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Carcará: como carro mais rápido do Brasil "virou panela" após bater recorde

Visual de espaçonave, motor 1.0 e uma dose de improviso foram as receitas para o Carcará se tornar um recordista de velocidade - Reprodução
Visual de espaçonave, motor 1.0 e uma dose de improviso foram as receitas para o Carcará se tornar um recordista de velocidade Imagem: Reprodução

Rodrigo Lara

Do UOL, em São Paulo

29/04/2021 04h00

A metade do século passado foi bastante efervescente para a indústria automotiva brasileira, especialmente nas competições. Nos anos 1960, marcas como DKW-Vemag, Willys, Simca, entre outras, se digladiavam por autódromos e pistas espalhados pelo país.

Velocidade era um tema comum, mas poucos carros da época representaram isso de forma tão pura quanto o Carcará - e, provavelmente, poucos acabaram tendo um destino tão cruel.

O curioso aqui é que, ao menos em sua concepção, esse protótipo não fora criado para "bater roda" com adversários em corridas. A função era ser rápido, sim, mas para outro objetivo: ser o primeiro recordista brasileiro em velocidade absoluta.

Time de estrelas

Citar aqui o time envolvido - direta e indiretamente - na criação do carro provavelmente fará essa página carregar mais lentamente, tamanho o peso da escalação. Mas vamos lá: a base era de um Fórmula Júnior, monoposto "charutinho" construído em parceria pelo piloto Chico Landi e o projetista Toni Bianco para uma categoria que não deu certo no Brasil.

Carcará - Jorge Lettry/Arquivo pessoal - Jorge Lettry/Arquivo pessoal
Modelo representou um dos últimos suspiros da DKW no Brasil
Imagem: Jorge Lettry/Arquivo pessoal

Sobre a estrutura desse monoposto foi feita uma carroceria que lembrava a de uma nave espacial. Obra de Anísio Campos, a meta aqui era ser leve - o material usado era alumínio - e aerodinâmico, algo evidenciado pelas rodas carenadas e a predominância de linhas planas.

Coordenando o projeto estava Jorge Lettry, que fez fama à frente do departamento de competições da DKW-Vemag. Curiosamente, o recorde de velocidade seria o último feito desse departamento, cuja extinção já estava programada para 30 de junho de 1966 - um dos reflexos da compra da Auto Union, marca alemã "mãe" da DKW, pela Volkswagen, em 1965.

O carro, por sua vez, foi produzido em Matão, no interior de São Paulo. A função ficou a cargo de Rino Malzoni, um dos sócios da Puma e criador de ícones da indústria automotiva brasileira, como o GT Malzoni.

O motor era um bloco DKW com capacidade cúbica aumentada para 1.089 cm³ (um motor 1.0, portanto), capaz de render 105 cv a 5.800 rpm. Para se ter uma ideia do que isso significa, basta lembrar que um Volkswagen up! TSi, que usa motor 1.0, precisa de injeção direta e turbo para conseguir os mesmos 105 cv. A "mágica" ficou a cargo do preparador Miguel Crispim.

Susto e recorde

Carro pronto, era hora de tentar bater o recorde. O local escolhido para isso era um trecho de cerca de cinco quilômetros da Rodovia Rio-Santos na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro - atualmente chamado de Avenida das Américas. Ele seria fechado por algumas horas entre os dias 28 e 29 de junho exclusivamente para a tentativa de recorde, algo impensável nos dias de hoje.

Carcará - Jorge Lettry/Arquivo pessoal - Jorge Lettry/Arquivo pessoal
Para chegar ao recorde foi necessária uma dose de improviso para manter o carro estável em alta velocidade
Imagem: Jorge Lettry/Arquivo pessoal

Ao volante do carro estaria Mário César de Camargo Filho, o Marinho, então piloto da equipe DKW-Vemag. Alguns problemas de estabilidade do carro em alta velocidade, no entanto, fizeram ele desistir da empreitada. No seu lugar entrou Norman Casari, também piloto da equipe.

A instabilidade foi solucionada, em partes, com uma medida criativa: a troca dos pneus dianteiros radiais por modelos diagonais, menos responsivos. As peças foram retiradas de uma perua Vemaguet do hoje jornalista Bob Sharp, que à época era funcionário da DKW e também piloto.

Foi um improviso com alta dose de risco, uma vez que os pneus eram homologados para velocidades até 150 km/h.

O recorde veio no segundo dia de testes: velocidade média de 212,903 km/h, resultado de duas passagens, cada uma em um sentido. A expectativa era chegar aos 230 km/h, mas um problema de motor acabou limitando o desempenho.

Triste fim

Um carro tão icônico merecia estar exposto em um museu, não é mesmo? Bem, infelizmente não foi isso que aconteceu.

Quem conta a história é Bob Sharp.

"O Carcará 'virou panela'. Explico: quando a Vemag encerrou a produção, em novembro de 1967, deu o Carcará para o Norman Casari. O Norman desmontou-o para utilizar o chassi num esporte-protótipo que usava motor traseiro-central originário de Ford Galaxie, com 4,5 litros. A carroceria, toda de alumínio, foi dada para o Gerry Cunningham, da Glaspac, onde ficou guardada", conta.

Ser desmontado, porém, seria apenas uma parte do triste fim do Carcará.

"Um dia foi feita uma limpeza dos galpões da Glaspac e num deles estava a carroceria, que foi levada embora como sucata. Nunca se soube que destino teve, mas a probabilidade - de 99%, eu diria - é ter virado panelas", complementa Sharp.

Mais longevo do que o Carcará foi o seu recorde: ele durou até outubro de 2005, quando foi quebrado por Thiago Jorge e seu Gol 1.0 de 350 cv de potência, que obteve a marca média de 219,1 km/h na interligação das rodovias Imigrantes e Anchieta, em São Paulo.