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Opala nunca emplacado vira amuleto e resiste em concessionária há 34 anos

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

24/06/2022 04h00

Carros antigos originais e pouco rodados são como cápsulas do tempo e, dependendo do modelo, podem atingir preços estratosféricos no mercado de veículos clássicos. Um exemplar modelo 1988 do Chevrolet Opala guardado em concessionária de Pernambuco há 34 anos, nunca emplacado nem faturado, é uma dessas joias preservadas.

O veículo, que não está à venda, é do último ano com carroceria cupê e traz motor 4.1 a álcool de seis cilindros em linha, câmbio manual, pintura vinho e interior escuro. Esse Opala Diplomata foi adquirido zero-quilômetro por Severino Nunes, então dono e fundador da concessionária Caxangá Veículos, uma das mais tradicionais do Recife (PE) e que virou xodó e amuleto do empreendimento.

Carro brasileiro mais luxuoso no fim da década de 1980, o Diplomata foi exposto durante décadas em datas festivas no showroom da concessionária recifense até Severino falecer, há uma década. Atualmente, o automóvel está sob a guarda de um dos netos do empresário em outra concessionária da família, localizada em Carpina - cidade da Zona da Mata a cerca de 50 km da capital pernambucana.

Administrador da Chevrolet Autobelo, onde o Opala é mantido com pouco mais de 90 km rodados, Diego Nunes conta a UOL Carros que o cupê só deixa o local para ser limpo ou reabastecido e passa a maior parte do ano longe dos olhos do público. Hoje está exposto por se tratar do mês das festas juninas, muito tradicionais no Nordeste.

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"O carro vai para o salão somente nessas épocas de festa. No restante do tempo, fica em um depósito da própria concessionária, protegido por uma capa", conta Diego, que tem 37 anos, quase a mesma idade do Diplomata.

Chevrolet Opala Diplomata 1988 hoje é exibido em concessionária de Carpina, na Zona da Mata pernambucana Imagem: Arquivo pessoal

Segundo o empresário, seu avô Severino decidiu preservar o Diplomata sem uso ao saber que aquela seria a última unidade cupê a chegar à Caxangá Veículos - o modelo de luxo ainda seria produzido até 1992, contudo apenas com carroceria sedã, de quatro portas.

Diego Nunes explica que seu avô tinha ciúmes do carro e não liberava uma voltinha nem para os parentes mais próximos.

Diplomata é do último ano de fabricação da carroceria cupê e nunca passou por nenhum tipo de restauração Imagem: Arquivo pessoal

"Quando avisavam que tinha alguém na concessionária querendo o Diplomata emprestado, ele chegava a se esconder. Se alguém da família ia casar, vovô preferia ceder o Monza ou o Omega da sua coleção particular", relata.

Diego acrescenta que, na época em que ficava na Caxangá, o Opala servia como chamariz para a venda de outros veículos e até de amuleto quando os negócios não iam tão bem.

Em foto recente, hodômetro exibe apenas 96,5 km rodados; Opala Diplomata não chegou a ser faturado Imagem: Arquivo pessoal

"Meu avô alisava o capô e o teto do Opala para trazer sorte em tempos de movimento fraco. Pelo visto, a tática dava certo, pois ele recebeu vários prêmios da General Motors devido às vendas individuais da concessionária".

Foi em uma dessas premiações, relembra o herdeiro, que um executivo da GM acabou danificando sem querer a raridade, há muitos anos. De acordo com ele, o figurão quis conferir o motor de seis cilindros e se esqueceu de prender o filtro de ar antes de fechar o capô.

Severino Nunes (à dir.), também conhecido como Biu Belo, comprou o Diplomata 0 km há 34 anos Imagem: Arquivo pessoal

Um parafuso solto acabou acertando a tampa do compartimento do motor, que ficou amassada e permanece assim até hoje.

"Ele preferiu não repintar o carro para mantê-lo totalmente original", afirma, sem lembrar o nome do executivo nem o ano em que o dano aconteceu.

Quanto vale o Opala 0 km

Interior já não tem os plásticos de fábrica, mas exibe excelente estado, considerando os 34 anos do carro Imagem: Arquivo pessoal

Além desse detalhe, mesmo zerado o Diplomata tem outras pequenas imperfeições que não impediram a família Nunes de receber uma oferta de R$ 180 mil pelo carro há cerca de dois anos - imediatamente recusada, afirma Diego.

"Acho muito difícil meu pai querer vender, foi ele quem fez questão de ficar com o Opala depois da morte do meu avô. Não é por ser um carro praticamente zero, e sim pela nostalgia, pelo que ele representa"

Consultado por nossa reportagem, o leiloeiro Joel Picelli, da Picelli Leilões, estima que o automóvel em questão valha bastante dinheiro.

"É difícil falar em preço por se tratar de uma peça única. Provavelmente, não existe outro Diplomata cupê 1988 vinho zero-quilômetro. Se eu tivesse que dar uma estimativa, é um Opala com valor entre R$ 250 mil e R$ 350 mil, se aparecer o comprador certo", projeta o especialista.

Já Silvio Luiz, proprietário da loja Old is Cool Motors, é mais conservador.

"O dono pode pedir o preço que desejar, pois não existe outro igual. Contudo, encontrar gente disposta a pagar o valor pedido é outra história. De fato, o Opala cupê subiu bastante de preço desde o início da pandemia, saltando de R$ 50 mil, R$ 60 mil para cerca de R$ 150 mil. Contudo, nos últimos dois meses tenho visto o mercado travar para esse clássico, os preços subiram demais".

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