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Ex-CEO de Renault e Nissan, Ghosn deixa Japão rumo ao Líbano

Do UOL, em São Paulo (SP)

30/12/2019 19h29Atualizada em 31/12/2019 10h12

Resumo da notícia

  • Jornal diz que Ghosn teria aterrissado no Líbano em jato particular vindo da Turquia
  • Ex-CEO da aliança Renault-Nissan está em prisão domiciliar desde abril de 2019
  • Executivo é acusado de má conduta financeira

O ex-presidente da aliança Renault-Nissan, Carlos Ghosn, fugiu do Japão rumo ao Líbano.

"Estou agora no Líbano e não serei mais refém do manipulado sistema de justiça japonês, onde a culpa é presumida, a discriminação é desenfreada e os direitos humanos são negados, em flagrante desrespeito às obrigações legais do Japão sob o direito internacional e os tratados que deve obedecer. Eu não fugi da justiça, eu escapei da injustiça e da perseguição política. Eu posso agora finalmente me comunicar livremente com a imprensa e pretendo fazê-lo a partir da semana que vem", disse, por meio de comunicado divulgado hoje (31).

A informação foi divulgada ontem (30) pelo jornal "L'Orient-Le Jour", mas não havia confirmação oficial até então. Ghosn teria desembarcado no Líbano em um jato particular proveniente da Turquia.

Desvio de recursos

O ex-presidente da aliança Renault-Nissan aguarda julgamento por má conduta financeira. Ghosn foi preso em novembro de 2018 em Tóquio, sob acusações de omitir parte de seus rendimentos e usar indevidamente verbas das montadoras que comandava.

Carlos Ghosn liderava a Nissan desde 1999 e evitou a falência da marca japonesa. Também arranjou uma importante aliança global entre ela e a francesa Renault, posteriormente estendida à também nipônica Mitsubishi.

Carlos Ghosn 1 - Antonio Lacerda/EFE - Antonio Lacerda/EFE
Nascido no Brasil. Ghosn salvou a Nissan da falência
Imagem: Antonio Lacerda/EFE

No fim de novembro, a Nissan confirmou que, com base em um relatório de denunciantes, estava investigando possíveis práticas impróprias de Ghosn e do diretor-representante Greg Kelly (que também foi demitido da empresa e preso logo depois) por vários meses. O caso foi parar no Ministério Público do Japão, que determinou a prisão do executivo que liderava a companhia.

Segundo a agência japonesa "Jiji", Ghosn notificava à Receita Federal japonesa ganhos de 10 bilhões de ienes (quase R$ 334 milhões) para ocultar o uso pessoal de outros 5 bilhões de ienes (R$ 167 milhões). Este montante seria de dinheiro da companhia usado em benefício próprio por ele e por Kelly - este último, inclusive, deixou a prisão há pouco mais de um ano.

"A investigação mostrou que ao longo de muitos anos Ghosn e Kelly relataram valores de compensação no relatório de valores mobiliários da Tokyo Stock Exchange que eram menores do que a quantia real, a fim de reduzir a quantia divulgada da compensação de Carlos Ghosn", disse a Nissan em um comunicado na ocasião.

Carlos Ghosn 2 - Divulgação - Divulgação
Ghosn teria feito até festa de casamento com recursos da Renault
Imagem: Divulgação

Informações de outra agência nipônica, a "Kyodo", apontaram que a fraude estaria sendo conduzida pelo menos desde 2011.

Além disso, uma filial holandesa da Nissan, criada em 2010, teria gasto cerca de R$ 68 milhões (US$ 18 milhões) em aquisições de imóveis, inclusive no Brasil, para o seu ainda presidente. As transações teriam sido maquiadas pela aparente finalidade de investimentos. A denúncia foi feita pelo jornal econômico japonês "Nikkei". Outras casas em Beirute (Líbano), Paris (França) e Amsterdã (Holanda) fariam parte da fraude.

Dessa forma, a soma não declarada por Ghosn totalizaria R$ 167 milhões (US$ 44,5 milhões), o que constitui uma violação da legislação de instrumentos financeiros de Japão. A pena máxima é de 10 anos de prisão e multa individual de 10 milhões de ienes (R$ 334 mil).

Ghosn teria realizado até uma festa com recursos provenientes da Renault. De acordo com o jornal "Le Figaro", o executivo fechou um acordo de patrocínio para a reforma do Palácio de Versalhes, no qual a fabricante poderia realizar eventos corporativos no local. Entretanto, Ghosn teria ganhado o aluguel de um dos espaços do local, avaliado em 50 mil euros (aproximadamente R$ 210 mil), para realizar a recepção do casamento com sua atual esposa Carole Ghosn.

A publicação ainda revelou que a empresa contratada para realizar o evento indicou em uma das faturas que o salão foi "oferecido por Versalhes", ou seja, não houve pagamento pelo aluguel. A Renault afirma que "decidiu levar essas descobertas ao conhecimento das autoridades judiciais" e abriu um processo contra o ex-CEO.

Duas prisões

Preso pela primeira vez em 19 de novembro, Ghosn deixou a cadeia após pagar fiança em 6 de março. O executivo, que nasceu no Brasil e tem cidadanias libanesa e francesa, voltou a ser detido no começo de abril e foi solto alguns dias depois, em 25 de abril. Desde então, o ex-CEO cumpria pena de prisão domiciliar.

Ghosn preso 1 - Kyodo/via REUTERS  - Kyodo/via REUTERS
Ghosn deixa escritório de advogados um dia antes da segunda detenção
Imagem: Kyodo/via REUTERS

Ghosn foi libertado pela segunda vez apenas mediante algumas condições estabelecidas pela justiça japonesa, como a proibição de sua saída do Japão e o veto a possíveis tentativas de manipulação de provas contra ele.

Durante todo o período em que foi detido, o executivo acusou a Nissan de fazer um complô contra ele para tirá-lo do poder.

Fora das empresas

O executivo foi demitido do comando da Nissan ainda em novembro de 2018, mas permaneceu mais alguns dias como membro do conselho administrativo da companhia. Em janeiro deste ano, Ghosn concordou em renunciar aos cargos de presidente-executivo e presidente do conselho da Renault, onde foi substituído por Jean-Dominique Senard.

Na empresa japonesa, Carlos foi substituído por Hiroto Saikawa, que renunciou ao cargo de CEO em setembro de 2019 após admitir o recebimento de quantias ilegais. Saikawa foi substituído por Makoto Uchida, que ocupa o comando da Nissan de forma interina, uma vez que seu mandato seria até 1º de janeiro de 2020.