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Mais chamativo que Ferrari: como é dirigir (e manter) um DeLorean no Brasil

Das telas para a garagem: DMC DeLorean foi estrela do filme De Volta Para o Futuro e hoje está na garagem de fã - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia
Das telas para a garagem: DMC DeLorean foi estrela do filme De Volta Para o Futuro e hoje está na garagem de fã Imagem: Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia

Rodrigo Lara

do UOL, em São Paulo

06/05/2021 04h00

Quando "De Volta Para o Futuro" estreou nos cinemas, em 1985, uma de suas principais estrelas já estava aposentada. Pode parecer incoerente, eu sei, mas o principal parceiro de Marty McFly (Michael J. Fox) e de Emmett Brown (Christopher Lloyd) em suas aventuras pelo tempo já não era produzido há três anos.

Falo aqui, claro, do DMC DeLorean, um dos personagens mais importantes - se não o principal - da série cinematográfica. No longa, ele era uma máquina do tempo de visual bastante arrojado e que, vira e mexe, enfrentava algum problema mecânico que só tornava a aventura dos protagonistas ainda mais emocionante.

Mesmo sendo um carro fora de linha à época, o DeLorean virou, claro, sonho de consumo dos fãs de "De Volta Para o Futuro". E um deles, o locutor e músico Fernando Silotto, de 42 anos, teve a oportunidade de colocar um deles em sua garagem.

"Eu sempre fui fã dos filmes desde criança e meu primeiro contato com o carro foi no parque da Universal Studios, nos anos 1990. Anos depois, em 2013, eu descobri que um vizinho meu tinha um DeLorean, que vivia coberto por uma capa. Quando eu pude ver ele sem capa, eu fiquei em choque!", conta Silotto.

A partir daí, uma das metas da vida do músico foi estacionar um DeLorean na sua garagem. "Eu achava que era quase impossível achar um aqui no Brasil, mas consegui realizar esse sonho em 2016", relembra.

DMC DeLorean - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia
Modelo foi vendido entre 1981 e 1982, tem linhas arrojadas e carroceria recoberta por aço inoxidável
Imagem: Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia

Inicialmente, Silotto tentou trazer o carro por importação, mas a tarefa se mostrou bastante complicada. Ele acabou encontrando dois exemplares: um à venda em Santos (SP) e outro em Caxias do Sul (RS). "Eu cheguei a visitar o que estava à venda no Sul, mas o negócio não andou. Depois de voltar para São Paulo, vi que o anúncio do carro de Santos havia sido retomado e fui atrás. Do lado de fora, o carro estava bonito, mas havia muito a se fazer na parte mecânica. No fim, foi bom porque deu para negociar. E, além de tudo, eu estava realizando um sonho".

Despertando o Dr. Brown

Com o DeLorean em mãos, era hora de deixar o carro com a manutenção em dia para rodar por aí.

"Das coisas que tinha para fazer no carro, que estava parado fazia tempo, eu tive que rever toda a parte de freio e também a caixa de direção. A partir daí, levei em um mecânico para fazer uma revisão completa e, depois dela, o carro já estava bem legal", explica.

Como todo bom carro antigo, o DeLoren de Silotto apresentou alguns problemas. O que ele fez, então, foi despertar o seu lado Doutor Brown e colocar a mão na massa.

Para isso, ele conta que passou muitas horas pesquisando em fóruns dos Estados Unidos. "Baixei todos os manuais e comecei a mexer por conta no carro. Era uma novidade para mim, já que envolvia fazer várias coisas que nunca tinha feito na vida. No primeiro ano eu praticamente desmontei ele inteiro e resolvi diversos problemas elétricos, algo comum no DeLorean. A ideia era deixar o carro confiável e eu consegui".

DMC DeLorean - capacitor de fluxo - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia
Apesar de ter uma réplica do capacitor de fluxo, o DeLorean de Silotto infelizmente não é capaz de viajar no tempo
Imagem: Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia

Com o DeLorean rodando bem, era hora de dar um "up" na aparência. Para isso, foi feito detalhamento na carroceria de inox, o que inclui um escovamento e outros procedimentos exclusivos para esse material.

Silotto também investiu em algumas melhorias na parte mecânica do carro.

"Mudei escape e coletores, já que os originais têm muitas restrições. Além disso, também instalei um kit de suspensão que é vendido nos EUA especificamente para o modelo. E, por fim, coloquei um kit de molas personalizado desenvolvido aqui no Brasil. A altura e a dirigibilidade ficaram incríveis depois disso".

DeLorean ganhou até beijo

Silotto conta que dirige o carro praticamente toda semana, mas que a pandemia afetou algo que ele curtia fazer, que eram encontros de carros antigos.

"São vários pontos que me agradam no modelo, mas no visual, eu gosto muito das portas asa de gaivota, que realmente facilitam o acesso, especialmente em um carro bastante baixo. O motor também é legal. Ele não é muito forte em arrancadas, mas feitas as mudanças para o carro se adaptar ao nosso combustível, eu gosto muito do comportamento dele em estrada", diz.

Mesmo com esse elogio ao motor, Silotto não descarta possíveis melhorias nesse quesito no futuro. "Uma troca de comando já deixaria ele bem mais esperto. E quem sabe um turbo no futuro, apesar que me falta coragem para mexer tanto, já que o carro está rodando perfeitamente".

Aqui, fica a dúvida: será que ele estaria com medo de chegar a 88 milhas por hora e acabar indo parar em outra época?

DMC DeLorean - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia
Interior do modelo recebeu alguns detalhes para deixar o carro mais próximo do visto em "De Volta Para o Futuro"
Imagem: Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia

Brincadeiras à parte, é de se imaginar que o DeLorean chame a atenção por onde passa. "Não tem nada mais chamativo do que esse carro, nem mesmo uma Ferrari. E não fica aquela coisa de ostentação, é uma atenção positiva. Parece que você está do lado de uma celebridade de Hollywood, a gente acaba conhecendo muita gente".

Em um desses passeios, Silotto conta que estava chegando em casa e passou por um episódio bastante inusitado.

"Uns quarteirões antes de chegar em casa, um cara viu o carro e ficou maluco. Não parava de gritar. Quando cheguei em casa, ele chega, correndo atrás do carro e quase chorando. Era um dia muito quente. Ele pediu para tirar foto e fez um pedido estranho: 'posso beijar o carro?'. Falei que sim e ele fez, mas acabou queimando a boca no inox que estava muito quente".

Entre sessões de manutenção em casa e passeios, Silotto tem uma certeza: ter um DeLorean parado na garagem é um daqueles casos de sonho de infância que vira realidade. "É um carro que transformou minha vida. Eu me belisco todos os dias para ver se estou sonhando".

Além do cupê, ele também adquiriu recentemente uma picape Toyota Hilux e a caracterizou com o mesmo visual que a Hilux SR5 que Marty McFly ganha no final do primeiro filme. "Achei uma em bom estado e pretendo rodar com ela no dia a dia. Estou muito feliz e agora eu só ando de carro antigo", brinca.

Fernando Silotto posa ao lado de DeLorean e Hilux de De Volta Para o Futuro - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia - Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia
Além do DeLorean, Silotto também personalizou uma Toyota Hilux igual a que Marty ganha no final do primeiro filme
Imagem: Reprodução/Diego Garcia @photodiegogarcia

Ousado demais

Se no cinema e na garagem de fãs o DeLoren faz sucesso, na vida real, porém, o carro não teve vida fácil quando chegou ao mercado, em 1981.

Criado para encantar, ele trazia diversas soluções ousadas, como as portas asa de gaivota e a carroceria revestida por aço inoxidável. As linhas saíram das pranchetas do italiano Giorgetto Giugiaro e traziam o "DNA" dos carros assinados por ele, abusando de linhas retas em prol de um visual agressivo.

Era para ter ido além: o projeto inicial do carro previa um motor central-traseiro rotativo - similar aos usados pela Mazda no icônico RX-7 -, airbags e chassis feitos de composto plástico. Nenhuma dessas ideias, porém, chegou ao veículo de produção.

Todo o projeto do carro foi refeito com a consultoria do lendário Colin Chapman, fundador da Lotus. O DeLorean teria, então, um chassi de aço e acabou com um motor traseiro, um V6 de 2,85 litros originário de uma parceria entre Peugeot, Renault e Volvo.

No mercado, o carro foi vendido por três "anos-modelo": 1981, 1982 e 1983. A produção, mesmo, foi de 1980 até 1982. No início de 1982, a DeLorean Motor Company foi à falência e acabou comprada por uma empresa chamada Consolidated International, que montou o restante dos carros já como modelo 1983.

Já o criador da empresa, John Zachary DeLorean, se envolveu em algumas polêmicas. Em 1982, ele acabou sofrendo acusações de envolvimento em um esquema de tráfico de cocaína e, em 1985, foi a vez dele ser acusado de fraude e sonegação de impostos. Nos dois processos, ele acabou sendo declarado inocente.

No restante de sua vida, John DeLorean tentou atuar em outras áreas, chegando a patentear um sistema de transporte por monotrilhos e a vender relógios de luxo, sob a marca DeLorean Time. Tinha como plano ressuscitar a marca DeLorean e voltar a fabricar carros, mas a ideia não seguiu adiante. Morreu em 19 de março de 2005, em Nova Jersey, após sofrer um AVC.