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Fiat Tempra único recupera interior bege que 'deu ruim' há 24 anos

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

01/07/2020 04h00

Veículos com interior claro ou bege estão em alta. Há mais de duas décadas, porém, essa tonalidade não era tão comum - principalmente entre carros nacionais.

Em 1996, o Fiat Tempra ganhou a opção de bancos e revestimentos de couro bege para a versão topo de linha Stile. Disponível sob encomenda, o item durou pouco tempo e saiu do catálogo no ano seguinte.

De acordo com o colecionador Alexandre Badolato, dono de um Tempra Stile 1996 que acaba de ser restaurado, o motivo foi a má aceitação dos clientes: o revestimento ficava encardido com alguns meses de uso.

"O couro bege do Tempra não tinha impermeabilização adequada e manchava por conta da umidade. Em 1997, a Fiat voltou a oferecer bancos de couro exclusivamente na cor preta", conta o empresário paulista.

Responsável pela restauração, Rafael Lourenço Rodrigues Souza diz que Tempra com interior bege é "mosca branca".

"O único com bancos beges originais rodando no Brasil é o do Badolato. Existe outro, mas virou sucata", crava Souza, entusiasta e pesquisador da história do Tempra.

Além de reformar o Stile 1996, ele também ajudou a garimpar o carro - que talvez seja o Tempra mais raro do Brasil.

Badolato adquiriu o sedã há cerca de um ano e meio em Brasília (DF). Quando fechou negócio, o carro trazia interior de couro preto. Porém, o colecionador teve acesso a fotos tiradas do Tempra recém saído da concessionária, na capital federal. As imagens mostram o veículo com interior bege.

Restauração na garagem de casa

Rafael Souza abraçou projeto de Badolato e deixou Tempra Stile em estado de zero-quilômetro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rafael Souza abraçou projeto de Badolato e deixou Tempra Stile em estado de zero-quilômetro
Imagem: Arquivo pessoal

Rafael Souza esclarece a história: o Tempra Stile 1996 na cor vermelha Alpine pertencia a um funcionário da embaixada do Togo, que encomendou os assentos beges e adquiriu o veículo zerado.

"Menos de um ano após a compra, o couro ficou manchado. Foi então que o dono solicitou a troca por couro preto. A Fiat fez o serviço dentro da garantia".

Souza reformou o Stile de Badolato na garagem de casa, em Catalão (GO).

Na restauração, que durou um ano e dois meses e demandou 634 horas de trabalho, o veículo recuperou o acabamento original bege. Na avaliação do atual proprietário, o serviço foi executado com "precisão" - deixando o Fiat "como zero-quilômetro" e, claro, exibindo o raro interior de couro claro.

Engenheiro mecânico especializado em desenvolvimento de produto, Rafael Souza tem um Tempra Turbo 1995, que também restaurou em casa.

"O Tempra não é muito valorizado por colecionadores no Brasil. Para mim, não tem preço. Minha ligação com ele é afetiva. Meu pai, que faleceu em 2011, teve um entre 1998 e 2003 que eu tive a oportunidade de dirigir. Ainda sonho em encontrá-lo para reformar. Já sei a cidade onde o carro está".

Alexandre Badolato destaca que o Tempra foi barato para comprar, mas precisou gastar quase quatro vezes mais na restauração.

Turbo e bancos elétricos

O Tempra de Badolato traz todos os equipamentos disponíveis quando foi lançado.

Além do interior bege, conta com itens de luxo, raros para o seu tempo: ar-condicionado digital, bancos dianteiros com ajustes elétricos, sistema de som original com disqueteira e a cereja do bolo: o motor 2.0 turbo de oito válvulas, capaz de render 165 cv de potência e 26,5 kgfm de torque, gerenciado pelo câmbio manual de cinco marchas.

"Deu trabalho para achar todas as peças necessárias. O Tempra brasileiro traz mecânica do Lancia Delta Integrale de primeira geração, monobloco do Fiat Regata argentino e carroceria do Tempra europeu. Só não tem tração nas quatro rodas, como o Lancia", explica Souza.

Ele lembra que aproveitou as férias na Itália para encontrar componentes e recorreu a um amigo que viajou para a Europa a fim de adquirir outras peças.

"Retifiquei o motor de acordo com as especificações originais, enquanto o trabalho de funilaria e tapeçaria foi terceirizado. Para deixar a cabine do jeito certo, recorri a fotos de época e a um catálogo do carro".

Souza, que trabalha em uma montadora, aproveitou os cerca de dois meses de parada, por conta da pandemia do coronavírus, para finalizar o projeto.

"Consegui montar todo o carro entre abril e maio. Posso dizer que ele é filho da quarentena", brinca.