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Clube de carrões veta políticos e nega ostentação: 'não vivemos numa bolha'

Criado em setembro de 2019, o Giro 20 ABC não tem políticos nem redes sociais; membros são empresários do ABC paulista - Divulgação
Criado em setembro de 2019, o Giro 20 ABC não tem políticos nem redes sociais; membros são empresários do ABC paulista Imagem: Divulgação

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

26/10/2020 04h00Atualizada em 26/10/2020 17h59

Em setembro do ano passado, um grupo de empresários bem-sucedidos, todos moradores de cidades do ABC paulista, criaram um clube para desfrutarem com segurança dos seus carrões esportivos de luxo. Limitado a apenas 20 participantes, o Giro 20 ABC conta com veículos de marcas como Porsche, Ferrari e Lamborghini.

Diferentemente de outras agremiações do tipo, o clube não divulga seus encontros em redes sociais, veta pessoas com histórico de aceleradas em alta velocidade dentro de vias públicas e se orgulha de não contar com "nenhum político" em seus quadros.

Com faixa etária em torno de 40 anos, seus integrantes negam gastar dinheiro em carros para ostentar e sim como uma "válvula de escape" ao cotidiano de reuniões corporativas e tomadas de decisão nas respectivas empresas.

Formado por pessoas que compartilham não só a paixão por carros, com também posições políticas e ideológicas, os associados costumam se reunir uma vez por mês em passeios rápidos para localidades como Riviera de São Lourenço e Aparecida, em São Paulo.

Por conta da pandemia do coronavírus, o grupo de amigos suspendeu os passeios no começo deste ano e só retomou os encontros recentemente - usando máscara e álcool gel, pontuam três dos seus membros, que conversaram com UOL Carros.

Giro 20 Clube dos carrões - Divulgação - Divulgação
Rubens Borin, Eduardo de Moura, Fabio Villatoro e André Brigagão se uniram para curtir carrões
Imagem: Divulgação

"Somos um grupo de trabalhadores. Trabalhadores de sucesso, não dá para negar. A gente acaba trabalhando muito e ficava com o carro parado durante dois, três meses. Sentimos a necessidade de ter essa união para andar com um pouco mais de segurança pelo menos uma vez por mês", diz o advogado Eduardo Barros de Moura, de 41 anos, um dos fundadores do Giro 20 ABC.

De acordo com Moura, dono de um Porsche Boxster S 2010, foi justamente a segurança a motivação para restringir o número de integrantes. Para alguém participar, esclarece, tem de ser indicado por um dos sócios e existir vaga aberta - todas as 20 hoje estão preenchidas e existe uma "fila de espera".

Além disso, Eduardo Moura afirma que é feita uma pesquisa do histórico do postulante antes da sua admissão.

"Ninguém do clube quer alguém ao seu lado acelerando a 300 km/h, fazendo zigue-zague. Não é o nosso intuito. A maioria de nós é casada e tem filhos", complementa.

Todos os encontros são organizados por meio de um grupo de WhatsApp e não há divulgação dos passeios em outras redes sociais.

A ideia é mesmo manter tudo bem fechado e controlado, enfatiza André Luis Brigagão, de 40 anos, também advogado e empresário. Ele tem na garagem um Porsche Panamera Turbo 2010 com cerca de 40 mil km rodados - o único blindado do Giro 20.

"Preferimos não divulgar os passeios para não sermos mal vistos. Não temos interesse em autopromoção. Infelizmente, a gente ainda vive em um País muito desigual e todos nós somos sensíveis a isso", afirma Brigagão.

'Nada veio fácil'

Giro 20 Clube dos carrões carros lateral - Divulgação - Divulgação
Carros de luxo rodam pouco e alguns têm 10 anos de fabricação; clube preza pela segurança
Imagem: Divulgação

Ele e os demais colegas não fogem de comentar como é ser alguém com condições financeiras privilegiadas a ponto de investir em um "brinquedo" que pode custar mais do que um apartamento - e que isso costuma atrair julgamentos e comentários negativos, além do risco de assaltos e sequestros.

Ainda assim, acreditam que os carrões e a diversão proporcionada por eles são um presente merecido.

"A gente não vive numa bolha, sai de carro nos fins de semana e esquece o que está acontecendo no Brasil. Todos nós temos uma vida corporativa bem pesada, quase rotineiramente trabalhamos dez, 12 horas em um dia. Nada veio fácil para nós e damos emprego para várias famílias", posiciona-se o químico Fabio Villatoro, de 43 anos.

Dono de um Ford Mustang Boss 2010, o empresário avalia que "ser empresário no Brasil é muito complicado" e não traz "nenhuma estabilidade".

"Parece que você explora as pessoas, que você teve sorte na vida por andar com um carro que chama a atenção. O bastidor ninguém vê. Quantas horas de trabalho, quantas coisas das quais a gente se absteve para conquistar essas coisas", complementa Villatoro.

'Não temos político no grupo'

Giro 20 Clube dos carrões Porsche vermelho - Divulgação - Divulgação
Carrões estacionados em um dos passeios; membros pretendem fazer ações beneficentes
Imagem: Divulgação

A situação política e econômica do Brasil, inclusive, é tema das conversas durante os passeios do Giro 20 ABC - além dos lançamentos de carros, revelam seus integrantes.

Os três entrevistados exaltam as prisões de políticos na Operação Lava-Jato como sinais de avanço e avaliam que a situação do País está cada vez melhor, embora ainda não seja o "cenário ideal".

Especialmente no que se refere à classe política, todos revelam sérias restrições. Nenhum deles declarou voto em determinado candidato.

"Não temos nenhum político em nosso grupo. Se tivermos a informação de que algum membro lida com qualquer tipo de corrupção, ele não vai participar", deixa claro Eduardo de Moura.

"Não dá para compactuar com dinheiro em cueca. Há cerca de 20 anos, quando comecei na minha profissão, ninguém acreditava que políticos um dia seriam presos. Hoje temos ex-governadores e um ex-presidente que estiveram ou estão presos. É uma alegria imensa ver a justiça sendo feita, trata-se de uma demonstração de que o País está mudando".

"Não acredito em político, mas institucionalmente o País está se fortalecendo. Todo mundo do clube está expandindo o negócio, abrindo filial", conclui Moura.

Villatoro faz coro ao colega.

"Se os políticos não atrapalhassem, seria perfeito. A gente não precisa de política, de nada, é só trabalhar".