Amazonas, em municípios como Autazes e Borba. Ocupam diversas regiões no complexo hídrico dos rios Madeira, Amazonas e Purus. Eles têm uma dieta que pode ajudar o homem branco a refletir sobre o que põe no prato.
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A comida industrializada é chamada de "doenças de branco" pelos mura. Para eles, além de enfraquecer o corpo, são alimentos associados a diabetes e outras doenças. Para eles, a verdadeira comida não "chega fácil" no "prato" e deve ter como o papel fortalecer o ser humano.
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Entre junho e novembro, os mura se deslocam pelo território e se instalam por semanas na beira de lagos para a caça e pesca. A dieta inclui carne, mas também mingau, farinha e bebidas fermentadas. Mas o grande destaque é manhafã, um tubérculo que ajuda a contar a história do povo.
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O manhafã dá na terra sem ser plantado. É como se fosse uma batata gigante. É possível tirar um pedaço e comê-lo como uma fonte de carboidrato, para manter o corpo fortalecido. Os mura também o ralam e torram para transformá-lo no beiju, uma goma parecida com a tapioca.
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Segundo a antropóloga Marta Rosa, o manhafã é admirado com respeito pelos mura. Não à toa, o tubero é um sinal de que a terra está saudável, ou a "Terra Preta de Índio", em que plantas que são alimentos estão conectadas e prestes a oferecer comida em abundância.
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Os mura entendem que a alimentação é parte de uma filosofia em que todos os seres estão conectados. Em determinados momentos, estamos mais fragilizados e podemos nos enfraquecer. Assim, os mura têm dietas ou restrições alimentares para celebrar o nascimento de uma criança, a morte de um parente ou a entrada na puberdade.
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Nesta lógica, o manhafã indica uma forma de comer bem e se fortalecer antes mesmo do estilo de vida do homem branco. "É índice de um modo de vida que prescinde da agricultura sedentária", explica a antropóloga. As informações sobre o povo mura são parte do livro "Vozes Vegetais" (editora Ubu).
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A mesma lógica pode ser aplicada entre não indígenas. Basta pensar sobre por que comemos o que estamos comendo, qual é a origem dos alimentos que colocamos no prato, o quanto é preciso interferir na natureza para produzir nossa comida e qual a função deles para fortalecer o nosso corpo.
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O que os mura estão nos dizendo por meio do conhecimento e manejo desta batata gigante, cujo cipó os indígenas conseguem reconhecer na floresta, é que ainda temos muito a aprender com os povos tradicionais sobre a Amazônia

Marta Rosa,
Antropólga
Publicado em 26 de fevereiro de 2021.
Reportagem: Marcos Candido
Edição: Fernanda Schimidt