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Canja da galinha é "remédio" para ressaca carnavalesca. Aprenda a fazer

Canja de galinha é a melhor cura da ressaca pós-Carnaval - Getty Images
Canja de galinha é a melhor cura da ressaca pós-Carnaval Imagem: Getty Images

Claudia Dias

Colaboração para UOL

24/02/2020 04h00

Hambúrguer? Pizza? Cachorro-quente para fechar a noitada de carnaval? Não, não e não. Pelo menos no interior do país, a alternativa certeira para recuperar a energia gasta na maratona carnavalesca é uma bela canja de galinha - ou, no máximo, algum prato parecido, como galinhada e canjiquinha.

O costume não é de hoje. Tem bastante história e tradição por trás do hábito, que começou muito antes de Jorge Ben Jor registrar na música Engenho Novo, lá em 1993, o que toda avó diz para a família inteira desde sempre: dinheiro, prudência no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Restaurador, o prato costuma ser indicado em diferentes situações - da mulher em resguardo, pós-gravidez, até a quem está se recuperando de uma gripe devastadora ou algum outro problema de saúde. Isso porque é comida com sustância, apesar de bem leve.

A combinação dos carboidratos do arroz, das proteínas da carne e dos nutrientes dos legumes faz com que a canja seja quase um remédio à mesa. Isso sem contar que é um alimento que hidrata bastante, graças à quantidade generosa de caldo. Veja como fazer a receita mais clássica.

Canja de galinha  - Vinicio Augusto/ Divulgação - Vinicio Augusto/ Divulgação
Canja de galinha
Imagem: Vinicio Augusto/ Divulgação

Da Ásia com conexão em Portugal

Conta a história que a tradição de se consumir canja no Brasil remete ao período imperial. "Na época, após os bailes, a canja passou a ser servida devido ao grande apreço que D. Pedro tinha pelo prato", diz Eloize Augusta da Cruz, professora do curso de Tecnologia em Gastronomia, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Que a iguaria chegou através dos lusitanos instalados no Brasil, não há dúvidas. Mas sua origem está a pelo menos um oceano do continente europeu.

"Na verdade, é um prato asiático, que chega em Portugal em algum momento, por causa da colonização portuguesa na Ásia. E o que chega até nós, no Brasil, é uma tradução portuguesa deste prato", observa Maurício Lopes, professor de técnicas de cozinha do curso de Gastronomia da Universidade Mackenzie.

Mineiro de nascimento, ele tem uma conexão forte com essa tradição gastronômica, já que o estado de Minas Gerais é um dos lugares em que o costume da canja na madrugada se mantém vivo até hoje, assim como em outros pontos da região sudeste, bem como no sul do país - ou seja, lugares com a cozinha caipira bastante parecida - e, ainda, no nordeste brasileiro.

Canja tem tradição no Brasil e em muitos outros países - Getty Images - Getty Images
Canja tem tradição no Brasil e em muitos outros países
Imagem: Getty Images

Desbancando o porco

"O frango tem papel importantíssimo na nossa história e em Minas Gerais, principalmente. Quando Minas entrou em decadência, o frango substituiu o porco, que era a carne mais nobre até então. Assim, o frango, o ovo, a galinha, que se desenvolvem rapidamente, começaram a substituir nossa proteína do dia a dia, o que fez toda a diferença para o surgimento de várias receitas utilizando a ave", acrescenta Maurício.

O fato de a canja ser sempre consumida no fim do dia, por ser considerada um prato leve, é um dos motivos que levaram à tradição das madrugadas de carnaval. "Tem, também, uma ligação com o calendário religioso, porque foi ganhando espaço nas festividades da igreja. Além disso, Carnaval também tem relação com esse calendário", observa o professor da Mackenzie. Para quem não lembra, o primeiro dia da Quaresma é a Quarta-feira de Cinzas, logo após o fim da festa popular.

Da canja à galinhada

Os primeiros registrados gastronômicos são da canja, mas logo apareceu a galinhada (veja como fazer), que nada mais é do que versão enxuta do primeiro prato, sem o caldo.

Galinhada - Bruno Marconato/ Divulgação - Bruno Marconato/ Divulgação
Galinhada
Imagem: Bruno Marconato/ Divulgação

Tanto uma quanto a outra são abraçadas pelo clima festivo, já que costumam ser preparadas madrugada adentro, com a turma reunida na cozinha - e, muito provavelmente, sob efeito do álcool.

Além do caldo, outro ponto que difere os dois pratos é que, enquanto a canja é basicamente a reunião de frango, arroz, batata e, no máximo, cenoura e temperinhos, a galinhada costuma ser adaptada com ingredientes da região em que é preparada.

"A galinhada goiana leva cúrcuma e pequi; já a mineira tem frango caipira, pimentão e cheiro-verde", exemplifica o chef Henrique Escabia, consultor da Sabor das Índias.

Ele lembra que a facilidade de preparar o prato combina bem com o momento carnavalesco. "É uma preparação única, fácil e rápida, usando apenas uma panela. Tem um custo baixo, por se tratar de arroz e galinha, e do ponto de vista nutricional também é muito boa, contendo carboidratos, proteínas e gorduras, o que sustenta e aquece o corpo", resume.

Aliás, dica do chef: se preparada em panela de ferro ou barro, a galinhada fica ainda melhor.

Canjiquinha também é tradição

Canjiquinha - Divulgação - Divulgação
Canjiquinha
Imagem: Divulgação

Enquanto a canja se destaca no terreno gastronômico cultural, seguida pela galinhada, um terceiro prato que é igualmente bem-vindo para fechar o clima de folia é a canjiquinha (receita fácil de fazer) - conhecida também como canjiquinha de xerém ou quirerinha.

Neste caso, além de frango ou galinha, costuma levar algum tipo de carne suína, seja linguiça ou costelinha, mais molho de tomate.