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Fiat 147 que inaugurou Pró-Álcool é preservado em Minas Gerais

Do UOL, em Betim (MG)

04/07/2019 08h00

Resumo da notícia

  • Modelo foi lançado em junho de 1979
  • Unidade histórica foi doada ao Ministério da Fazenda à época
  • Modelo retornou à Fiat mais de 30 anos depois e ficou em galpão

Primeiro carro da Fiat fabricado no Brasil, o 147 começou seu ciclo na fábrica de Betim (MG), em 9 de julho de 1976. Um dos marcos para o modelo seria estabelecido três anos depois: em 1979, a Fiat foi a primeira fabricante a abraçar o chamado "Pro-Álcool" (Programa Nacional do Álcool).

Com três anos de desenvolvimento, o "Fiat 147 100% a álcool" ganhou as ruas em 5 de julho daquele ano, pouco tempo após o início da distribuição do álcool combustível - atualmente chamado de etanol - nos principais postos do país. Sua fabricação aconteceu de forma ininterrupta entre 1979 e 1987, auge dos modelos movidos a álcool no Brasil.

Segundo a Fiat, pouco mais de 120 mil unidades do 147 a álcool foram vendidas e uma de suas unidades está preservada na fábrica em Minas Gerais. O motor era derivado do 1.3 carburado originalmente a gasolina. Tinha 60 cavalos de potência brutos (52 cv líquidos, segundo o parceiro Best Cars) a 5.200 giros, com torque de 10 kgfm chegando até que cedo, a 2.600 rotações.

Taxa de compressão alcançada na época era de 10,65:1 - o que sabemos atualmente ser baixa para uso do álcool, resultando em queima pouco eficiente. Ainda assim, na comparação, o 1.3 a gasolina era mais elástico, com 72 cv (5.800 giros), mas a diferença de força era inexpressiva (10,4 kgfm) e chegava mais tarde (4 mil giros).

Como velocidade máxima era de 140 km/h (contra 135 km/h no 147 a gasolina), com 0-100 km/h em 17 segundos e retomadas mais rápidas, fora o valor do álcool combustível bem menor na bomba (cerca de metade do valor da gasolina), a aceitação foi grande.

Em uma comparação com a atualidade, o motor 1.0 flex atual do Fiat Mobi rende 77 cv e 10,9 kgfm com etanol. Mesmo menor, tem taxa de compressão maior (13,2:1), velocidade máxima de 154 km/h e 0-100 km/h em 13,4 s.

O câmbio era o mesmo manual de quatro marchas do modelo a gasolina, mas o 147 a álcool se beneficiava de itens típicos de versões mais caras, como cintos de três pontos nos bancos dianteiros, apoios de cabeça no banco traseiro, vidros verdes com desembaçador e freios assistidos (a disco na dianteira, tambor na traseira). Mantinha o bom espaço interno (apesar dos 2,22 m de entre-eixos) e porta-malas (350 litros) do projeto original.

O que era o Pró-Álcool?

Criado em em 14 de novembro de 1975, o Pró-Álcool era uma política de Estado criada pelo Decreto 76.593 do governo da ditadura militar. Previa incentivo para substituição de derivados de petróleo, principalmente a gasolina: benefícios fiscais à produção do álcool anidro da cana-de-açúcar (que até então era apenas adicionado à gasolina) e seu beneficiamento como combustível automotivo, além de redução de impostos para carros a álcool.

No contexto global da "crise internacional do petróleo", iniciada em 1973, o Pró-Álcool permitiu ao consumidor nacional uma curiosa independência em relação às oscilações do petróleo e fortaleceu, também, o avanço da engenharia local.

Com três períodos distintos, segundo dados do CNAL (Conselho Nacional do Álcool) o Pró-Álcool teve sua fase inicial gerando algo em torno de 3,5 bilhões de litros/ano. No auge, entre 1980 e 1987, foram 12,3 bilhões de litros/ano.

O mercado de modelos a álcool explodiu, claro. Em 1979, na estreia do 147 a álcool, a produção era de apenas 0,46% do total. Em 1986, atingia 76%. As vendas neste mesmo período eram massivas: ninguém queria carro a gasolina, com veículos a álcool perfazendo 96% das entregas.

No fim da década de 1980 e começo da década de 1990, houve a derrocada do programa. O mercado internacional via um ciclo positivo do petróleo, enquanto o Brasil enfrentou séria crise de abastecimento do produto, mas também o movimento de abertura do mercado às importações (a partir de 1992, com o presidente Fernando Collor).

Sem álcool nos postos, os motoristas faziam fila para abastecer e começaram a procurar outras opções. "As demais alternativas eram deixar o carro em casa ou fazer gambiarra para usar gasolina", afirma Robson Cotta, gerente de engenharia experimental da FCA, que desenvolveu soluções da Fiat à época.

Em 1998, a solução tomada pelo governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso para aplacar a crise do programa foi, por medida provisória, elevar o percentual de adição de álcool anidro à gasolina para 22% até o limite de 24%.

Buscando soluções mecânicas desde o início da crise do Pró-Álcool, a indústria levou quase 10 anos para chegar à solução. Em 23 de março de 2003, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foi feito o lançamento do programa do "motor flex". Mas não foi a Fiat, e sim a rival Volkswagen, a pioneira na entrega comercial da tecnologia que permitia abastecer tanto com gasolina, quanto com álcool combustível (já conhecido como etanol). Nesta data, o primeiro Volkswagen Gol 1.6 Total Flex foi doado ao programa "Fome Zero".

Com a era do motor flex, carros apenas a álcool desapareceram. Mas parece que a Fiat tenta alterar novamente a história, apostando novamente neste tipo de motorização, ainda que combinada a componentes elétricos (baterias e alternadores de ata capacidade) e sistemas de sobrealimentação (turbo) para maior eficiência.

Primeira unidade do 147 a Álcool foi doado ao Ministério da Fazenda, em 1979. O carro acabou retornando à Fiat quase 35 anos depois, sendo então restaurado - Divulgação
Primeira unidade do 147 a Álcool foi doado ao Ministério da Fazenda, em 1979. O carro acabou retornando à Fiat quase 35 anos depois, sendo então restaurado
Imagem: Divulgação

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