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Como Ferrari clássica virou pechincha após ser largada na rua por 17 anos

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

15/07/2020 04h00

A Ferrari Testarossa marcou época na década de 1980, equipada com motor de 12 cilindros naturalmente aspirado e com aparições no cinema e na TV - a exemplo do seriado "Miami Vice".

Um exemplar do esportivo, apresentado no Salão de Paris (França) em 1984, não sai por menos do que R$ 1,5 milhão no Brasil. Nos Estados Unidos, as unidades mais baratas custam aproximadamente US$ 90 mil (cerca de R$ 480 mil na conversão direta, de acordo com o câmbio de ontem).

Em Porto Rico, o proprietário de uma Testarossa 1987, adquirida zero-quilômetro, por alguma razão simplesmente estacionou a berlinetta na rua e a deixou parada no mesmo local por nada menos do que 17 anos.

Nem o motor 4.9 de 12 cilindros, 385 cv e 48,9 kgfm, o primeiro da fabricante de Maranello equipado com quatro válvulas por cilindro, foi ligado nesse período.

O britânico Scott Chivers, especializado em comprar Ferraris usadas por pechinchas para depois restaurá-las na garagem de casa, descobriu a Testarossa negligenciada sob o sol e a chuva do país caribenho.

Recentemente, ele localizou no Iraque uma F40 que pertenceu a Uday Hussein, filho do ditador Saddam Hussein, mas não fechou negócio.

Dono do canal "Ratarossa" no YouTube, Chivers afirma que a Testarossa de Porto Rico seria uma excelente oportunidade para iniciar um novo projeto de restauração, caso ela não estivesse em outro continente.

"De acordo com as fotos que recebi, o carro mantém todas as partes originais, incluindo o kit de ferramentas e o estepe. A pintura está desgastada e terá de ser totalmente refeita, mas a carroceria não apresenta sinais de batida nem de ferrugem. Fiquei tentado", conta o "Caçador de Ferraris".

Vendida por 1/3 do preço

Ferrari Testarossa 1987 Porto Rico Ratarossa Scott Chivers Caçador de Ferraris - Reprodução - Reprodução
Dono comprou Testarossa 1987 zerada e deixou esportivo estacionado na rua durante 17 anos
Imagem: Reprodução

Scott Chivers recebeu as informações, além de fotos e vídeos do veículo, do canal Abandonedcars.Puertorico no Instagram. A Testarossa acaba se ser vendida por US$ 32 mil (R$ 171 mil). Trata-se de uma barganha, considerando que custou 1/3 do preço de mercado.

"Somente uma roda desse carro sai por US$ 2 mil [R$ 10,7 mil] e nenhuma peça está faltando, aparentemente. Estimo que o novo dono, que já iniciou a reforma em Porto Rico, vá gastar algo em torno de US$ 15 mil [R$ 80,2 mil] para deixá-la em bom estado e rodando novamente".

O youtuber inglês, que mora em Londres, conta que o motor vai exigir bastante trabalho, como a substituição de todas as tubulações e correias, além da troca da parte elétrica. O interior, por sua vez, exibe sinais de desgaste pela exposição ao sol no painel, cuja forração está bastante deteriorada.

Por outro lado, os bancos de couro surpreendentemente estão em boas condições.

Chivers relata que a última vez na qual a Testarossa passou por uma revisão foi em 1995.

"O proprietário estacionou e nunca mais dirigiu o veículo, a ponto de não ter mais condições de ser ligado. Isso é muito estranho".

Após a Ferrari ficar quase duas décadas parada, o asfalto sob o cupê exibia uma enorme quantidade de sujeira acumulada quando o carro foi retirado do local em um guincho, após ser vendido.

Ferrari Testarossa 1987 Porto Rico Ratarossa Scott Chivers Caçador de Ferraris - Reprodução - Reprodução
Interior traz todas as peças, mas sofreu deterioração após quase 2 décadas exposto ao sol
Imagem: Reprodução

O "Caçador de Ferraris" tem um apreço especial pela Testarossa, já que tem uma na garagem, que apelidou de "Ratarossa".

Ele mesmo construiu sua Testarossa 1987 Spider a partir da carroceria de um exemplar cupê que encontrou nos Estados Unidos.

Chivers transformou a "sucata de luxo" em uma versão conversível raríssima - apenas uma unidade com teto retrátil foi produzida oficialmente pela Ferrari. A "Ratarossa" hoje está totalmente funcional, mas nunca recebeu pintura. Ele pretende deixá-la assim.

O termo "Rat" é a sigla para recycled automotive transport ou transporte automotivo reciclado - o que bem define o jeito com que Chivers vê as Ferraris.

O britânico também é dono de outros cinco modelos da marca: 360 Challenge Stradale 2003, 456 GTA 1997, 355 Spider 1999, 308 GTS QV 1983 e 308 GTSi 1982 - este último ainda está em processo de reforma.

'Ferrari não é intocável'

caçador de ferraris scott chivers Coleção - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Algumas das Ferraris que Scott Chivers tem ou já teve; ele usa os esportivos no dia a dia
Imagem: Arquivo pessoal

"Minha abordagem [com os carros da marca italiana] é desfazer o mito de que pessoas normais não podem ter ou mexer em Ferraris. Elas são vistas como intocáveis, que não podem receber manutenção por ninguém que não seja uma oficina certificada pela Ferrari, que cobra uma fortuna pelos serviços", explica o inglês.

"Gosto de demonstrar para minha audiência que são carros como quaisquer outros, com mecânica semelhante à de modelos de marcas como Volkswagen e BMW", complementa.

Scott Chivers, que trabalha em tempo integral como "youtuber", posta vídeos demonstrando o passo a passo de vários procedimentos, como troca de correia e ajuste do motor.

Caçando barganhas

caçador de ferraris scott chivers Ferrari 456GTA 1997 lateral - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
'Youtuber' comprou 456 GTA 1997 pela metade do valor de mercado e gastou só US$ 300 para repará-la
Imagem: Arquivo pessoal

Além de orientações sobre procedimentos mecânicos e de reparo, Scott Chivers também dá dicas nos seus vídeos de como garimpar barganhas de Ferraris e fazê-las valerem muito mais dinheiro com alguma habilidade na oficina - sem deixar a conta no vermelho para tal, considerando o poder aquisitivo médio dos britânicos, muito superior ao dos brasileiros.

Ele não pretende vender os carros da sua coleção atual, mas já passou adiante outras Ferraris.

"Quando vendo, em geral tenho lucro. Por exemplo, paguei US$ 19 mil [cerca de R$ 101,6 mil no câmbio de ontem] por minha 456 GTA 1997 e gastei mais US$ 300 (R$ 1,6 mil) para consertá-la e deixá-la rodando novamente", relata.

De acordo com Chivers, essa Ferrari pode ser vendida por cerca de US$ 40 mil (R$ 214 mil) - praticamente o dobro do dinheiro investido.

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