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Especialistas: autoescola é indispensável e é preciso ter mais fiscalização

Aluno usa simulador em autoescola; resolução do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) tornou equipamento opcional - Ronny Santos/Folhapress
Aluno usa simulador em autoescola; resolução do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) tornou equipamento opcional
Imagem: Ronny Santos/Folhapress

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

31/07/2019 07h00

Resumo da notícia

  • Presidente Bolsonaro declarou que 'não devia ter exame' para CNH
  • Estudiosos de segurança no trânsito defendem mais 'diálogo'
  • Especialistas avaliam que sistema atual pode melhorar
  • A cada ano, cerca de 40 mil pessoas morrem no trânsito no Brasil

A declaração do presidente Jair Bolsonaro feita na quinta passada, na qual defendeu que "não tem que cursar autoescola" para tirar CNH, é contestada por especialistas em segurança no trânsito ouvidos por UOL Carros. Na live semanal, transmitida nas redes sociais, Bolsonaro também disse que aprendeu a dirigir em um trator aos dez anos de idade e "não devia ter exame".

"Isto mostra simplesmente o grau de desinformação do presidente em relação aos requisitos básicos para se ter um trânsito decente. Quando ele diz que aprendeu a dirigir num trator na fazenda, mostra o desprezo pela lei e pela ordem, que ele diz que preza tanto, no trânsito. Ao mesmo tempo, mostra sua falta de sensibilidade com as quase 40 mil famílias de mortos no trânsito a cada ano no país, além das centenas de milhares de sequelados em razão dos acidentes provocados por desrespeito, imperícia e irresponsabilidade dos condutores", avalia J. Pedro Corrêa, consultor em programas de trânsito.

Corrêa também ressalta que o presidente "menciona facilitar o acesso à habilitação, mas não fala em reforçar a fiscalização, um dos maiores problemas brasileiros". "O que me parece mais dramático nestas declarações é a evidência de que ele não dá a menor 'pelota' para os responsáveis pelas área de trânsito, que jamais aceitariam corroborar colocações tão absurdas".

"Nada impede que o sistema seja revisto"

Segundo David Duarte, professor da UnB e doutor em segurança de trânsito, 1 milhão de habitantes ficam feridos no trânsito no Brasil, causando cerca de R$ 60 bilhões por ano em custos advocatícios, prejuízos com perda de produção e toda a questão de tratamento de politraumatizados e resgate de feridos. "Cerca de 300 mil pessoas todos os anos ficam com invalidez permanente, basta olhar os dados do DPVAT [seguro obrigatório]. Ficam penduradas no INSS".

"Direito a dirigir é uma concessão. Para ter acesso a esse direito de conduzir, é preciso ter uma formação, é preciso ter uma habilitação e é preciso ter exames", complementa Duarte.

Para Celso Alves Mariano, especialista no tema e diretor do Portal do Trânsito, "nada impede que o sistema seja revisto". "Convenhamos, a qualidade das questões das provas teóricas e o que é exigido nos exames práticos dos Detrans não inspiram muita confiança para isso", avalia. "Porém, apenas desativar ou desobrigar a passagem pela autoescola, sem uma devida estruturação de uma nova modalidade, seja ela qual for, somente resultará em piora do quadro que temos hoje. O que não pode é metodologia nenhuma".

De acordo com Mariano, as aulas práticas e teóricas para tirar a primeira habilitação são "indispensáveis", embora haja "muito o que melhorar".

David Duarte Lima lembra que há pessoas com muito mais facilidade para dirigir que outras. "É preciso melhorar, coisa que o Contran [Conselho Nacional de Trânsito] deveria fazer e o governo, estimular, para padronizar os exames para tirar carteira. É preciso estabelecer uma régua, ou como se diz, um sarrafo mínimo para que as pessoas possam passar naquele exame", aponta o especialista.

Para Lima, nem todos são iguais: "Tem pessoas que adquirem esses conhecimentos com cinco, dez aulas. Outras, com 20, 40 horas-aula. Nós precisamos melhorar, como fez a Espanha, a qualidade da nossa formação para o condutor".

"Diálogo com a sociedade"

Corrêa vai na mesma linha: "Aqui temos um problema porque, de maneira geral, os cursos de formação de condutores dos nossos CFCs (Centros de Formação de Condutores) deixam a desejar e por isso merecem um puxão de orelhas. Mas daí a dizer que 'nem precisava cursar autoescola, nem ter exame de nada', vai uma grande diferença. Para acabar com os ratos do porão, não precisa botar fogo na casa!".

Para o especialista, se o governo quiser melhorar o trânsito, precisa aperfeiçoar seus mecanismos de controle em todas as suas áreas: educação, engenharia e fiscalização. "Precisa ter mais profissionalismo, regras claras, planos consistentes e duradouros e, principalmente, maior diálogo com a sociedade", opina. "Se o governo Bolsonaro fizer uma grande pesquisa de opinião pública perguntando à sociedade qual o trânsito que ela deseja, ouvirá: melhoria na educação, aprimoramento da engenharia, cumprimento irrestrito das leis, punição aos infratores e paz, muita paz no trânsito", conclui.

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