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Gol xodó de Richthofen virou carro do crime e só foi vendido 4 anos depois

Cristian Cravinhos há quase 20 anos, na reconstituição do assassinato dos pais de Suzane von Richthofen com VW Gol dela - Tuca Vieira/Folhapress
Cristian Cravinhos há quase 20 anos, na reconstituição do assassinato dos pais de Suzane von Richthofen com VW Gol dela Imagem: Tuca Vieira/Folhapress

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

29/09/2021 04h00Atualizada em 29/09/2021 13h27

Condenada pelo envolvimento no assassinato dos próprios pais, que chocou o Brasil em outubro de 2002, Suzane von Richthofen voltou a ser um dos assuntos mais comentados e compartilhados nas redes sociais. O catalisador de tanto interesse são os filmes "A Menina que Matou os Pais" e "O Menino que Matou Meus Pais", lançados simultaneamente pela plataforma de streaming Amazon Prime.

Nas duas produções, que trazem Carla Diaz no papel de Suzane, um Volkswagen Gol dourado chama a atenção do público. Foi em um carro idêntico que a então estudante de direito levou Daniel Cravinhos, seu namorado na época, e o cunhado Cristian Cravinhos para a mansão da sua família no Brooklin, bairro da Zona Sul da capital paulista.

Foi lá que os dois irmãos, que ingressaram escondidos no imóvel, mataram o casal com golpes de barras de ferro, enquanto os dois dormiam no quarto.

Hoje com 37 anos e cumprindo pena em regime semi-aberto no interior de São Paulo, Suzane von Richthofen ganhou o Gol Highway 2002 zero-quilômetro dos pais, Manfred e Marísia, meses antes, como presente pela sua aprovação no vestibular para cursar Direito.

O hatch, inclusive, virou evidência do crime. Em fotos que ilustram esta reportagem, o mesmo Volkswagen é usado na reconstituição do assassinato, com as participações dos três envolvidos. Na descrição da reconstituição que faz parte do processo, Suzane, ao dar sua versão para os fatos, diz, ao se deparar com o veículo na garagem da residência:

"Olha, é meu carro mesmo!"

Suzane queria vender carro após prisão

Suzane tentou vender seu VW Gol 2002 após prisão, mas o carro estava registrado em nome do pai - Arquivo pessoal/Ullisses Campbell - Arquivo pessoal/Ullisses Campbell
Suzane tentou vender seu VW Gol 2002 após prisão, mas o carro estava registrado em nome do pai
Imagem: Arquivo pessoal/Ullisses Campbell

UOL Carros teve acesso a algumas fotos do Gol que integram o processo judicial, gentilmente cedidas pelo jornalista Ullisses Campbell, autor do livro "Suzane - Assassina e Manipuladora", lançado em 2020 pela Editora Matrix - segundo ele, a obra se baseou nos autos do caso e também em entrevistas com Cristian Cravinhos, preso em regime fechado, e advogados dos condenados. Daniel e Suzane não quiseram participar diz.

Em conversa com nossa reportagem, Campbell conta, com base nas respectivas apurações, que o Gol de Suzane estava registrado em nome do pai dela quando os assassinatos aconteceram. Isso a impediu de vender o carro, único bem ao qual em tese teria acesso, após ser presa, explica.

"Esse Gol ficou cerca de quatro anos parado na garagem, juntamente com a Chevrolet Blazer verde-escura 1997 de Marísia, sob a guarda de um tio paterno de Suzane, que ficou encarregado do patrimônio da família. O VW só foi vendido em 2006".

Os irmãos Cristian e Daniel Cravinhos e Suzane após confessarem o duplo assassinato em 2002 - Luciana Cavalcanti/Folhapress - Luciana Cavalcanti/Folhapress
Os irmãos Cristian e Daniel Cravinhos e Suzane após confessarem o duplo assassinato em 2002
Imagem: Luciana Cavalcanti/Folhapress

Segundo o escritor, o Gol que ela dirigiu com os irmãos Cravinhos até a garagem da mansão naquele dia foi um pedido específico da então estudante universitária.

"Suzane mentiu para os pais, que eram contrários ao namoro, dizendo que tinha terminado com Daniel e passaria a se concentrar nos estudos para o vestibular. Foi então que combinou com eles que, caso fosse aprovada, ganharia o Gol. E isso aconteceu".

Campbell acrescenta que um diálogo entre pai e filha sobre o veículo, que aparece em um dos filmes, é peça de ficção. De acordo com o jornalista, diferentemente do que sugere o longa, Manfred não disse que a filha ganharia um carro melhor, equipado com ar-condicionado, caso fosse aprovada na seleção para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP - Suzane passou no mesmo curso, só que na PUC-SP.

O jornalista acrescenta que ela usava o carro com bastante frequência, inclusive para levar para o colégio e depois para buscar Andreas, seu irmão mais novo - sem contar os encontros com o namorado, Daniel.

Fotos do carro tiradas pela polícia após os assassinatos mostram mais de 12 mil km rodados no hodômetro.

A noite do crime

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Segundo o livro de Ullisses, no fim da noite de 30 de outubro, pouco antes de Manfred e Marísia serem mortos, já na madrugada, Suzane buscou o namorado e o cunhado no Volkswagen.

Na volta, rumo à casa dos pais, Daniel assumiu a direção, mas não por muito tempo: muito nervoso, teria quase batido o veículo. Foi então que ela, sentada no banco do carona, ordenou que ele parasse o compacto para ela voltar a dirigi-lo. Cristian seguia no banco de trás, calado. No trajeto, todos fumaram maconha dentro do veículo, diz a publicação.

Antes de chegarem ao destino, Suzane repassou as instruções aos dois:

"Vocês têm de entrar na casa sem fazer qualquer barulho! Tem de ser tudo muito rápido, rápido e rápido! Não podemos ficar na casa por mais de meia hora. Entenderam?!

Sempre de acordo com o autor, Cristian ainda tentou dissuadir a cunhada e o irmão de seguir com os planos. Ela o mandou "calar a boca" e disse que "enquanto não matá-los, não serei uma pessoa feliz".

Suzane von Richthofen em saída temporária da prisão antes do início da pandemia do coronavírus - Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo - Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo
Suzane von Richthofen em saída temporária da prisão antes do início da pandemia do coronavírus
Imagem: Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo

O trio chegou à Rua Zacarias de Góis, 232, por volta de 23h, e Suzane abriu o portão eletrônico e entrou na garagem com os faróis apagados.

Em seguida, desceu do Gol e disse aos dois que aguardassem, enquanto ela se certificava de que seus pais estavam dormindo.

Logo deu o sinal verde: "Venham!". Os porretes de metal estavam guardados no porta-malas.

Antes disso, eles já tinham tirado Andreas da residência, que ficou os aguardando em uma lan house perto dali.

Após o duplo homicídio ser consumado, os três deixaram a mansão novamente a bordo do Gol, a fim de buscar o irmão de Suzane.

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