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Etanol polui realmente menos do que gasolina em carro flex? Não é bem assim

Em quantidade de emissões, etanol e gasolina se equivalem em motores flex; contudo, combustível vegetal gera substâncias menos nocivas à saúde - Reprodução
Em quantidade de emissões, etanol e gasolina se equivalem em motores flex; contudo, combustível vegetal gera substâncias menos nocivas à saúde Imagem: Reprodução

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

06/11/2020 04h00Atualizada em 09/11/2020 14h48

A adoção do etanol em larga escala para abastecer automóveis no Brasil é apontada como uma enorme vantagem frente a outros países em termos ambientais.

Por se tratar de um combustível renovável e de origem vegetal, o etanol compensa as emissões de dióxido de carbono, provenientes da respectiva queima no motor, durante o próprio ciclo de produção.

Isso acontece porque a cana-de-açúcar do qual é extraído, como toda planta, retira o CO2 da atmosfera e o converte em oxigênio - algo que a gasolina e o diesel, derivados do petróleo, não são capazes.

Vale destacar que o dióxido de carbono não é considerado poluente, por ser um gás natural que compõe a atmosfera terrestre. No entanto, ao mesmo tempo, trata-se de um dos maiores vilões do aquecimento global.

Porém, em carros flex, dá para cravar que usar etanol e não gasolina realmente polui menos?

De acordo com especialistas consultados por UOL Carros, sob certo aspecto, a resposta é "não".

Renato Romio, chefe da Divisão de Motores e Veículos do Centro de Pesquisas do Instituto Mauá de Tecnologia, destaca que, para fins de homologação, os motores são calibrados para emitir a mesma quantidade de poluentes, como monóxido de carbono, NOx (óxidos de nitrogênio) e hidrocarbonetos - tanto com gasolina quanto com etanol.

"As fabricantes fazem os projetos de forma a atender as normas de poluição, independentemente do combustível utilizado. Ajusta-se o motor para não ultrapassar os limites estabelecidos de emissões de cada substância nociva", explica o engenheiro.

Poluentes da gasolina são mais nocivos

Bomba combustível - Shutterstock - Shutterstock
Etanol é mais barato e agride menos o meio ambiente, apesar do consumo maior ante a gasolina
Imagem: Shutterstock

O também engenheiro Ricardo Abreu, consultor da Bright Consulting, concorda com o colega quanto à equidade do etanol e da gasolina em quantidade de poluentes emitidos.

No entanto, Abreu destaca que, em termos qualitativos, a queima do combustível proveniente da cana-de-açúcar expele na atmosfera resíduos menos nocivos à saúde.

Portanto, seus benefícios vão muito além da compensação do dióxido de carbono.

"Se você medir as emissões do mesmo motor com etanol e depois com gasolina, de fato elas serão semelhantes na quantidade. Contudo, a gasolina emite substâncias mais prejudiciais", afirma o consultor.

Ricardo Abreu menciona, por exemplo, os hidrocarbonetos, que são resultantes do combustível não queimado no motor.

"Os hidrocarbonetos gerados pela gasolina contêm benzeno, altamente tóxico, enquanto os do etanol não trazem essa substância. O álcool combustível, por outro lado, emite hidrocarbonetos com mais acetaldeído, também perigoso, porém menos nocivo do que o benzeno", pontua.

Abreu destaca que as duas alternativas de abastecimento se equivalem em emissões de óxidos de nitrogênio.

Mas o etanol, além de compensar o CO2 gerado, por meio da fotossíntese da cana, tem emissão cerca de 5% menor do gás.

Além disso, proporciona outro ganho ambiental no caso de motores flex equipados com injeção direta de combustível, que têm ganhado popularidade.

De acordo com o especialista, essa tecnologia gera mais quantidade de material particulado, causador de doenças pulmonares.

"A diferença é que o etanol, nesses motores, gera muito menos material particulado na comparação com o derivado de petróleo, seja gasolina ou diesel".

Após a publicação desta reportagem, a Unica (União da Indústria da Cana de Açúcar) enviou nota destacando que "apesar do limite das emissões de escape ser o mesmo para veículos usando etanol ou gasolina, isso não significa que as emissões reais, utilizando um ou outro combustível sejam iguais".

A entidade salienta que o consumo de etanol, que também tem percentual de 27% adicionado à gasolina no Brasil, "reduziu a emissão de gases de efeito estufa em mais de 515 milhões de toneladas de CO2eq9 desde março de 2003, data do lançamento dos veículos flex no Brasil, até maio de 2020.

Confira a íntegra da nota enviada pela Unica:

Com relação à matéria publicada, o título não exprime o que foi a mensagem do texto.
 Apesar do limite das emissões de escape ser o mesmo para veículos usando etanol ou gasolina, isso não significa que as emissões reais, utilizando um ou outro combustível sejam iguais.

O consumo de etanol hidratado pelos automóveis flex, combinado à mistura atual obrigatória de 27% de etanol anidro na gasolina, reduziu a emissão de gases de efeito estufa (GEE) em mais de 515 milhões de toneladas de CO2eq9 desde março de 2003 (data do lançamento dos veículos flex no Brasil), até maio de 2020. Esse volume é da mesma ordem de grandeza que as emissões anuais somadas de CO2eq de Argentina, Venezuela, Chile, Colômbia, Uruguai e Paraguai.

Quando avaliadas as emissões de gases causadores de efeito estufa (GEE) no ciclo de vida dos combustíveis, o etanol proporciona uma redução de até 90% da emissão de GEE em relação à gasolina. A emissão de CO2eq do cultivo da cana-de-açúcar até a queima do combustível no veículo atinge, em uma usina típica brasileira, 450 kg por metro cúbico (1000 litros), enquanto o volume de emissão equivalente para a gasolina totaliza 2,8 toneladas por m³.

A informação básica da matéria é que, mesmo em um caso em que dois veículos um utilizando gasolina e outro usando etanol emitissem a mesma quantidade de poluentes, a toxicidade do tipo das emissões do veículo movido a etanol é menor, e isso representa um ganho ambiental importante.


Nos motores modernos com injeção direta onde o poluente mais nocivo é o material particulado fino, o etanol emite entre 2 a 3 vezes menos.

Os benefícios associados à saúde pública do uso do etanol impressionam: trabalho desenvolvido pela Universidade de São Paulo concluiu que o uso do etanol combustível nas oito principais regiões metropolitanas do Brasil tem sido responsável pela redução de quase 1.400 mortes e mais de 9.000 internações anuais ocasionadas por problemas respiratórios e cardiovasculares associados somente ao uso de combustíveis fósseis. Trata-se de uma economia de R$ 430 milhões por ano para o sistema de saúde pública e privada.