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Auto Pobre: paródia de programa da Globo viraliza com gambiarras em carros

Criador do quadro Auto Pobre no Facebook e no Youtube, o humorista Stevan Gaipo avalia Gol sem freio de mão nem velocímetro: "carro nota 10 para o trabalhador brasileiro" - Reprodução
Criador do quadro Auto Pobre no Facebook e no Youtube, o humorista Stevan Gaipo avalia Gol sem freio de mão nem velocímetro: 'carro nota 10 para o trabalhador brasileiro'
Imagem: Reprodução

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

28/05/2020 04h00

"Chega de AutoEsporte falando de carros que você nunca vai ter. Este é o Auto Pobre, que analisa os carros dos trabalhadores brasileiros".

É assim que o humorista Stevan Gaipo, de 24 anos, anuncia um dos vídeos nos quais testa carros velhos, detonados e cheios de gambiarras.

Paródias do programa AutoEsporte, da TV Globo, as publicações do Auto Pobre dão destaque aos equipamentos dos veículos que não funcionam ou foram reparados com arame e outros métodos alternativos.

Essas publicações viralizaram e são responsáveis por atrair uma parcela considerável dos mais de 2 milhões de inscritos no canal de Gaipo no Facebook.

Escort com cola epóxi no motor

Stevan Gaipo Auto Pobre Escort Durepoxi - Reprodução - Reprodução
Gaipo abre a porta do Escort sem travas, maçanetas nem manivela de vidro: 'Simples, rápido e seguro'
Imagem: Reprodução

Segundo o jovem, o vídeo no qual ele avalia um Volkswagen Gol com pneu careca e freio de mão quebrado, já tem quase 7 milhões de visualizações na rede social.

Na postagem relativa ao Gol, Stevan destaca que é "mais fácil falar do que tem nele que funciona do que tudo o que não funciona".

"A seta só pisca no lado direito se você segurar a alavanca. Porém, a gente sabe que em grande parte das cidades brasileiras a seta é considerada um acessório dispensável", ironiza.

Outro episódio do quadro Auto Pobre, que traz um Ford Escort 1985 sem maçanetas e com adesivo epóxi no motor, soma quase 2 milhões de espectadores na mesma plataforma, diz.

Nesse vídeo, o humorista tem de abrir a porta empurrando o vidro para baixo com as mãos.

"Eu fiz um curso com o proprietário. No Escort, a gente abre assim. Simples, rápido e seguro".

Em outro trecho, Gaipo mostra que o banco do motorista do Escort não tem regulagem. "Não precisa ter por que o carro não é meu. Então ele tem de ser regulado para quem? Para o dono e mais ninguém. Quem dirige o carro do trabalhador brasileiro é apenas aquele trabalhador brasileiro", conclui.

Stevan Gaipo relata como nasceu a ideia do Auto Pobre.

"Nunca foi de acompanhar vídeos automotivos no YouTube. Minha inspiração é mesmo o Auto Esporte. A ideia foi 'empobrecer' o formato do programa, mas sempre elogiando o carro. O brasileiro tem muito amor por seus carros", diz Stevan, humorista profissional desde os 21 anos.

'Pessoas se identificam'

Stevan Gaipo Auto Pobre Escort Durepoxi teto - Reprodução - Reprodução
Detalhe do forro de teto do Escort: 'no primeiro rasgo, dono colocou fita adesiva, mas depois desistiu'
Imagem: Reprodução

O tema pobreza, aliás, é constante não apenas nos quadros do Auto Pobre, como também em outras postagens e nas esquetes que Gaipo promove nas suas apresentações de stand-up comedy - atualmente suspensas devido ao coronavírus.

Morador de Belo Horizonte (MG), o humorista conta que a inspiração para as piadas vem de experiências pessoais, pois ele mesmo sabe como é viver com grana curta.

"É uma verdade que a gente passa. Além dos carros, nas minhas postagens falo de experiências do dia a dia, pegando ônibus errado. Quando comecei a viver do humorismo, a grana era apertada".

Esse é o fator que tem atraído tanta audiência, avalia: "As pessoas se identificam. O cotidiano da vida da gente tem muitos perrengues, falta de dinheiro".

Stevan conta que bancou o início da carreira profissional com a rescisão paga por uma empresa de marketing digital da qual foi demitido.

"Deu errado no começo. Porém, desde o fim de 2018, os vídeos começaram a estourar e os shows, a encher. Hoje, meu principal rendimento vem da monetização desses vídeos, principalmente no Facebook, enquanto as apresentações estão paradas".

Ex-pobre?

Stevan Gaipo Auto Pobre VW Fusca - Divulgação - Divulgação
Stevan com seu Fusca, comprado há cerca de um ano e que está bem conservado: 'pessoal elogia'
Imagem: Divulgação

Com a melhora nas condições de vida, Gaipo relata que é "fiscalizado" por seus seguidores e aproveita para fazer piada.

"Posto com videogame, TV e celular novos e já ficam dizendo que sou um 'ex-pobre'. Não existe 'ex-pobre'. Quem é forjado na pobreza pode ficar bilionário que não sai da vida da pessoa. Continua usando o chuveiro no modo verão durante o inverno para economizar com a conta de luz", brinca.

Stevan hoje é dono de um Volkswagen Fusca 1973 que não tem nada de gambiarra. Ele, que prefere andar de bicicleta ou utilizar transporte público em Belo Horizonte, usa o carro em viagens curtas, como nos deslocamentos da capital até Oliveira, sua cidade natal - onde ainda moram sua mãe e seus três irmãos.

Boa parte dos vídeos é feita em Oliveira, município com pouco mais de 40 mil habitantes localizado a cerca de 150 km da capital mineira.

"No interior, você tem mais facilidade para encontrar carro velho. São veículos de pessoas mais humildes, que usam o carro no dia a dia, para ir à roça, transportar mercadorias e animais".

Stevan diz que no início tinha de achar "na unha" os veículos do Auto Pobre, mas agora muita gente oferece seus automóveis para o quadro. Segundo Gaipo, a reação dos proprietários aos vídeos é boa, apesar do destaque dado aos defeitos e gambiarras dos veículos.

"O Tonho, dono do Escort, queria vendê-lo. Depois de participar do Auto Pobre, viu a quantidade de visualizações e passou a gostar mais do carro. Desistiu de passá-lo adiante e agora diz que pretende consertá-lo".