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Santos Dumont trouxe carro ao Brasil, mas não foi o 1º a emplacar veículo

Peugeot Type 3 semelhante ao que pertenceu a Alberto Santos Dumont repousa em museu da marca na França - Reprodução
Peugeot Type 3 semelhante ao que pertenceu a Alberto Santos Dumont repousa em museu da marca na França Imagem: Reprodução

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo

02/05/2020 04h00

O brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932) é conhecido no Brasil e na Europa como o pai da aviação, embora os norte-americanos atribuam esse título aos irmãos Wright.

Deixando a polêmica de lado, antes de surpreender o mundo ao sobrevoar Paris com o 14 Bis, em novembro de 1906, Santos Dumont trouxe o primeiro automóvel a rodar no Estado de São Paulo, em 1891.

O Peugeot Type 3 também é apontado como o primeiro carro de que se tem notícia aqui, a julgar pelos registros históricos.

Um detalhe: o veículo de Santos Dumont, trazido da França para a capital paulista, não foi o primeiro do País a receber uma placa de registro para poder circular, mediante licenciamento e inspeção.

Peugeot Type 3 Santos Dumont Museu da Energia de São Paulo - Reprodução/Museu da Energia de São Paulo - Reprodução/Museu da Energia de São Paulo
Alberto Santos Dumont e parentes com seus carros defronte ao casarão da família na capital paulista
Imagem: Reprodução/Museu da Energia de São Paulo

A primazia coube a um carro do conde Francisco Matarazzo em 1903, quando o emplacamento de automóveis passou a ser obrigatório na cidade de São Paulo - aponta o blog "São Paulo in Foco".

No fim de 1900, a prefeitura já tinha começado a cobrar imposto dos veículos a motor, algo equivalente ao IPVA atual.

No ano seguinte, inclusive, Henrique Santos Dumont, irmão mais velho de Alberto, tentou sem sucesso a isenção do tributo, referente a outro Peugeot da família.

O livro "Capital da Vertigem" (Editora Objetiva), do jornalista e pesquisador Roberto Pompeu de Toledo, menciona essa e outras histórias do início do mercado automotivo nacional.

A publicação traz a petição enviada por Henrique à prefeitura, na qual ele utiliza o termo francês automobile.

"O dr. Henrique Santos Dumont vem requerer baixa no lançamento de imposto sobre seu automobile pelas seguintes razões: o suplicante, sendo o primeiro introdutor desse sistema de veículo nesta cidade, o fez com sacrifício de seus interesses, e mais para dotar nossa cidade com esse exemplar de veículo automobile; porquanto, após quaisquer excursões por curtas que sejam, são necessários dispendiosos reparos no vehiculo devido à má adaptação do nosso calçamento, pelo qual são prejudicados, sempre, os pneus das rodas", dizia a petição.

O carro de Alberto Santos Dumont

O livro conta que Santos Dumont, então com 18 anos de idade, trouxe o Peugeot Type 3 fabricado em 1891 após uma viagem de sete meses que fez com a família para Paris. Na época, já era um entusiasta de motores a combustão e balões.

O próprio Alberto Santos Dumont relata como o carro veio parar no Brasil na autobiografia "Os Meus Balões".

A decisão de investir em um automóvel, que era raro inclusive nas ruas de Paris, aconteceu após uma tentativa frustrada de voar de balão - ele se recusou a pagar 1,2 mil francos cobrados pelo "aeronauta profissional".

"Os automóveis eram ainda raros em Paris em 1891. Tive de ir à usina de Valentigney para comprar minha primeira máquina, uma Peugeot de rodas altas, de três e meio cavalos de força", conta o inventor, que dispunha de fartos recursos financeiros, por ser filho de um dos cafeicultores mais ricos de São Paulo.

"Era uma curiosidade. Nesse tempo não existia ainda nem licença de automóvel nem exame de motorista. Quando alguém dirigia a nova invenção pelas ruas da capital [no caso, Paris], era por sua própria conta e risco. E tal era o interesse popular que eu não podia parar em certas praças, como a da Opera, com receio de juntar a multidão e interromper o trânsito", complementa.

Alberto Santos Dumont não dá detalhes, porém menciona ter trazido o Peugeot ao Brasil e pontua que, desde a aquisição, tornou-se um "adepto fervoroso do automóvel".

"Entretive-me a estudar os seus diversos órgãos [peças] e a ação de cada um. Aprendi a tratar e consertar a máquina", apontado que essa experiência seria fundamental nos seus futuros projetos de balões dirigíveis e, por fim, de aviões com asas e motor.

Depois de trazer o carro, ele retornou à capital francesa no ano seguinte.

'Placa P-1'

O livro de Pompeu de Toledo também cita o primeiro automóvel a ser emplacado aqui. Ele pertencia a Francisco Matarazzo.

"Ele [Matarazzo] era o nº 1 na indústria, o nº 1 em riqueza, e o nº 1 até no automóvel - ao inaugurar-se o emplacamento na cidade, coube-lhe a placa P-1 ('P' de particular)", relata o autor.

O empresário foi um dos primeiros a fixar residência na Avenida Paulista e seu carro virou uma atração na cidade - bem como os veículos dos Santos Dumont e das famílias Prado e Penteado, outros pioneiros quando se trata de automóvel no Brasil.

"Pessoas concentravam-se na calçada para vê-lo entrar ou sair do carro. No dia de seu aniversário, 9 de março, pequenas multidões reuniam-se junto aos muros e ele lhes acenava da sacada, como o papa", diz Pompeu de Toledo.

Conversamos com o autor, segundo o qual ele não encontrou indícios nem registros de que esses carros pioneiros ainda existam, preservados em algum museu ou acervo particular.

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