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Por que Chevrolet Onix "bom demais" virou problema para retomar a liderança

Chevrolet Onix RS - Divulgação
Chevrolet Onix RS Imagem: Divulgação

Julio Cabral

Do UOL, em São Paulo

02/06/2022 13h25

Líder de mercado por seis anos entre 2015 e 2020, o Chevrolet Onix vive há meses uma nova realidade. Mas por que o ex-campeão de vendas não consegue retomar a primeira colocação e tem visto outros rivais ocuparem seu espaço? O UOL Carros conversou com analistas, vendedores da rede e com a própria General Motors para tentar entender a situação atual do hatch compacto.

Primeiramente, é importante ressaltar que, mesmo fora da liderança, o Onix permanece no top 3 na lista dos mais vendidos neste ano. Com 29.901 unidades comercializadas nos primeiros cinco meses de 2022, o hatch da Chevrolet ocupa a terceira colocação no acumulado do ano, atrás apenas de Fiat Strada e do arquirrival Hyundai HB20 - de acordo com dados da Fenabrave.

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Em maio, o HB20 se tornou líder isolado ao atingir 9.634 unidades vendidas no mês, contra 6.982 do terceiro colocado Onix hatch - ele ficou à frente do veterano Gol por apenas duas unidades. O Fiat Mobi conseguiu atingir 7.493 vendas e apareceu na vice-líder entre carros de passeio no mês. Aqui cabe um adendo: o Onix Plus está indo melhor no seu segmento, com 5.647 carros vendidos no período contra 3.003 do Hyundai HB20S.

Se os números não são ruins, estão distantes dos tempos em que o Onix liderava com folga o mercado. Em 2020, foram 54.036 carros comercializados no acumulado até maio daquele ano, face 38.978 no mesmo período de 2021 e 29.901 neste ano. Na mesma janela de tempo, de janeiro a maio de 2022, o Hyundai HB20 teve 34.897 vendas.

Problema na fabricação e entrega do Onix, que já assolaram a produção do veículo em 2021 (quando ficou quase seis meses sem ser feito), seria um dos empecilhos para que o hatch da GM voltasse por completo aos seus dias de glória.

Em conversa com vendedores das concessionárias da marca, que preferiram não se identificar, eles adiantaram que a entrega dos veículos deve sofrer novos problemas. O motivo seria mais uma paralisação temporária da produção, motivo pelo qual muitas entregas previstas pelos profissionais consultados foram atrasadas. Um novo aumento de 1,5% aplicado nesta semana não estaria entre os fatores de dificuldade.

De acordo com as fontes ouvidas, ainda há um outro empecilho previsto para acontecer em breve. Depois de restringir a oferta de itens de série em outras versões, especialmente o wi-fi, o risco é de que parte dessa conectividade e outros itens estejam ameaçados, algo não confirmado pela General Motors.

Outro item com futuro incerto, segundo eles, é o carregador por indução (sem fio) de smartphones. É necessário ressaltar que o ar-condicionado digital já havia virado opcional de R$ 1 mil, contudo, ele é impossível de ser encontrado, virou acessório fantasma. Nem os vendedores conseguem encomendar. Todos foram unânimes ao afirmar que descontos estão fora de questão. "Não temos como garantir sequer que os modelos que vendemos sob encomenda serão entregues com as mesmas especificações", afirma um deles.

Há cerca de três semanas, alguns vendedores já afirmavam que o negócio era comprar o que ainda havia de estoque, que fora restabelecido no lançamento da linha 2022/2023. E que os preços poderiam aumentar nos próximos lotes, uma tendência que atinge o Chevrolet e quase a totalidade dos carros. Achar um Onix para pronta entrega agora demanda um esforço parecido do exigido para quem deseja comprar um videogame de nova geração.

"Também não podemos confiar na entrega do próximo lote. O carro deve ter a produção atrasada a partir deste mês", revela um vendedor de uma grande rede da marca. Os funcionários das revendas conversaram com a reportagem na condição de anonimato.

Procurada pelo UOL Carros, a GM se limitou a enviar uma nota oficial. "Estamos monitorando constantemente a situação da cadeia global de suprimentos, que ainda tem demonstrado imprevisibilidade. Seguimos trabalhando ativamente com nossos fornecedores para mitigar potenciais impactos na produção e tomando medidas adequadas para atender às demandas dos clientes".

Carros se tornaram 'bons demais'

Especialistas procurados pelo UOL Carros foram unânimes ao analisar o momento atual do Onix: alguns carros ficaram "bons demais" para continuarem como estão. É a chamada crise dos semicondutores, algo que aflige até automóveis bem mais caros, caso do Audi A3 de nova geração, que deveria ter vindo com assistentes semiautônomos e não traz sequer sensor de ponto cego - algo presente no Onix Premier.

"Acho bem possível a ligeira paralisação, pois a Chevrolet já passou cinco meses sem produzir por falta de componentes. Sem dúvida isso afeta a habilidade da GM de preencher a ambição de primeiro lugar. Quando eles deixam de produzir algum veículo ou equipamento instalado, acredito que seja por falta dos componentes", analisa Cassio Pagliarini, diretor de estratégia da Bright Consulting.

O especialista também ressalta que a Hyundai e Fiat têm uma vantagem no fornecimento de semicondutores. "A Hyundai tem as suas negociações de semicondutores diretamente com os fornecedores sul-coreanos. Você pode ver que os asiáticos têm negociações melhores, exemplo da Toyota, que está fogo total. Nissan não para, a Honda também está acelerada", explicou Cassio.

"Quem gerenciou melhor foram as americanas e europeias. Por que a Stellantis foi também favorecida e continuou a pleno vapor. Porque a direção geral da empresa tem uma posição muito favorável, o Brasil é o único lugar que a Fiat é líder e todas as marcas do grupo estão crescendo, ou seja, a multinacional priorizou as entregas para a região", completou.

Ricardo Bacellar, conselheiro da SAE Brasil, ressalta que a crise dos semicondutores está longe de terminar. "A primeira promessa de normalização era até a metade do ano passado, passou para o final de 2021, primeiro trimestre de 2022 e, agora, a projeção mais atualizada diz que será apenas no início de 2023".

A explicação não é simples, mas passa pelo home office, como enumera Erwin Franieck, diretor-presidente do instituto SAE4Mobility. "O que aconteceu: toda essa recuperação da indústria da informática, computadores, mídia e televisão. A demanda deles não caiu e ela está super pressionada. Fabricantes coreanos e japoneses tinham fabricantes locais com amplos contratos e não houve tanta quebra na cadeia, eles estão ligados à base onde são produzidos esses modelos".

"Enquanto os que tem essa dependência muito forte da Ásia, a Europa e América são os que mais sofreram pela rearranjo da demanda. Agora é um processo lento, e cada um tem um problema de fornecimento", concluiu.

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