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JAC T80, 7 lugares, aposta em tecnologia e turbo. Chinês vale R$ 140 mil?

Fernando Miragaya

Colaboração para UOL Carros, em São Paulo (SP)

09/05/2019 07h00

Resumo da notícia

  • SUV de luxo da marca oriental mostra evolução no conforto e no acerto mecânico
  • Motor 2.0 turbo anda bem e rodar é confortável
  • Itens de série incluem bancos elétricos e refrigerados

Pense em uma marca que literalmente se deu mal com a crise e com o Inovar-Auto. A JAC Motors foi do céu ao inferno e tenta ficar em evidência com o que o mercado quer: utilitários esportivos. A cartada da vez, o SUV médio T80, pode ser apontada como a mais ousada.

É preciso ousadia para convencer o consumidor a desembolsar R$ 139.990 por um SUV de sete lugares que chega com as desconfianças costumeiras relativas a um veículo chinês. Ainda mais sem Faustão como garoto-propaganda e com uma rede de concessionárias enxuta.

Mas o T80 carrega os novos ares dos utilitários esportivos da marca e isso fica claro no desempenho, no conjunto mais sólido e na tecnologia embarcada. Só que, para apresentar tais virtudes, a marca tem de se valer da velha retórica de carro chinês do "mais por menos".

Desempenho progressivo

O "mais" vai além do recheio e começa pelo conjunto mecânico com motor 2.0 turbo e caixa de dupla embreagem. Está longe da pegada arisca de seus propensos rivais -- Volkswagen Tiguan Allspace e Chevrolet Equinox --, mas o desempenho é progressivo e constante para movimentar o pesadão de mais de 1.700 kg sem pestanejar.

São 210 cv do motor que, curiosamente, não tem injeção direta. O casamento com a transmissão automatizada com embreagem dupla foi claramente arranjado em busca de conforto e suavidade ao rodar, carências históricas dos chineses. Por isso, não espere aquela agilidade nas trocas do câmbio DSG, do grupo VW.

Nem conte com isso nas retomadas. Ao pisar forte em uma situação de velocidade de cruzeiro, é percebido um atraso no turbo de, pelo menos, um segundo. O motor enche bem em baixos giros, mas, para uma transmissão de dupla embreagem, também há certa demora no engate da marcha inferior. Desta forma, situações de ultrapassagens e até de serras mais íngremes são prejudicadas.

A propósito, é na estrada que a busca pelo conforto fica mais clara. E o T80 evidencia a busca por evolução da marca. A 110 km/h permitidos na rodovia, o conta-giros ainda está para chegar na marca de 2.000 rpm.

Aquela sensação de passar em uma rua de paralelepípedos não existe, pois o nível de vibração é bem baixo, especialmente no volante. O isolamento acústico também se mostra competente até esta velocidade -- acima disso, incomoda.

A preocupação com conforto resultou em um jogo de suspensão multibraço com molas helicoidais na traseira, que absorve bem os buracos, mas carece de certa firmeza em curvas. O T80, contudo, não é aquele "João Bobo" como alguns rivais chineses, a exemplo do Lifan X80.

Apesar de a assistência elétrica da direção ficar meio anestesiada em altas velocidades, o JAC se mostra comportado a maior parte do tempo. Especialmente nas frenagens -- nesse momento, o que incomoda é a falta de maior rigidez do pedal do freio.

Vida a bordo

A vida a bordo é generosa em termos de espaço. Motorista tem posição alta de dirigir, mas o volante deve um prosaico ajuste de profundidade. Junto com o carona, o condutor desfruta de bancos com espessura macia, ajustes elétricos, aquecimento e o melhor: refrigeração -- se você riu disso é porque nunca deixou seu carro sob o sol do escaldante verão carioca.

O banco traseiro leva três adultos normais sem forçar a barra -- pernas e joelhos sobram. Porém, as costas do passageiro do meio sofrerão com o encosto que embute o descansa braço.

Porém, não mais que o infeliz que for sorteado para viajar nos bancos da terceira fila. Acessar os bancos extras é um drama capaz de comprometer sua artrose no joelho -- é preciso rebater o encosto para chegar o banco corrediço da segunda fila para a frente, mas a altura do assoalho complica as coisas.

Lá, na terceira fila, pessoas com 1,72 metro de altura raspam a cabeça no teto por causa do caimento da terceira coluna. Os joelhos ficam mais articulados do que em uma Chevrolet Spin. A sensação é a de estar em uma ressonância magnética em posição fetal.

Nem aquelas crianças que fizeram malcriação o dia inteiro e parecem ter um pacto com o capeta merecem viajar ali. Além disso, com os bancos armados, o porta-malas de 620 litros vira um espaço cenográfico que leva só uma bagagem média.

Capricho no acabamento

Passado este desabafo, voltamos atenções à cabine e à clara preocupação em entregar um ambiente refinado para um SUV de R$ 140 mil. O T80 mostra capricho no painel e portas, com materiais emborrachados e suaves ao toque. Aço escovado e costuras aparentes aumentam o grau de sofisticação percebido.

Como jornalista é uma raça que adora achar defeitos, ainda mais em um SUV chinês, fomos fuçar os cantos. Só dá para falar mal das molduras de plástico na parte de trás dos encostos dianteiros. Ah, e do dispensável e brega relógio com algarismos romanos ao centro do painel.

Obviamente, para ajudar a embalar tudo isso, a JAC sabe que tem que entregar mais em equipamentos que a concorrência. Além de seis airbags, controles de estabilidade e tração, assistente à partida em rampas e Isofix, a parte de segurança inclui câmeras "360 graus" e de ré, luzes de conversão, regulagem de altura dos faróis e sensores de obstáculos dianteiros e traseiros.

Há outros itens de destaque para tentar se diferenciar. É o caso do quadro de instrumentos digital com três modos de configuração. Inclua na lista banco do motorista com massageador, chave presencial, rebatimento elétrico dos retrovisores e central multimídia com tela de dez polegadas que espelha smartphones -- mas tem interface confusa e respostas lentas.

O teto solar e o som Infinity presentes no modelo avaliado são opcionais que deixam o T80 mais caro. Mas diante de tanta ousadia -- ou coragem --, o que são R$ 6 mil, não é mesmo?

FICHA TÉCNICA

Motor: 2.0 a gasolina, quatro cilindros, 16V
Potência: 210 cv a 5.000 rpm
Torque: 30,6 kgfm a 1.800 rpm
Câmbio: automatizado de dupla embreagem com seis marchas; tração dianteira
Velocidade máxima: 217 km/h
0-100 km/h: 9,2 s
Dimensões: 4,79 m (comprimento), 2,75 m (entre-eixos)
Porta-malas: 620 litros (150 litros com os bancos extras)
Preço: R$ 139.990

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