Tempra: o "carro-ostentação"

Primeiro sedã médio da Fiat no Brasil era sinônimo de luxo e virou objeto de desejo de quase uma década

Rodrigo Mora Colaboração para o UOL
Divulgação Fiat/Arte UOL

Um 'quase' grã-fino chega ao Brasil

Copa do Mundo de 1990, Itália. A 'Squadra Azzurra' era um timaço. Foi dela que saiu o artilheiro do torneio: Salvatore "Totó" Schilacci, com seis gols. Era uma das favoritas ao título e foi bem até ser derrotada na semifinal pela Argentina nos pênaltis por 4 a 3, após empate por 1 a 1.

Alegrias na Fórmula 1 também não eram possíveis. O último italiano a vencer o campeonato havia sido Alberto Ascari, em 1953. E o último título da Ferrari tinha sido conquistado em 1979, com o sul-africano Jody Scheckter.

Decepcionado com duas de suas grandes paixões, o italiano podia ao menos afogar as mágoas em um novo e imponente carro: o Fiat Tempra, que substituiu o Regata em meados de 1990 com personalidade no design, conforto, boa dirigibilidade e espaço interno.

Novidade que também chegou no momento certo ao Brasil, que reabria a importação de veículos que estava suspensa desde 1976 e passava a receber modelos luxuosos e sofisticados como BMW, Porsche e Mercedes. O Tempra, lançado por aqui em novembro de 1991, chegou durante esse frenesi - e talvez seu maior mérito tenha sido o de circular entre tantos grã-finos parecendo um deles.

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Chegada em grande estilo

Com o lançamento do Tempra, a Fiat entrava para o mercado de sedãs médios pela primeira vez no Brasil. E em grande estilo: com portas avançadas sobre o teto, limpadores do para-brisa ocultados sob o capô e retrovisores com a fixação vazada, seu coeficiente aerodinâmico de 0,32 era um dos mais baixos à época.

Os faróis retangulares tinham design simples, mas o conjunto formado com a grade frontal rente era imponente. Até porque tinham que acompanhar a marcante traseira alta - que de tão bem resolvida recebeu apenas lanternas ligeiramente redesenhadas na luz de ré na reestilização que viria anos depois.

Espaço interno sempre fora um trunfo da Fiat, mas o nível do acabamento interno era até desconhecido para um cliente da marca. Pudera, pois por aqui o Tempra chegou como topo de linha da marca. O tecido dos bancos era polpudo, macio e elegante. O painel era completo, e pela primeira vez num Fiat o toca-fitas vinha de fábrica. Outras surpresas eram o travamento central das portas e os ajustes de altura do banco do motorista e do volante.

Modernidade com carburador

Eram duas versões. A básica tinha o emblema "Tempra" escrito em prata. Na mais luxuosa, era dourado. Hoje soa estranho, mas um carro tão moderno para a época chegou aqui com carburador. Era um 2.0 de oito válvulas de comando duplo, que rendia 99 cv e 16,4 torque, sempre acoplado a um câmbio manual de cinco marchas.

As suspensões eram independentes, sendo a traseira emprestada do primo distante Alfa Romeo 164. As rodas de 14 polegadas eram calçadas em pneus 195/60.

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"Um dos mais desejados"

Em 1992, como ano-modelo 1993, a versão duas portas reafirmava o caráter jovial e esportivo do Tempra. A principal novidade, que decretou o Tempra como um dos nacionais mais desejados dos anos 1990, foi a versão 16V. Dotado não de carburador, mas de injeção eletrônica, o 2.0 multiválvulas tinha 127 cv e 18,4 kgfm de torque. As rodas passaram para 15 polegadas.

Era o bastante para enfrentar rivais até de nível superior, como o Chevrolet Omega. Na edição de maio de 1993 da revista "Quatro Rodas", o Tempra Ouro 16V não se intimidou e brigou valentemente com o rival mais potente e maior, em sua versão CD 3.0. Perdeu por pouco.

O Tempra chegou à linha 1995 dispensando o carburador no modelo de entrada para assumir a injeção eletrônica. Nascia então a versão i.e., de 105 cv. Grade e painel redesenhados marcavam a nova fase. Em 1996, ganhou faróis de perfil mais baixo e a lanterna traseira com novo formato para a luz de ré. Dois anos depois, a derradeira e mais infeliz atualização acabou com o brilho que restava ao Tempra, que já passava o bastão para o Marea.

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Os 'turbinados'

Primeiro foi o Uno Turbo. Logo na sequência veio o Tempra Turbo, em abril de 1994. Carroceria duas portas, rodas exclusivas, spoiler traseiro e pintado no vermelho mais berrante que a Fiat tinha.

O motor 2.0 8V contava com um turbo Garrett com 0,8 bar de pressão, que elevava a potência para 165 cv e o torque para 26,5 kgfm. Resultado: máxima de 220 km/h e 0 a 100 km/h em 8,2 segundos, segundo a Fiat. As suspensões eram mais firmes, sendo a traseira acompanhada por barras estabilizadoras mais espessas. E ainda era bem equipado, com ar-condicionado digital, alarme e vidros elétricos do tipo "um toque".

Mas durou pouco - o que eleva seu nível de "colecionabilidade" hoje em dia. O consumidor brasileiro não queria sedãs de duas portas, mesmo que fosse um esportivo. E então a versão Stile substituiu o Turbo usando o mesmo conjunto mecânico, mas com portas para os passageiros de trás.

Foi mais longe, se despedindo em 1997, antes da última tentativa de dar uma sobrevida ao Tempra.

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Perua do Tempra

Lançado no fim de 1994, o Tempra SW (station wagon) era apenas importado, pois a Fiat sabia que venderia poucas unidades - o que não justificaria uma produção local.

O motor 2.0 era o mesmo do Tipo SLX, injetado, de 109 cv. O painel digital também vinha do hatch.

Tempra e seus sucessores

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Marea: 1998 a 2007

A Fiat tinha altas expectativas em torno do Marea. Lançado dois anos antes na Europa, ele era vendido nas carrocerias sedã e perua, ambas com design atraente e um moderno motor 2.0 de 20 válvulas e cinco cilindros, que entregava 142 cv. A versão Turbo tinha 182 cv e era um dos carros nacionais mais velozes da época. Entretanto, a manutenção complexa e alguns problemas crônicos do projeto mancharam a reputação do Marea, descontinuado em 2007 quase no ostracismo.

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Linea: 2008 a 2016

O Punto serviu de base para o projeto do Linea, sedã lançado em 2008 com a missão quase impossível de encarar Honda Civic e Toyota Corolla. Apesar do design elegante, o sedã patinou nas motorizações 1.9 16V (sem câmbio automático, apenas o controverso automatizado Dualogic) e 1.4 turbo de 152 cv, esta oferecida somente com transmissão manual. Reestilizado em 2014, o sedã acabou enfrentando modelos de uma categoria inferior, como Honda City e Ford New Fiesta Sedan.

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Cronos: 2018 -

A Fiat não atua mais no segmento de sedãs médios no Brasil. Atualmente seu sedã topo de linha hoje é o Cronos, primeiro (e até hoje único) modelo derivado do Argo. A versão mais cara é a "pseudo-esportiva" HGT, que parte de R$ 78.490 e traz o mesmo motor 1.8 16V etorQ de até 139 cv, associado ao câmbio automático de seis marchas - o mesmo conjunto da versão Precision. Sinal dos tempos: mesmo não sendo um médio, suas dimensões são similares às do Tempra.

Os amantes de Tempra

"Carro mais prazeroso"

Octávio Augusto: "O Tempra foi meu primeiro carro, um 2.0 16V 1996. Fiquei com ele por oito anos e rodei mais de 100.000 km. Entretanto, nunca consegui lhe dar a manutenção adequada, por falta de mão de obra qualificada. Até que eu mesmo baixei diversos manuais de reparação e passei a gravar os vídeos das manutenções que realizei, o que deu origem ao meu canal no Youtube, o Garagem do Tempra".

"Amor de infância"

Alan Brito: "Era 1997, e meu padrinho adquiriu um Tempra i.e. 1995 Azul Gurundi. Foi um carro em que andei muito e, mesmo com 7 anos naquela época, eu lembro de vários detalhes. Em 2013 surgiu a oportunidade e adquiri um Tempra Ouro 16V 1993. O painel com apliques em madeira estava intacto, e logo enxerguei um potencial para restauração. Foi uma longa empreitada, desde o desmonte até a revisão mecânica e elétrica completa".

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