PUBLICIDADE
Topo

Tesla no Brasil? Por que desejo de Bolsonaro será difícil de se concretizar

Tesla brasileiro? Por enquanto não passa de mera especulação - Divulgação
Tesla brasileiro? Por enquanto não passa de mera especulação
Imagem: Divulgação

Vitor Matsubara

Do UOL, em São Paulo (SP)

22/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Governo confirmou que tentará convencer Elon Musk a investir no país
  • Tesla só tem uma fábrica fora dos EUA; 2ª planta será erguida na Alemanha
  • Altos custos e falta de infraestrutura serão maiores entraves na produção nacional

O governo brasileiro pretende convencer a Tesla a fazer carros no Brasil. A informação divulgada por alguns veículos de imprensa foi confirmada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, que realizará uma visita à empresa nos Estados Unidos ao lado do Ministro da Economia, Paulo Guedes.

Porém, a missão não será tão fácil assim. Além de persuadir Elon Musk a investir no mercado brasileiro, a fabricante sofre com atrasos na produção e dificuldades para obter lucro nos países onde está presente de forma oficial.

Dias difíceis

A Tesla teve um ano complicado em 2019. As incertezas que rondavam a empresa fizeram as ações despencarem, mas o balanço final foi positivo graças a um bom resultado no fim do ano.

A montadora sofreu um grande baque no primeiro trimestre, quando registrou um prejuízo de US$ 702 milhões - o quarto pior resultado da história da empresa.

Model Y é uma das apostas da Tesla para incrementar lucros - Divulgação
Model Y é uma das apostas da Tesla para incrementar lucros
Imagem: Divulgação

A queda no número de vendas em relação ao fim de 2018 foi determinante para o resultado negativo. O declínio foi atribuído aos esforços da empresa em atender a demanda pelo Model 3 em dois mercados importantes: Europa e China.

Musk, porém, demorou meses para admitir que as vendas da Tesla estavam em queda. Como resultado, o valor das ações de sua empresa despencou vertiginosamente para menos de US$ 180 por ação - seu menor valor em três anos.

Há algum tempo a montadora anda na corda bamba. Em 2018, a Tesla teve um prejuízo de US$ 1 bilhão após 12 meses. Na época, Musk admitiu até a possibilidade de a empresa fechar as portas.

A reviravolta

Produção do Model 3 foi recorde em 2019 - Divulgação
Produção do Model 3 foi recorde em 2019
Imagem: Divulgação

Porém, a vida da Tesla mudou em 2019. Foram 367.500 carros vendidos apenas no ano passado, mais do que o total de unidades comercializadas nos dois anos anteriores. Até o valor das ações subiu rapidamente para mais de US$ 400.

No último trimestre, a Tesla entregou 92.550 unidades do Model 3 e 112 mil veículos de outros modelos - mais do que o total de carros vendidos durante todo o ano de 2017.

Foi o resultado de um esforço coletivo para entregar o maior número de veículos possíveis, e até Musk apareceu de surpresa na fábrica da empresa na Califórnia no dia 30 de dezembro para "ajudar com as entregas".

"Gigafábricas"

Tesla tem duas fábricas nos Estados Unidos; maior delas fica na Califórnia - Divulgação
Tesla tem duas fábricas nos Estados Unidos; maior delas fica na Califórnia
Imagem: Divulgação

Bom lembrar que tudo isso aconteceu antes da inauguração de sua primeira fábrica fora dos Estados Unidos. A nova "gigafactory" (nome dado às fábricas da empresa pelo mundo) na China tem tudo para turbinar as vendas da Tesla em 2020.

A montadora (que foi a primeira a obter autorização para operar no mercado chinês sem a necessidade de um parceiro local) estima produzir pelo menos 250 mil unidades por ano do Model 3 e futuramente do Model Y, o SUV apresentado por Elon Musk em 2019. Se tudo der certo, a Tesla pretende dobrar esse número no futuro.

Atualmente, a Tesla possui quatro fábricas pelo mundo. Duas delas ficam nos Estados Unidos: a maior delas está na Califórnia e a outras duas são mantidas no país para produzir componentes. A quarta fica em Xangai e uma nova planta deve ser erguida nos arredores de Berlim, na Alemanha.

Caso venha a fabricar carros no Brasil, a Tesla poderia se instalar em Criciúma (SC) - pelo menos segundo a proposta do governo brasileiro. A escolha pela cidade catarinense aconteceu porque o deputado Daniel Freitas (PSL-SC), autor de um projeto de lei para isenção de impostos a carros elétricos, é um dos articuladores do projeto.

E o Brasil?

Só que fabricar carros elétricos no Brasil não é tão fácil quanto parece - e nem a Tesla está livre de alguns entraves.

Hoje faltam fornecedores capacitados para abastecer uma montadora de carros elétricos. Não há produção nacional de baterias, item mais caro e importante em um veículo elétrico. Lógico que isso poderia mudar rapidamente, mas isso demandaria altos custos.

É verdade que a Tesla fabrica suas próprias baterias em vez de depender de fornecedores (como fazem a maioria das montadoras que apostam na tecnologia), mas, mesmo assim, a Tesla mantém apenas duas fábricas: uma nos Estados Unidos e outra na China.

Volvo é uma das marcas que mais investe na construção de novos pontos de recarga - Vitor Matsubara/UOL
Volvo é uma das marcas que mais investe na construção de novos pontos de recarga
Imagem: Vitor Matsubara/UOL

A pífia infraestrutura para recarga também desencoraja potenciais compradores de carros elétricos. Atualmente, estima-se que há pouco mais de 250 pontos espalhados pelo país, sendo que a maioria deles está nas regiões Sul e Sudeste.

A construção de novos postos, inclusive, depende de iniciativas patrocinadas por montadoras e/ou empresas de energia elétrica. Mesmo em países mais desenvolvidos e familiarizados com este tipo de carro enfrentam problemas semelhantes.

Países como a China e EUA concedem incentivos a empresas interessadas em fabricar carros elétricos. Ao mesmo tempo, os motoristas também desfrutam de descontos em algumas cidades na compra de um veículo movido a eletricidade.

Enquanto isso, o Brasil ainda engatinha nos incentivos à produção de carros híbridos e elétricos, algo que as montadoras já pleitearam em algumas ocasiões.

Apenas em 2018 é que o Rota 2030 trouxe metas de eficiência energética para as fabricantes atingirem até o fim da década. Em troca, o governo promete oferecer isenções fiscais. Além disso, o imposto de importação para carros 100% elétricos foi zerado e o de híbridos foi reduzido.

Quer pagar quanto?

Por fim, os preços praticados ainda são proibitivos. O JAC iEV20 é o carro elétrico mais barato do país, e mesmo assim custa mais de R$ 120 mil. Os modelos mais caros passam facilmente dos R$ 400 mil.

Justamente por isso é que as vendas são bastante tímidas. No ano passado, menos de 12 mil carros híbridos e elétricos foram comercializados no país. O volume é irrisório perto dos mais de 2,6 milhões de veículos a combustão emplacados em 2019.

JAC iEV20 é o elétrico mais barato do Brasil, e mesmo assim custa mais de R$ 120 mil - Murilo Góes/UOL
JAC iEV20 é o elétrico mais barato do Brasil, e mesmo assim custa mais de R$ 120 mil
Imagem: Murilo Góes/UOL

Mesmo assim, o Boston Consulting Group (BCG) estima que este cenário pode mudar dentro de alguns anos.

De acordo com o instituto, os carros elétricos vão representar 5% da frota de carros novos vendidos no Brasil - algo em torno de 180 mil unidades. Se as previsões estiverem certas, nosso país pode se tornar um mercado interessante no futuro, mas ainda está bem longe disso.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado, a Tesla tem uma fábrica fora dos Estados Unidos, e não do Brasil. A informação foi corrigida.